domingo, junho 20, 2010

OBRIGADO, JOSÉ SARAMAGO

Existem muitos motivos para dizer, obrigado, José Saramago.
Deu um contributo singular não só à cultura portuguesa, mas a todas as literaturas de Língua Portuguesa, tendo sido o seu primeiro Prémio Nobel da Literatura.
Escreveu livros e criou personagens inesquecíveis, que deram origem a óperas e a filmes, mas o romance que mais me fascinou foi o da sua própria vida, como soube construir a pulso a partir de uma infância, cheia de carências económicas, com uma enorme inteligência e determinação, a sua própria obra. José Saramago foi para mim uma criação ainda mais fascinante que a própria Blimunda do Memorial do Convento. Sugiro a leitura, a este propósito, do seu discurso de aceitação do Prémio Nobel aqui.
José Saramago foi um militante comunista, que aderiu e participou com convicção nas iniciativas de unidade da esquerda que contribuíram para o progresso de Lisboa e apoiou a candidatura de António Costa nas últimas eleições municipais. Tive o gosto de ter estado em acções de campanha em que participou no tempo de Jorge Sampaio e vi a forma empenhada com que o fazia.
Afirmava-se ateu, invectiva Deus na imagem que dele tinha, mas não hesitou em aceitar participar em duas iniciativas do CRC, para as quais o convidei, uma das quais na Capela do Rato, para discutir o seu livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo.
A Pastoral da Cultura da Igreja Católica foi justa ao saudar aqui o contributo de José Saramago para a cultura e a língua portuguesa para além de divergências e polémicas.
José Saramago batia-se pelas suas ideias, pelos direitos humanos e pela preservação da natureza, não tinha medo de dizer o que pensava, não apenas quando invectiva o cristianismo ou discutia a ideia de Deus, mas também quando criticava a ocupação israelita dos territórios palestinianos, Fidel de Castro, as condições dos trabalhadores na China, a Camorra ou Berlusconi.
José Saramago era, em meu entender, um homem livre, sensível à bondade no mundo, um homem bom.
Por tudo isto, obrigado José Saramago.

sexta-feira, junho 18, 2010

MANUEL ALFREDO TITO DE MORAIS (1910-2010)-UM HOMEM DE PRINCÍPIOS

Tito de Morais é um homem de princípios, um daqueles militantes que o são não apenas uns dias, nem alguns anos, mas ao longo de toda uma vida e que por isso mesmo, como dizia Bertolt Brecht num célebre poema são imprescindíveis.
Estas palavras que escrevi no editorial do número especial do Portugal Socialista, que lhe foi dedicado em Outubro de 1996, que podem ler na íntegra aqui, continuam para mim a ser inseparáveis da coerência, verticalidade, honestidade e integridade, que o caracterizaram sempre.
Recordo a minha estranheza quando vi pela primeira vez o seu nome num número do Esquerda, publicação clandestina dos jovens socialistas para os jovens portugueses, da Associação Socialista Portuguesa (ASP), que antecedeu o Partido Socialista.
Creio que foi em 1969, que o Manuel Maria Carrilho, que estudava em Lisboa, apareceu em Viseu com um exemplar do Esquerda, que li avidamente. O socialismo democrático surgiu-me claramente desde essa altura como o projecto político por que valia a pena lutar.
Não tinha nesse momento altura qualquer contacto com a ASP, identifiquei-me com a linha política que defendiam, sabia da ligação da ASP a Mário Soares e a Salgado Zenha, mas foi ali que pela primeira vez li o nome de Tito de Morais, que se encontrava no exílio. Meses depois, tive acesso a exemplares do Portugal Socialista editado por Tito de Morais em Roma e que entrava clandestinamente no país. Não imaginava, que viria a conhecê-lo, a ser seu companheiro de luta e a ter a honra de como director do Portugal Socialista, escrever o editorial daquele número que lhe foi dedicado.
Na sequência do excelente trabalho da Comissão Executiva das Comemorações do Centenário do Nascimento de Manuel Tito de Morais, presidida por Carolina Tito de Morais e coordenada com inexcedível empenhamento por Luís Novais Tito, estão em curso inúmeras iniciativas que podem conhecer melhor aqui.
As comemorações do centenário do nascimento do militante socialista exemplar, que foi Manuel Tito de Morais, ultrapassam claramente o âmbito do Partido Socialista porque foi também um dos fundadores do nosso regime democrático e uma grande referência do socialismo humanista, como escreveu Jorge Sampaio aqui.
A Comissão de Honra, presidida pelo actual Presidente da República e a que tenho o gosto de pertencer, exprime a forma como esta homenagem congregou o apoio da República Portuguesa.
Não posso por isso deixar de registar aqui uma palavra de gratidão a Tito de Morais pelo militante socialista exemplar que foi e de apelar a todos os camaradas para que não deixem de associar-se às iniciativas promovidas em sua homenagem.
É um acto de pedagogia democrática e socialista dar a conhecer às novas gerações socialistas o seu combate pelo socialismo democrático.

