segunda-feira, abril 28, 2014
sábado, abril 19, 2014
SE DEUS FOSSE UM ATIVISTA DOS DIREITOS HUMANOS
Boaventura de Sousa Santos
constrói a sua argumentação a partir da constatação de que, por um lado, a
grande maioria da população mundial não é sujeita de direitos humanos e de uma
pergunta “(…) sendo os direitos humanos a
linguagem hegemónica da dignidade humana (..) os grupos sociais oprimidos não
podem deixar de perguntar se os direitos humanos sendo parte da mesma hegemonia que consolida e legitima a opressão, não poderão ser usados para a subverter? (…)
de modo contra-hegemónico?” O que conduz a outras perguntas, nomeadamente,
sobre que outras linguagens de dignidade existem no mundo e se existindo, são compatíveis com a linguagem
dos direitos humanos.
É a partir deste pondo de partida
que se dá o encontro crítico com as teologias políticas inspiradas pelo
cristianismo, islamismo e judaísmo, bem como uma análise sobre as zonas de
contacto dos direitos humanos com as teologias políticas.
Segundo Boaventura de Sousa
Santos “Estes movimentos, crescentemente
globalizados, e as teologias políticas que os sustentam constituem uma
gramática de defesa da dignidade humana que rivaliza com a que subjaz aos
direitos humanos e muitas vezes a contradiz. As conceções e práticas
convencionais ou hegemónicas dos direitos humanos não são capazes de enfrentar
esses desafios nem sequer imaginam que seja necessário fazê-lo.”
São particularmente estimulantes
do debate teológico e político os termos da resposta que procura dar aos
desafios referidos, que designa como uma conceção pós-secularista dos direitos
humanos, e o laço de cumplicidade que considera possível estabelecer entre o
que denomina os direitos humanos contra-hegemónicos e teologias progressistas.
A luta contra o sofrimento humano
injusto, contra a trivialização do sofrimento humano nos nossos dias, parece
poder permitir ligar o retorno de Deus a um humanismo insurgente,
trans-moderno, concreto.
São muitas e contraditórias as
teologias políticas, que se afrontam atualmente, das teologias fundamentalistas
às que denomina teologias progressistas, as quais considera “podem ajudar a recuperar a «humanidade» dos
direitos humanos”.
O seu argumento resume-se nestes
termos.”(…) um diálogo entre os direitos
humanos e as teologias progressistas é não só possível como é provavelmente um
bom caminho para desenvolver práticas verdadeiramente interculturais e
mais eficazmente emancipadoras (…) o resultado será uma ecologia de concepções
de dignidade humana, algumas seculares, outras religiosas(…)”.
Assentando num amplo conhecimento, inclusive, das
teologias de libertação é, pela força das coisas, um livro inacabado. Muitas
páginas estão-lhe a ser acrescentadas, o que é também um elogio, pelas lutas
libertadoras no mundo, designadamente, de hegemonia islâmica, conduzidas por
mulheres e homens animados pela fé islâmica, mas também por outros, igualmente muçulmanos, cristãos, ou agnósticos, que baseiam
o seu combate libertador em leituras seculares do islão, que desconfiam das
teologias políticas islâmicas mesmo as que têm um registo libertador.
É um livro de leitura e de debate incontornável. Pretendemos sinalizar a sua importância, concordando com a linha geral da sua argumentação.
domingo, abril 13, 2014
RECORDAR O 10.º ANIVERSÁRIO DO 25 DE ABRIL- UMA COMEMORAÇÃO DIFERENTE
MODERNIZAR A ESQUERDA, COMEMORAR A LIBERDADE
Foi assim possível um encontro
entre cidadãos com trajetos políticos muito diferentes, entre os quais alguns
socialistas, que decidiram comemorar a liberdade contribuindo para a
modernização da esquerda.
Foi um momento de convergência a
que se seguiram percursos diferentes.
Considero que não devemos
esquecer esse momento, e por isso divulgo, o manifesto e os seus subscritores
deixando uma palavra de profunda mágoa e saudade para todos os que já morreram.
Eis o texto e a lista de todos os
que o subscreveram.
“Vinte e cinco cidadãos genericamente oriundos da esquerda radical
decidiram comemorar o 25 de Abril de maneira diferente. E a diferença
consistirá em não reduzir o festejo à glorificação acrítica do que foi feito -
mas em aproveitar a data, para questionar a própria cultura política da esquerda
tradicional, os seus mitos e os seus fantasmas, pensando novos caminhos para
modernizar o País.
Para nós, festejar o 25 de Abril não é subscrever os tradicionais
cheques em branco a favor das 2conquistas irreversíveis da revolução”. È
essencialmente celebrar a democracia política e a liberdade. Comemorar o fim do
colonialismo e do regime corporativo que o promoveu. É festejar a consagração
da cidadania e dos direitos dos trabalhadores, é festejar a dinâmica da
liberalização de costumes, da emancipação das mulheres e dos jovens, da despenalização
do sexo e do prazer. É festejar o despontar da modernidade na sociedade
portuguesa.
Festejar o 25 de Abril será também questionar valores tradicionalmente
associados à esquerda, confrontá-los com os resultados efectivamente alcançados
e com as realidades de um mundo em acelerada mutação.
Com este duplo objectivo de festejo - debate, e promovemos no próximo
dia 25 de Abril uma iniciativa pública no Restaurante da Doca Marítima de
Alcântara: pelas 12 horas inicia-se um debate aberto a que se seguirá um
jantar-festa.(…).”.
O texto definia desde logo os
termos do debate e as questões a que se deveria responder, concluindo-se:
“ Naturalmente como pano de fundo de todos estes problemas (e de outros
que poderão obviamente surgir) encontra-se uma das questões centrais para os
que se reivindicam uma cultura de esquerda moderna e anti-totalitária, ou seja,
a questão das relações entre o Estado democrático e a sociedade civil, entre a
intervenção estatal e a liberdade individual, entre a protecção social e a
iniciativa de cada um”.
