domingo, janeiro 15, 2006

ATRAVÉS DOS PANOS


A pintora Manuela Jardim está a realizar em colaboração com o Museu Nacional de Etnologia um trabalho sobre a panaria de Cabo Verde e da Guiné-Bissau de que resultou a exposição extremamente original, intitulada “Através dos Panos” que está patente no referido museu e cuja visita se recomenda vivamente.
Manuela Jardim é uma pintora portuguesa, nascida em Bolama e que conjuga na sua criação artística de forma harmoniosa as suas raízes simultaneamente africanas e portuguesas. É uma expressão do Portugal plural, e da mestiçagem cultural que emerge de forma crescentemente inovadora e criativa na sociedade portuguesa e que é uma das nossas mais valias mais evidentes no quadro cultural europeu.
Manuela Jardim é uma pintora que partiu do imenso azul do mar e do céu para o diálogo com a melhor poesia portuguesa, incluindo Camões e Fernando Pessoa e que encetou nos últimos anos uma revisitação mais profunda das suas origens guineenses designadamente da panaria. Aliás, os panos, os mares, os búzios, sempre estiveram presentes na sua pintura para quem olhar com atenção a estrutura dos seus quadros.
Manuela Jardim procurou estudar do ponto de vista estético a ligação já referida pelos trabalhos de António Carreira entre os azulejos moçárabes, que são a matriz da rica azulejaria portuguesa e os panos de obra, tecidos em teares manuais, que ainda hoje se usam em Cabo Verde e na Guiné-Bissau. Basta assistir a um batuque em Santiago (Cabo Verde) para ver a ligação que existe entre os motivos dos panos que as mulheres usam à cintura e os azulejos moçárabes que se encontram, por exemplo, no Museu dos Azulejos em Lisboa.
A partir dessa investigação, Manuela Jardim concebeu um percurso que conjuga a exposição de panos da Guiné, Cabo Verde e de outros países vizinhos, que fazem parte das reservas visitáveis do museu, com esculturas em arame e papel reciclado que reproduzem a inspiração da panaria tradicional da Guiné-Bissau e Cabo Verde ou com suportes bidimensionais em papel reciclado que reproduzem a estampagem dos panos de obra que foram objecto de investigação. Estão também patentes materiais que resultaram da desconstrução dos motivos decorativos das estampagens dos panos de obra, que vão ser utilizados para explicar ao público escolar o processo criativo que lhe está subjacente.
A exposição conjuga cultura com uma preocupação educativa, é uma exposição viva, em que a visita às reservas de panaria do museu é articulada com o funcionamento de diversos ateliers, de curta ou longa duração. Os primeiros estão ligados a visitas guiadas de escolas ou outras instituições e permitem uma introdução prática à educação visual e artística; os outros, mensais, já estão ligados a uma aprendizagem das técnicas utilizadas.
O cuidado, o rigor, e o bom gosto esteve presente no facto de na inauguração termos sido brindados com música de Corá, instrumento musical constituído por uma caixa de ressonância e inúmeras cordas, aproximadamente 21, que é usado por alguns povos mandingas, designadamente, da Guiné-Bissau e que foi muito bem tocado pelo músico guineense Galissa.
A exposição foi inaugurada pela Ministra da Cultura, que celebrou recentemente com a Ministra da Educação um protocolo no quadro do qual se prevê uma colaboração entre os dois Ministérios.
A colaboração da pintora e professora Manuela Jardim com o Museu de Etnologia antecipou-se a este protocolo, resultou de uma aposta feita e ganha na qualidade deste projecto pela Ministra da Educação, Maria Lurdes Rodrigues.
Não é em vão que se faz esta viagem através dos panos. Ficamos com uma grande curiosidade em perceber quais os reflexos que esta nova experimentação de materiais e técnicas terá nos trabalhos futuros da pintora e arriscaríamos escultora, Manuela Jardim.

Foto: SARA JARDIM

4 comentários:

joeyalaxander7094 disse...

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homoclinica disse...

Vale a pena ler o post http://aguiar-conraria.weblog.com.pt/arquivo/153534.html, que acho que tem a ver com os interesses de José Leitão.
Que me diz a situações destas? Nascido em Portugal há 20 anos e ainda precisa de vistos "temporários" de residência em Portugal, válidos por 2 anos ???? !!!! Acilina

romualda disse...

Aqui está uma forma concreta e criativa de esbater as fronteiras e aproximar aos povos, neste mundo que se pretende que seja cada vez mais uma aldeia global. Só através de um conhecimento mútuo poderemos coabitar harmoniosamente nele. Parabéns para a pintora Manuela Jardim pelo contributo que dá, com mais este trabalho, para a esse conhecimento. É fundamental que nos demos a conhecer ao mundo o melhor que temos para podermos igualmente receber o melhor que ele tem para nos oferecer e, sobretudo, para que possamos todos entender o quanto a diferença que nos separa é inferior ao que nos une.
Parabéns Zé Leitão por este texto que só a sua mente aberta, e o seu espírito fraterno pode produzirem.

Romualda Fernandes

Natalia Umbelina disse...

As minhas maiores felicitações a Manuela jardim que soube aproveitar o que herdou da tradição e casa-la com a modernidade. Soube potenciar os conhecimentos que foi adquirindo na sociedade que se quer plural, mas discriminatoria, para valorizar a tradição guinenense, Cabo-verdiana e portuguesa e quiça mostrar os laços que unem esses dois povos e culturas. Manuela Jardim deve constituir um exemplo do "ir e voltar" a seguir pela diaspora. Parabéns badjuda

Uma palavra de apreço ao Dr. José Leitão que vem fazendo todo um trabalho para coexistirmos com todas as nossas parecenças e diferenças. Cordialmente. Natalia Umbelina

Natalia Umbelina