segunda-feira, junho 14, 2010

AGENDA CULTURAL (38)

O General António Ramalho Eanes, primeiro Presidente da República eleito depois do 25 de Abril , apresenta o livro
TUDO O QUE SEMPRE QUIS SABER SOBRE A PRIMEIRA REPÚBLICA
EM 37 MIL PALAVRAS
AS INSTITUIÇÕES POLÍTICAS PORTUGUESAS

DO 5 DE OUTUBRO DE 1910 AO 28 DE MAIO DE 1926

de Luís Salgado Matos
Na mesa estarão presentes: Artur Santos Silva, Presidente da Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República.
Presidirá o director do Instituto de Defesa Nacional,Major-General ,Vítor Rodrigues Viana.

O livro foi editado pela Imprensa de Ciências Sociais, dirigida pela Doutora Cristina Bastos e a apresentação terá lugar na próxima quinta-feira, 17 de Junho, às 18horas, no Instituto de Defesa Nacional.

domingo, junho 13, 2010

ESTADO-NAÇÃO E MIGRAÇÕES INTERNACIONAIS

O livro Estado-Nação e Migrações Internacionais, coordenado por M. Margarida Marques, é um livro imprescindível para todos os que se interessam pelas migrações internacionais, nomeadamente, responsáveis dos diferentes serviços da Administração Pública que trabalham com os imigrantes, profissionais da comunicação social que querem perceber o que está para além das aparências, associações de imigrantes e cidadãos atentos a uma realidade que marca dada vez mais o seu quotidiano.
M. Margarida Marques, para além dos importantes estudos publicados em revistas de referência a nível internacional, tem estado associada à divulgação em Portugal de autores fundamentais para a compreensão das migrações internacionais como Alejandro Portes e Stephen Castles, bem como ao Mestrado sobre Migrações, Inter-Etnicidades e Transnacionalismo da Universidade Nova de Lisboa.
A introdução referente aos Estados-Nação perante os desafios das populações em movimento é um ensaio particularmente claro e clarificador de M. Margarida Marques. Se as migrações internacionais são um fenómeno que ultrapassa os Estados, é um erro pensar que os Estado-Nação não continuam a ter um papel imprescindivel a desempenhar relativamente ás migrações, designadamente, no que se refere à incorporação dos imigrantes. Os Estados democráticos têm, vindo a promover a inclusão dos imigrantes sob a alçada do welfere e promovido novas práticas providenciais, como refere M. Margarida Marques.
Nesta colectânea, publicam-se em português, textos da Peggy-Levitt e Nina Glick Schiller, Alejandro Portes, Cristina Escobar e Alexandria W. Radford, Sophie Body-Gendrot, Rinus Penninx, Marco Martiniello e Wayne A. Cornelius.
São textos que ajudam a ler criticamente a forma como as migrações têm vindo a ser reguladas e geridas não apenas em Portugal, mas no quadro da União Europeia.
Os textos de Peggy-Levitt e Nina Glick Schiller, Alejandro Portes, Cristina Escobar e Alexandria W. Radford ajudam a perceber os limites do Estado-Nação como quadro de análise conceptual para entender os fenómenos migratórios e para analisar o que se convencionou chamar como transnacionalismo.
Sophie Body-Gendrot a partir da análise dos guetos norte-americanos e dos subúrbios franceses evidencia as dificuldades dos poderes públicos para lidar no primeiro caso com jovens de minorias segregadas e no outro com jovens de ascendência imigrante.
É particularmente interessante para avaliar a importância da escala local das políticas de integração o estudo de Rinnus Pennix e, Marco Martiniello que tem por base a experiência de incorporação das populações migrantes em dezassete cidades europeias.
O estudo de Wayne A. Cornelius sobre a forma como os Estados Unidos têm procurado combater a imigração irregular com uma estratégia centrada na fronteira (1993-2004) ilustra bem como não têm qualquer apoio científico os discursos de políticos populistas que a este propósito insistem em estereótipos sobre a robustez ou a fragilidade dos Estados nos controlos das fronteiras e em propor medidas que não visam resolver problemas, mas apenas jogar com estereótipos difundidos na opinião pública.
Este livro está incluído na colecção de Estudos Políticos dirigida por Pedro Tavares de Almeida .
Apoiada pelo Centro de Estudos de Sociologia da Universidade Nova (CESNOVA) esta é uma edição muito bem cuidada, sendo os textos escritos originariamente em inglês e francês, traduzidos com a qualidade das traduções de Frederico Ágoas, que organizou também o índice, bem revistos por Alice Araújo e com a qualidade com que a editora Livros Horizonte, agora sobre a direcção de Cláudia Moura, põe nos livros que edita.
Este é um livro assumidamente aberto, que deixa inúmeras pistas para novos estudos. Como refere M. Margarida Marques: «Para além da progressiva dissociação da componente universal da intervenção dos Estados, relativamente à matriz particular da nação, importa indagar de forma sistemática como se reflecte esta mudança nas práticas de acomodação e na arquitectura institucional das sociedades contemporâneas».