Terminava “ Sob o signo da liberdade vamos festejar o 25 de Abril e desafiar o
futuro”.
Subscreveram: Acácio Barreiros
(dputado), Afonso de Barros (prof. universitário), Agostinho Roseta (func.
público) Alberto Teixeira Ribeiro (sociólogo), António Bento (engenheiro),
António Carriço (engenheiro), António Corvelo (jurista), António Costa Pinto
(assistente universitário), Armando Castro (prof. universitário), edgar Rocha
(economista), Eurico Figueiredo (prof. universitário), Fernando Ribeiro Mendes
(assistente universitário), Ferro Rodrigues (economista), João Carlos Espada (jornalista), João Faria (economista), João ferreira de Sousa (prof.
universitário), Joffre Justino (economista), José Leitão (deputado), José Luís
Saldanha Sanches (assistente universitário), José Manuel Félix Ribeiro
(economista), José Pacheco Pereira (historiador), Luís Borges (emp.
escritório), Manuel Vilaverde Cabral (prof. unversitário), Ramiro da Costa
(istoriador) Teresa de Sousa( jornalista)
domingo, abril 06, 2014
A ATUALIDADE DO GESTO DE ARISTIDES DE SOUSA MENDES
O gesto de Aristides de Sousa Mendes ao recusar a
indiferença perante a sorte dos refugiados que afluíam ao Consulado de Bordéus,
fugindo do avanço nazi, foi um gesto de solidariedade, diria mesmo, de
fraternidade, que não foi fácil de tomar nesses tempos sombrios, em que o
cálculo egoísta, a cobardia, a demissão dos bons permitiam que se afirmasse e
expandisse, o que a filósofa Hannah Arendt denominou como a "banalidade do
mal".
O gesto de Aristides de Sousa Mendes inscreve-se numa
lógica de resistência à “banalidade do mal” em nome da sua consciência cristã,
que o levava a obedecer primeiro a Deus que aos homens perante milhares de
refugiados que procuravam salvar a sua vida.
Como referiu na sua defesa no processo disciplinar que lhe foi instaurado: "Era realmente meu objetivo «salvar toda aquela gente», cuja aflição era indescritível: uns tinham perdido os seus cônjuges, outros não tinham notícias dos filhos extraviados, alguns haviam visto sucumbir pessoas queridas sob os bombardeamentos alemães que todos os dias se renovavam e não poupavam os fugitivos apavorados. Quantos tiveram de inumá-los, antes de prosseguirem na louca correria da fuga!»"
Como referiu na sua defesa no processo disciplinar que lhe foi instaurado: "Era realmente meu objetivo «salvar toda aquela gente», cuja aflição era indescritível: uns tinham perdido os seus cônjuges, outros não tinham notícias dos filhos extraviados, alguns haviam visto sucumbir pessoas queridas sob os bombardeamentos alemães que todos os dias se renovavam e não poupavam os fugitivos apavorados. Quantos tiveram de inumá-los, antes de prosseguirem na louca correria da fuga!»"
Refere com clareza diversas situações e cidadãos de
diferentes origens e nacionalidades, acrescentando: "Com efeito, eram numerosos
entre os fugitivos, os oficiais dos exércitos dos países ocupados
anteriormente, austríacos, checos e polacos, os quais seriam fuzilados como
rebeldes; eram igualmente numerosos os belgas, holandeses, franceses,
luxemburgueses e até ingleses, que seriam submetidos ao duro regime dos campos
de concentração alemães; havia intelectuais eminentes, artistas de renome,
homens de Estado, diplomatas, da mais alta categoria, grandes industriais e
comerciantes, etc., que teriam a mesma sorte.
Muitos deles eram judeus, que, já perseguidos antes,
procuravam angustiosamente escapar aos horrores de novas perseguições, por fim
um sem número de mulheres de todos os países invadidos que procuravam evitar
ficar à mercê da brutal sensualidade teutónica".
A Fundação Aristides de Sousa Mendes sempre associou a
divulgação e defesa dos direitos humanos ao legado de Aristides de Sousa Mendes.
Temos de nos interrogar se nos nossos tempos não estamos também na Europa a ser cúmplices da “banalidade do mal”, naturalmente noutras formas e noutras dimensões.Como não recordar as palavras do Papa Francisco em Lampedusa que não se calou perante os milhares de imigrantes que têm ficado sepultados no mar, quando procuravam refúgio na Europa.Disse ele:“ (…)Quem de nós chorou por este facto e pelos factos como este?”. Quem chorou pela morte destes irmãos e irmãs? Quem chorou por tantas pessoas que estavam no barco? Pelas jovens mães que levavam as suas crianças? Por estes homens que desejavam alguma coisa para sustentar as próprias famílias? Estamos numa sociedade que esqueceu a experiência do chorar, do “«adecer com»: a globalização da indiferença tirou-nos a capacidade de chorar! (..) E insistiu na pergunta que também nos é dirigida: «Quem chorou?». «Quem chorou hoje no mundo?»".
Temos de nos interrogar se nos nossos tempos não estamos também na Europa a ser cúmplices da “banalidade do mal”, naturalmente noutras formas e noutras dimensões.Como não recordar as palavras do Papa Francisco em Lampedusa que não se calou perante os milhares de imigrantes que têm ficado sepultados no mar, quando procuravam refúgio na Europa.Disse ele:“ (…)Quem de nós chorou por este facto e pelos factos como este?”. Quem chorou pela morte destes irmãos e irmãs? Quem chorou por tantas pessoas que estavam no barco? Pelas jovens mães que levavam as suas crianças? Por estes homens que desejavam alguma coisa para sustentar as próprias famílias? Estamos numa sociedade que esqueceu a experiência do chorar, do “«adecer com»: a globalização da indiferença tirou-nos a capacidade de chorar! (..) E insistiu na pergunta que também nos é dirigida: «Quem chorou?». «Quem chorou hoje no mundo?»".
Evocarmos o gesto de Aristides de Sousa Mendes não
significa apenas olhar para trás para tempos relativamente aos quais temos o
dever de memória para que nunca mais se repitam. É necessário retirar do gesto
de Aristides de Sousa Mendes ensinamentos para o presente e para a construção
de um futuro, que corresponda inteiramente para todos, ao que ficou consagrado
no art.1.º da Declaração Universal dos Direitos do Homem: «Todos os seres
humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e
de consciência devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade».
sexta-feira, fevereiro 22, 2013
A SOLIDARIEDADE É UMA RESPOSTA PARA REDUZIR O SOFRIMENTO COLETIVO?
CICLO DE COLÓQUIOS DO CRC (Centro de Reflexão Cristã)
Dignidade Humana e Problemas Urgentes
Dia 28 de fevereiro de 2013, pelas 18h30m
A SOLIDARIEDADE É UMA RESPOSTA PARA REDUZIR O SOFRIMENTO COLETIVO?
com José Pacheco Pereira
e Teresa Venda
Local: Sede do CRC
Rua Castilho, 61-2.º Dt.º-Lisboa
Metro: Marquês de Pombal
(entrada livre)
quarta-feira, janeiro 23, 2013
CONFLITOS DE GERAÇÕES OU DE CLASSES?
CICLO DE COLÓQUIOS CRC 2012/2013
Colóquio III
29 de Janeiro
de 2013
3ª Feira, 18h30m
Ciclo Dignidade Humana e Problemas Urgentes
Conflito de Gerações
ou de Classes?
João
Ferreira do Amaral
Luís Salgado de Matos
Local: Sede do Centro de Reflexão Cristã
Rua Castilho, 61 – 2º Dtº. Lisboa.
[Metro: Marquês de Pombal]
ENTRADA LIVRE
segunda-feira, junho 18, 2012
LIÇÃO DE SABEDORIA
“(…) Deveríamos pôr um aviso generalizado em todas as paróquias , igrejas , catequeses, “aulas de moral”…afirmando:” Recordem: aqui falam seres humanos, homens e mulheres, de Deus”. Ajudaria muito não confundirmos Deus com o nosso dizer e as nossas representações sobre Ele. Como sugeria o grande biblista J. L. Sicre, os católicos, nas suas missas deveriam dizer, depois da leitura e proclamação da Sagrada Escritura, não só “Palavra de Deus", mas também "Palavra de Deus e palavra humana”. Este dado simples e quase ridículo é fundamental, pois sendo esquecido, pode dar azo a hipotéticos literalismos e até erros graves, que, por sua vez, estarão na origem de neo-fundamentalismos ou de posturas fechadas”.
Bispo Albino Cleto (3 de Março de 1935 - 15 de Junho de 2012)
No livro “Em busca de um sentido: ateísmo e crença na construção da pessoa que ama”Ed Secretariado Diocesano de Evangelização e Catequese de Coimbra, 2011.
sexta-feira, junho 15, 2012
A COMPAIXÃO QUE NOS UNE
CICLO DE COLÓQUIOS 2012 do CRC (CENTRO DE REFLEXÃO CRISTÃ)
19 de Junho de 2012, terça-feira, às 18h30m
A COMPAIXÃO QUE NOS UNE
Abdool Karim Vakil
Isabel Bento
Joshua Ruah
Colóquio IV
da série
A PALAVRA DE DEUS
A BÍBLIA E O DIÁLOGO ENTRE RELIGIÕES
Local: Centro Nacional de Cultura – Galeria Fernando Pessoa
Largo do Picadeiro, nº 10, 1º - Lisboa.
[Metro: Baixa-Chiado]
ENTRADA LIVRE
domingo, março 18, 2012
O APOCALIPSE E OS MILENARISMOS

Manuscritos
de Qumran
de Qumran
Ciclo de Colóquios
A PALAVRA DE DEUS
A BÍBLIA E O DIÁLOGO ENTRE RELIGIÕES
A BÍBLIA E O DIÁLOGO ENTRE RELIGIÕES
Terças-Feiras, 18h30m
Colóquio II
20 de Março de 2012
O APOCALIPSE E OS MILENARISMOS
Com a participação:
Com a participação:
Pe. Joaquim Carreira das Neves, O.F.M.
José Augusto Ramos
Pastor Timóteo Cavaco
José Augusto Ramos
Pastor Timóteo Cavaco
Local: Centro Nacional de Cultura – Galeria Fernando Pessoa
Largo do Picadeiro, nº 10, 1º - Lisboa.
[Metro: Baixa-Chiado]
ENTRADA LIVRE
Organização: CENTRO DE REFLEXÃO CRISTÃ
O CRC é um espaço de diálogo entre cristãos de diferentes sensibilidades, e entre cristãos e não cristãos
sexta-feira, fevereiro 17, 2012
SOMOS SOLIDÁRIOS COM O POVO DA GRÉCIA
Todos os dias nos chegam imagens e notícias da Grécia e do povo grego em luta contra o cortejo de sacrifícios que lhe tem sido imposto. É clara, naquele país, a crescente fractura entre os cidadãos e o poder político, em torno da invocada necessidade de cada vez maiores sacrifícios para que a dívida seja paga e o défice orçamental reduzido. Acentuam-se a tensão e a violência, tornando ainda mais difícil o diálogo indispensável à procura de soluções mais justas e partilhadas para a situação existente.
Avolumam-se o isolamento e a discriminação da Grécia, fortemente acentuados pelo discurso dominante dos principais dirigentes europeus e da comunicação social.
A preocupação doméstica em sublinhar que “não somos a Grécia” é, no mínimo, chocante no seio da União Europeia, onde mais se esperaria compreensão e solidariedade e, sobretudo, desajustada quando se sabe que a crise não é só grega mas europeia.
Face à agudização das tensões políticas e sociais na Grécia, os signatários apelam à solidariedade com o povo grego e à criação de condições que permitam respostas democráticas e consistentes de uma Europa solidária aos problemas sociais e aos direitos das pessoas.
Lisboa, 15 de Fevereiro de 2012
Mário Soares
Mário Ruivo
Alfredo Caldeira
Ana Gomes
Ana Lúcia Amaral
Anselmo BorgesAvolumam-se o isolamento e a discriminação da Grécia, fortemente acentuados pelo discurso dominante dos principais dirigentes europeus e da comunicação social.
A preocupação doméstica em sublinhar que “não somos a Grécia” é, no mínimo, chocante no seio da União Europeia, onde mais se esperaria compreensão e solidariedade e, sobretudo, desajustada quando se sabe que a crise não é só grega mas europeia.
Face à agudização das tensões políticas e sociais na Grécia, os signatários apelam à solidariedade com o povo grego e à criação de condições que permitam respostas democráticas e consistentes de uma Europa solidária aos problemas sociais e aos direitos das pessoas.
Lisboa, 15 de Fevereiro de 2012
Mário Soares
Mário Ruivo
Alfredo Caldeira
Ana Gomes
Ana Lúcia Amaral
António de Almeida Santos
António Reis
Boaventura Sousa Santos
Diana Andringa
Eduardo Lourenço
Isabel Allegro
Isabel Moreira
D. Januário Torgal Ferreira
José Barata Moura
José Castro Caldas
José Manuel Pureza
quarta-feira, janeiro 25, 2012
domingo, dezembro 04, 2011
DEUS, O PENSAMENTO E A TÉCNICA
Centro de Reflexão Cristã
Novo ciclo de colóquios do CRC- 2011-2012
Colóquio I
13 de Dezembro de 2011
Terça-feira, às 18h30
Giovanni Greco, Deus Ex Machina (2008)
FERNANDO BELO
JOSÉ TRIBOLET
Local: Centro Nacional de Cultura – Galeria Fernando Pessoa
Largo do Picadeiro, nº 10, 1º - Lisboa.
[Metro: Baixa-Chiado]
ENTRADA LIVRE
Novo ciclo de colóquios do CRC- 2011-2012
Colóquio I
13 de Dezembro de 2011
Terça-feira, às 18h30
Giovanni Greco, Deus Ex Machina (2008) FERNANDO BELO
JOSÉ TRIBOLET
Local: Centro Nacional de Cultura – Galeria Fernando Pessoa
Largo do Picadeiro, nº 10, 1º - Lisboa.
[Metro: Baixa-Chiado]
ENTRADA LIVRE
domingo, novembro 20, 2011
O CHALET DA MEMÓRIA DE TONY JUDT
O Chalet da Memória de Tony Judt reúne os últimos ensaios publicados no New York Review of Books, escritas depois do livro Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos, que foi o seu testamento político e a que nos referimos aqui.O livro está bem traduzido, e escrito de acordo com a nova ortografia portuguesa, lendo-se com grande prazer.
São crónicas construídas mentalmente durante as noites de insónia por Tony Judt numa fase já muito avançada da esclerose lateral amiotrópica (ELA), a doença de Lou Gehrig, que o vitimou e ditadas durante o dia, quando isso lhe era ainda possível.
Tony Judt combateu a doença, com força e determinação, que honra a dignidade e a coragem do género humano, mas este não é um livro sobre a doença, é sobre a vida que viveu, a situação cultural e política, porque a doença “o inferno não é uma experiência transmissível”, como escreveu Timothy Garton Ash.
A realidade da doença é-nos dada expressamente através de um ensaio intitulado Noite, que situa as condições em que surgiram estes ensaios e muito a propósito do desconforto que sente refere a Metamorfose de Franz Kafka.
É admirável como os ensaios se articulam de forma a constituírem uma construção ordenada e coerente a partir da memória decisiva de um momento marcante da sua vida, as férias de Inverno passadas em 1957 ou 1958 num chalet, “uma pequena pensione, um hotel de família na vila antiquada de Chesières, no sopé da abastada região de esqui de Villars, na Suiça francófona”.
As narrativas e ensaios têm uma subtil, mas real ligação entre si. O autor refere-o: “… durante estes pequenos exercícios, percebi que estava a reconstruir - como se fossem legos – segmentos entrelaçados do meu próprio passado que antes nunca pensei que estivessem relacionados”.
É um livro de memórias mas que nunca estão desligadas das suas opções sociais e políticas. Ao falar dos Autocarros da linha Verde e do seu cheiro, de a Comida ou dos comboios em o Desejo Mimético, o historiador e o cidadão estão bem presentes na análise crítica das involuções verificadas em matéria de políticas públicas de transportes.
O autor é um cidadão, cosmopolita, um social-democrata universalista, que não se limita a recordar, mas que através destes feuilletons, continua a intervir, com inteligência como humor e mesmo com ironia. Leiam-se, por exemplo, Paris foi ontem, Revolucionários ou Raparigas, raparigas, raparigas. São muito interessantes as reflexões que faz sobre a fase em que defendeu um sionismo de esquerda, os ensinamentos que disso retirou, e o olhar crítico sobre as políticas de identidade defendidas por muitos académicos, seus colegas da universidade.
Tony Judt tem o que se designa como uma identidade hifenizada, um inglês, que se considera nova-iorquino, um judeu assumido como se pode ver em Toni, que confessa “conheço melhor a liturgia do anglicanismo do que muitos ritos e práticas do judaísmo”, receia que o futuro nos traga demasiada identidades excludentes. Afirma; “… iremos ter saudades dos tolerantes, dos que estão à margem: a gente das franjas. A minha gente.” Daí o seu gosto pelas “cidades mundiais”, o seu amor por Nova Iorque.
Termina a sua viagem pelas recordações regressando às Montanhas Mágicas da Suiça, neste caso a Murren, onde “nunca nada ali correu mal”, evocando um pequeno comboio na montanha. Ele que tanto gostava de comboios, diz: “Não podemos escolher onde começar a nossa vida, mas podemos acabar onde quisermos. Sei onde estarei: a ir a lado nenhum em especial naquele pequeno comboio para todo o sempre”.
É um livro a ler e a reler, escrito por um ser humano excepcional, por um intelectual, que se afirmou até ao limite das suas forças como um social-democrata universalista.
Há só um aspecto em que espero, se engane. O comboio em que embarcou para todo o sempre não está condenado a ir a lado nenhum.
RELAÇÕES IGREJA / CULTURA
« Diálogo com criadores culturais não pressupõe
O que é mais importante (criar, manter, repensar) na relação da Igreja com a Cultura?
A Igreja para manter uma relação mutuamente enriquecedora com a Cultura tem que encarar sem medo as transformações culturais, sociais e políticas e saber ler (e reler) permanentemente os sinais dos tempos. Tem que aprender a viver com naturalidade num mundo num processo acelerado e vertiginoso de mutação.
Num mundo em que as crises económicas e financeiras dos Estados até agora dominantes anunciam o advento de uma nova época e a emergência de novos Estados, línguas e culturas e em que os frutos da revolução científica e tecnológica e as novas tecnologias de informação invadem o quotidiano dos cidadãos, a Igreja tem de repensar permanentemente as suas relações com a Cultura.
Em Portugal, a Igreja tem vindo a promover uma Pastoral da Cultura que tem sido capaz de estabelecer pontes com muitos criadores culturais, crentes e não-crentes, e despertado comunidades cristãs para a importância da cultura para a pessoa humana ter acesso verdadeiro e pleno à humanidade. Naturalmente que há muito para fazer e repensar.
Num País em que a crise financeira, se transformou numa crise económica, existem riscos sérios de subalternização da importância da Cultura e do trabalho dos criadores culturais. O discurso sobre a necessidade do empobrecimento num contexto de crise corre o risco de esquecer que uma coisa é ter menos recursos para gastar, outra coisa é esquecer que não só de pão vive o homem, mas precisa de sentido e beleza. As despesas com a Cultura não são gastos, são investimentos numa sociedade mais justa, humana e solidária e contribuem para aumentar as exportações.
Não desistimos de ter esperança estamos certos que o desenvolvimento individual e coletivo é possível, mobilizando todos os recursos disponíveis, nomeadamente, o contributo dos criadores culturais, não apenas dos escritores e poetas, mas também dos cineastas, dos músicos, filósofos, dos arquitetos, dos dançarinos, de todos os criadores culturais sem exceção.
O repensar da relação da Igreja com a Cultura em Portugal passa por alargar e descentralizar o diálogo com os criadores culturais, crentes e não-crentes, ao longo de todo o País, estabelecendo pontes com os que se encontram espalhados pelo mundo e com o mundo de Língua Portuguesa.
O repensar da relação da Igreja com a Cultura deve assentar no direito de todos à cultura e à sua realização prática, no promover em cada pessoa a consciência do direito à cultura e do dever de se cultivar.
A atitude da Igreja no diálogo com os criadores culturais não pressupõe o silenciamento das diferenças e das divergências, mas deve ser marcada pelo saber escutar as críticas, as inquietações, as perguntas.
A relação da Igreja com a Cultura deve, como defendeu Júlia Kristeva, em Assis [27.10.2011], ousar a “aposta na renovação contínua da capacidade dos homens e das mulheres para crer e viver em conjunto (...) para que a humanidade possa prosseguir por muito tempo o seu destino criador”.
Este meu depoimento integra a edição de novembro de 2011 do "Observatório da Cultura" (n.º 16). Leia mais respostas à pergunta.
A Igreja para manter uma relação mutuamente enriquecedora com a Cultura tem que encarar sem medo as transformações culturais, sociais e políticas e saber ler (e reler) permanentemente os sinais dos tempos. Tem que aprender a viver com naturalidade num mundo num processo acelerado e vertiginoso de mutação.
Num mundo em que as crises económicas e financeiras dos Estados até agora dominantes anunciam o advento de uma nova época e a emergência de novos Estados, línguas e culturas e em que os frutos da revolução científica e tecnológica e as novas tecnologias de informação invadem o quotidiano dos cidadãos, a Igreja tem de repensar permanentemente as suas relações com a Cultura.
Em Portugal, a Igreja tem vindo a promover uma Pastoral da Cultura que tem sido capaz de estabelecer pontes com muitos criadores culturais, crentes e não-crentes, e despertado comunidades cristãs para a importância da cultura para a pessoa humana ter acesso verdadeiro e pleno à humanidade. Naturalmente que há muito para fazer e repensar.
Num País em que a crise financeira, se transformou numa crise económica, existem riscos sérios de subalternização da importância da Cultura e do trabalho dos criadores culturais. O discurso sobre a necessidade do empobrecimento num contexto de crise corre o risco de esquecer que uma coisa é ter menos recursos para gastar, outra coisa é esquecer que não só de pão vive o homem, mas precisa de sentido e beleza. As despesas com a Cultura não são gastos, são investimentos numa sociedade mais justa, humana e solidária e contribuem para aumentar as exportações.
Não desistimos de ter esperança estamos certos que o desenvolvimento individual e coletivo é possível, mobilizando todos os recursos disponíveis, nomeadamente, o contributo dos criadores culturais, não apenas dos escritores e poetas, mas também dos cineastas, dos músicos, filósofos, dos arquitetos, dos dançarinos, de todos os criadores culturais sem exceção.
O repensar da relação da Igreja com a Cultura em Portugal passa por alargar e descentralizar o diálogo com os criadores culturais, crentes e não-crentes, ao longo de todo o País, estabelecendo pontes com os que se encontram espalhados pelo mundo e com o mundo de Língua Portuguesa.
O repensar da relação da Igreja com a Cultura deve assentar no direito de todos à cultura e à sua realização prática, no promover em cada pessoa a consciência do direito à cultura e do dever de se cultivar.
A atitude da Igreja no diálogo com os criadores culturais não pressupõe o silenciamento das diferenças e das divergências, mas deve ser marcada pelo saber escutar as críticas, as inquietações, as perguntas.
A relação da Igreja com a Cultura deve, como defendeu Júlia Kristeva, em Assis [27.10.2011], ousar a “aposta na renovação contínua da capacidade dos homens e das mulheres para crer e viver em conjunto (...) para que a humanidade possa prosseguir por muito tempo o seu destino criador”.
Este meu depoimento integra a edição de novembro de 2011 do "Observatório da Cultura" (n.º 16). Leia mais respostas à pergunta.
domingo, novembro 13, 2011
DE OLHOS BEM ABERTOS DE MANUEL MARIA CARRILHO
Para estarmos à altura do que nos acontece, precisamos de perceber como aqui chegámos e o que podemos fazer para sair daqui.De Olhos Bem Abertos de Manuel Maria Carrilho, reúne no essencial crónicas que publicou no DN, revela-se um contributo imprescindível para este exercício. Apesar de serem crónicas datadas revelam-se de uma paradoxal actualidade, porque nascem de um olhar que soube ver para além do momento. Apenas um exemplo: “…por muito sombria e aflitiva que seja, e é, a situação no curto prazo, não vale a pena ter ilusões: só no médio/longo prazo será possível ultrapassar as dificuldades que enfrentamos”. Esta constatação não é de agora, é do ano passado, mas toda a crónica em que se insere se mantém actual.
A arquitectura do livro assenta em quatro pilares: crise, Europa, democracia/cultura e Portugal. Manuel Maria Carrilho parte da conjuntura, mas olhando sempre para além do curto prazo, tendo em consideração as reflexões de outros, que enriquecem a sua visão.
É um livro escrito com inteligência que se lê com prazer, porque é sempre inteligente e estimulante, mesmos que não partilhemos todas as suas análises e todas as suas teses, particularmente, sobre os últimos anos de governação do PS.
Se quisermos renovar a prática política dos socialistas, precisamos de o fazer com ideias novas, sem esquecer os momentos socialistas das nossas anteriores governações, mas sem escamotear que se verifica o esgotamento do modelo de desenvolvimento que foi seguido nas últimas décadas.
Partilho com Manuel Maria Carrilho a ideia que foi uma tragédia da nossa história política recente que António Guterres “o líder mais qualificado, mais dotado e mais preparado, de todos os líderes que o PS teve, não tenha tido a maioria absoluta”.
Todo o livro nos convoca para o desafio, com que conclui o prefácio: “… lutar por uma Nova República, isto é, por uma visão de futuro que (…) se estruture em torno de um novo paradigma de desenvolvimento assente na qualificação do território, das suas instituições e das pessoas, bem como a renovação dos valores da democracia e da reinvenção das causas e dos objectivos da esquerda social-democrata …”.
Manuel Maria Carrilho não é apenas um pensador, é um cidadão politicamente comprometido, que já demonstrou quando foi chamado a exercer funções políticas, que sabe fazer, e que sabe dizer não.
Teve razão quando era embaixador de Portugal na UNESCO e se recusou a votar na candidatura do egípcio Farouk Hosni, conhecido pelas suas posições anti-semitas e anti-democráticas para Director-Geral da UNESCO, o qual felizmente não foi eleito e está hoje na prisão no Egipto.
Este é um livro que se pode ler não respeitando a arquitectura que lhe deu o seu autor, mas sendo guiado pelos nossos próprios interesses ou curiosidade, saltar, por exemplo, de “E o que será um novo paradigma?” (pp40-41), para “Fado candidato” (pp.111-115) ou “A missa lusófona” (pp 115-117), e para “Fazer contas não basta” (pp. 193-196) ou as entrevistas nele transcritas.
O debate sobre o futuro de Portugal no contexto europeu e mundial numa óptica da esquerda social-democrata exige a mobilização dos cidadãos para além do âmbito do PS, como António Guterres teve a coragem de fazer quando promoveu os Estados Gerais para uma Nova Maioria. Não se trata de multiplicar reuniões, de contabilizar presenças, ou sequer contributos para legitimar resultados previamente definidos. É necessário promover um verdadeiro debate, não esquecendo que as palavras e as ideias podem ser performativas.
A crise internacional, a desconstrução da União Europeia a que assistimos, a ausência de políticas que conjuguem a necessária austeridade com crescimento económico e desenvolvimento em Portugal, tornam mais premente renovar o programa socialista sem esquecer, como refere Manuel Maria Carrilho, os “… grandes valores do socialismo, à sua matriz igualitária, e às suas grandes causas, como a igualdade, a educação, e a cultura”.
O facto deste livro nos convocar para essa tarefa, torna a sua leitura imprescindível.
domingo, outubro 30, 2011
EM ASSIS CRENTES E NÃO-CRENTES PEREGRINOS DA VERDADE, PEREGRINOS DA PAZ
O encontro promovido em Assis no passado dia 27 de Outubro por iniciativa de Bento XVI sob o lema Peregrinos da Verdade - Peregrinos da Paz foi um acontecimento portador de futuro.
O encontro foi apresentado como jornada de reflexão, diálogo e oração pela paz e pela justiça no mundo e reuniu 300 líderes religiosos, dos quais 200 não-cristãos e, pela primeira vez, e por iniciativa pessoal de Bento XVI, intelectuais não-crentes.
Cristãos de diversas confissões juntaram-se nesta iniciativa com muçulmanos provenientes de dezanove países, judeus, hindus, sikhs, budistas, taoistas, confucionistas, um zoroastriano, um baha’i e animistas africanos. Os ismaelitas estiveram representados pelo português Nazim Ahmad, facto que não é alheio à excelente colaboração existente em Portugal entre a Comunidade Ismaili e a Igreja Católica em Portugal.
Os intelectuais não-crentes eram, para além da filósofa, linguista e psicanalista francesa, de origem búlgara, Julia Kristeva, que usou da palavra no encontro, o filósofo italiano Remo Bodei, o filósofo mexicano Guilherme Hurtado, o economista austríaco Walter Baier, membro do Partido Comunista.
O encontro recordou e retomou a iniciativa que teve lugar há 25 anos, no Ano Internacional da Paz, por iniciativa de João Paulo II, associando 130 representantes de diferentes confissões religiosas para rezar pela paz, associando esta iniciativa à memória de Francisco de Assis.
Como afirmou Guilherme Hurtado aqui: “Devemos promover o diálogo entre crentes e não-crentes neste momento da história, em que estamos submersos em uma crise muito grande, para encontrar soluções comuns para os problemas comuns”.
Aliás, na passada segunda-feira, o Conselho Pontifício Justiça e Paz do Vaticano voltou a defender a criação de uma autoridade financeira mundial e criticou asperamente o “liberalismo económico sem regras e sem controlo”.
Os dois factos novos que marcam este encontro são, em meu entender, a participação de não-cristãos e a participação e a intervenção de uma mulher não-crente, Júlia Kristeva.
Bento XVI tem nos últimos tempos sublinhado a importância do contributo dos descrentes, com as suas interrogações e questões para a purificação da fé dos crentes.
A participação de Júlia Kristeva por iniciativa de Bento XVI num Encontro tem um enorme significado, que questiona o estatuto da mulher nas diferentes confissões religiosas, como muito bem sublinhou Faranaz Keshavjee num excelente post no seu blogue Crónicas de Uma Muçulmana aqui.
Júlia Kristeva, cujo discurso pode encontrar na íntegra aqui, começou por dizer:
“As palavras de João Paulo II, «Não tenhais medo», não se dirigem apenas aos crentes para os encorajar a resistir ao totalitarismo. O apelo do Papa - apóstolo dos direitos dos homens incita-nos a não recear a cultura europeia, mas pelo contrário a ousar o humanismo construindo cumplicidades entre o humanismo cristão e aquele que proveniente da Renascença e das Luzes, ambiciona elucidar as vias em risco da liberdade (…). Obrigado, hoje, a Bento XVI pelo facto de ter convidado pela primeira vez humanistas para o meio de vós para esta iniciativa (…)”. Tendo afirmado, nomeadamente, que o humanismo é um processo de refundação permanente e que o humanismo é um feminismo, que o humanismo nos incita a cuidar, o homem não faz a história, mas a história somos nós, concluiu:
“(…) A era da suspeita não é suficiente. Face às crises e às ameaças agravadas, chegou a era da aposta. Ousemos apostar na renovação contínua da capacidade dos homens e das mulheres para crer e viver em conjunto. Para que nestes múltiplos universos cercados de vazio, a humanidade possa prosseguir por muito tempo o seu destino criador”.
Na sessão pública intervieram antes do Papa onze líderes religiosos e Julia Kristeva.
Bento XVI na sua excelente intervenção, que pode ser lida na íntegra aqui , analisou as relações entre religião e violência ao longo dos tempos, condenou o terrorismo em nome da religião, e afirmou:
“(...) É verdade, na história, também se recorreu à violência em nome da fé cristã. Reconhecemo-lo, cheios de vergonha. Mas, sem sombra de dúvida, tratou-se de um uso abusivo da fé cristã, em contraste evidente com a sua verdadeira natureza. O Deus em quem nós, cristãos, acreditamos é o Criador e Pai de todos os homens, a partir do qual todas as pessoas são irmãos e irmãs entre si e constituem uma única família (…)”
Assis foi um marco importante para todos os que consideram, que todos os seres humanos, independentemente das suas crenças, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade, empenharem-se na procura da verdade e na construção da paz.
O encontro foi apresentado como jornada de reflexão, diálogo e oração pela paz e pela justiça no mundo e reuniu 300 líderes religiosos, dos quais 200 não-cristãos e, pela primeira vez, e por iniciativa pessoal de Bento XVI, intelectuais não-crentes.
Cristãos de diversas confissões juntaram-se nesta iniciativa com muçulmanos provenientes de dezanove países, judeus, hindus, sikhs, budistas, taoistas, confucionistas, um zoroastriano, um baha’i e animistas africanos. Os ismaelitas estiveram representados pelo português Nazim Ahmad, facto que não é alheio à excelente colaboração existente em Portugal entre a Comunidade Ismaili e a Igreja Católica em Portugal.
Os intelectuais não-crentes eram, para além da filósofa, linguista e psicanalista francesa, de origem búlgara, Julia Kristeva, que usou da palavra no encontro, o filósofo italiano Remo Bodei, o filósofo mexicano Guilherme Hurtado, o economista austríaco Walter Baier, membro do Partido Comunista.
O encontro recordou e retomou a iniciativa que teve lugar há 25 anos, no Ano Internacional da Paz, por iniciativa de João Paulo II, associando 130 representantes de diferentes confissões religiosas para rezar pela paz, associando esta iniciativa à memória de Francisco de Assis.
Como afirmou Guilherme Hurtado aqui: “Devemos promover o diálogo entre crentes e não-crentes neste momento da história, em que estamos submersos em uma crise muito grande, para encontrar soluções comuns para os problemas comuns”.
Aliás, na passada segunda-feira, o Conselho Pontifício Justiça e Paz do Vaticano voltou a defender a criação de uma autoridade financeira mundial e criticou asperamente o “liberalismo económico sem regras e sem controlo”.
Os dois factos novos que marcam este encontro são, em meu entender, a participação de não-cristãos e a participação e a intervenção de uma mulher não-crente, Júlia Kristeva.
Bento XVI tem nos últimos tempos sublinhado a importância do contributo dos descrentes, com as suas interrogações e questões para a purificação da fé dos crentes.
A participação de Júlia Kristeva por iniciativa de Bento XVI num Encontro tem um enorme significado, que questiona o estatuto da mulher nas diferentes confissões religiosas, como muito bem sublinhou Faranaz Keshavjee num excelente post no seu blogue Crónicas de Uma Muçulmana aqui.
Júlia Kristeva, cujo discurso pode encontrar na íntegra aqui, começou por dizer:
“As palavras de João Paulo II, «Não tenhais medo», não se dirigem apenas aos crentes para os encorajar a resistir ao totalitarismo. O apelo do Papa - apóstolo dos direitos dos homens incita-nos a não recear a cultura europeia, mas pelo contrário a ousar o humanismo construindo cumplicidades entre o humanismo cristão e aquele que proveniente da Renascença e das Luzes, ambiciona elucidar as vias em risco da liberdade (…). Obrigado, hoje, a Bento XVI pelo facto de ter convidado pela primeira vez humanistas para o meio de vós para esta iniciativa (…)”. Tendo afirmado, nomeadamente, que o humanismo é um processo de refundação permanente e que o humanismo é um feminismo, que o humanismo nos incita a cuidar, o homem não faz a história, mas a história somos nós, concluiu:
“(…) A era da suspeita não é suficiente. Face às crises e às ameaças agravadas, chegou a era da aposta. Ousemos apostar na renovação contínua da capacidade dos homens e das mulheres para crer e viver em conjunto. Para que nestes múltiplos universos cercados de vazio, a humanidade possa prosseguir por muito tempo o seu destino criador”.
Na sessão pública intervieram antes do Papa onze líderes religiosos e Julia Kristeva.
Bento XVI na sua excelente intervenção, que pode ser lida na íntegra aqui , analisou as relações entre religião e violência ao longo dos tempos, condenou o terrorismo em nome da religião, e afirmou:
“(...) É verdade, na história, também se recorreu à violência em nome da fé cristã. Reconhecemo-lo, cheios de vergonha. Mas, sem sombra de dúvida, tratou-se de um uso abusivo da fé cristã, em contraste evidente com a sua verdadeira natureza. O Deus em quem nós, cristãos, acreditamos é o Criador e Pai de todos os homens, a partir do qual todas as pessoas são irmãos e irmãs entre si e constituem uma única família (…)”
Assis foi um marco importante para todos os que consideram, que todos os seres humanos, independentemente das suas crenças, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade, empenharem-se na procura da verdade e na construção da paz.
domingo, setembro 04, 2011
A SEPARAÇÃO DO ESTADO E DA IGREJA DE LUÍS SALGADO MATOS
Este livro de Luís Salgado de Matos é um dos mais interessantes e originais publicados durante o Centenário da República.
Quem vive hoje a experiência de Igreja(s) livre(s) numa República democrática, em que a separação do Estado e das Igrejas, é um corolário da liberdade de consciência, de religião e de culto, ignora muitas vezes o longo caminho que foi necessário percorrer para aqui chegar.
Esta obra trata uma parte significativa desse caminho. O grande mérito do estudo de Luís Salgado de Matos é, como refere, concluindo, D. Manuel Clemente “uma leitura esclarecida de acontecimentos determinantes da nossa actualidade político-religiosa”.
Como refere José Vera Jardim é um “estudo documentado, com base em investigação séria e que acompanha todo o período com profundidade e muita minúcia”, com extenso recurso a fontes primárias. Está muito bem escrito e tem a preocupação de facilitar a compreensão da complexidade da situação, quer através da cronologia inicial, quer das doze conclusões sobre a separação entre o Estado e a Igreja.
Luís Salgado de Matos tem a vantagem de ter uma formação jurídica, que lhe permite perceber a matéria sinuosa das três “cultuais” sucessivas e simultâneas previstas na Lei da Separação e os diferentes momentos da estratégia de Afonso Costa relativamente à Igreja Católica.
O trabalho de Luís Salgado Matos lança as bases de uma nova narrativa relativamente às relações entre o Estado e as Igrejas na primeira República (1910-1926), que não pactua com a reescrita da história da separação que tem sido feita por outros historiadores, de inspiração católica ou afonsista, que “coincidem em descrevê-lo como um combate entre o bem e o mal e divergem apenas na distribuição dos papéis de bom e de mau”.
O autor defende e, em nosso entender, demonstra que: “A separação efectiva resulta assim, do choque do ultramontanismo de São Pio X, que queria uma religião de Estado e, sendo impossíve,l a separação radical, com o regalismo republicano que podemos simbolizar em Afonso Costa. Nenhum deles conseguiu o seu objectivo.”
Para isso contribuíram o pluralismo de perspectivas sobre esta matéria que se manifestaram entre os republicanos, a partir de certa altura mesmo entre os “democráticos”, e as diferentes posições existentes entre os católicos, que iam dos católicos monárquicos ao Centro Católico e aos católicos republicanos. A participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial e os pontificados de Bento XV e depois de Pio XI, retomando a política de “ralliement” à República de Leão XIII, e a capacidade de reinvenção demonstrada pela Igreja Católica, de que o autor, nos vai deixando algumas notas, tiveram também uma importância decisiva.
Infelizmente, parece-me também demonstrada a última das conclusões de Luís Salgado Matos. “A questão religiosa foi central na vida e morte da Primeira República. Os extremos ganharam. Era uma vitória dispensável.”
Na síntese de D. Manuel Clemente “A leitura (…) evidencia recortes e matizes de pessoas e grupos que geralmente, foram apresentados em blocos monocromáticos e estanques, de parte a parte.”
São inúmeras as posições que foram sendo assumidas, de Afonso Costa a Sidónio Pais, passando por António José de Almeida, Pimenta de Castro ou António Maria da Silva, até ao 28 de Maio.
A Igreja Católica e os católicos, mas também os partidos republicanos, a Carbonária e a Maçonaria demonstraram ser instituições e realidades mais plurais nesta matéria do que por vezes se supõe.
Naturalmente que, entre a prática da separação consagrada na Primeira República e a situação actualmente existente nesta matéria, foi muito e muito contraditório, o caminho percorrido.
Esperemos que outras obras de igual fôlego prossigam este trabalho relativamente ao Estado Novo e à democracia construída no pós-25 de Abril até à aprovação a Lei da Liberdade Religiosa (2001) e à nova Concordata (2004).
Concorde-se ou não com todas as teses defendidas por Luís Salgado de Matos, este é, sem sombra de dúvida, um livro imprescindível para todos os que se interessam pelo processo histórico de construção da liberdade de consciência, religião e culto em Portugal e a separação do Estado e da Igreja, de que analisa um período decisivo.
Para saber mais sobre esta questão recomendo que coloque o site Estado e Igreja, que pode consultar aqui , entre os seus favoritos.
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