terça-feira, junho 08, 2010

AGENDA CULTURAL (37)

um documentário de MARGARIDA LEITÃO
Sessões comentadas em Lisboa, às 19h, no City Alvalade
Dia 14-Guilherme d'Oliveira Martins (Presidente do Tribunal de Contas)
Dia 15-Afonso de Albuquerque (Psiquiatra)
Dia 16-Paulo Ferreira (Economista e responsável de economia da RTP)
Dia 17- José Tolentino de Mendonça (Padre e Poeta)
Dia 18-Helena Roseta (Vereadora do Pelouro da Habitação da CML)
Dia 19-Pedro Vasconcelos (Sociólogo)

sábado, junho 05, 2010

REGISTO

MARIA JOSÉ MORGADO EVOCA JOSÉ LUÍS SALDANHA SANCHES

As palavras ditas por Maria José Morgado relativamente ao seu marido José Luís Saldanha Sanches, que podem ler aqui no seu blogue, são de uma imensa ternura e saudade, que nos levam a pensar silenciosamente como se pode fazer da vida um combate pela justiça e pela liberdade e um lugar de beleza.

Estas palavras interrogam-nos, inquietam-nos, despertam-nos para a necessidade de continuar a lutar contra a corrupção, por um País decente.

sexta-feira, junho 04, 2010

MORREU O PADRE JOÃO RESINA

O Padre João Resina morreu hoje, após ter estado vários meses em coma, após uma queda que viria a ser fatal. Era um padre que falava de Deus e da Física Quântica, como pode ler no Público aqui.
Recordo a presença do Padre João Resina nos Campos de Férias da JUC (Juventude Universitária Católica) nos Remédios, em Peniche, no início dos anos 70 do século passado, um momento alto na nossa formação cristã, cultural e cívica, em que, nos falava com profundidade e naturalidade da experiência profunda de Deus, dos limites do conhecimento e de Wittgenstein, que tanto entusiasmava o Germano Cleto.
Recordo a sua participação em debates discretos sobre marxismo e cristianismo na sede da JUC, junto a Entrecampos, debates em que também participaram, em momentos diferentes, o Padre Manuel Antunes e Mário Sottomayor Cardia.
Era um homem bom, sereno, habitado por um profunda experiência de Deus, simultaneamente um homem de Ciência e Padre de quem podem ler várias homílias aqui.
Não posso também deixar de lhe estar grato por ter sido um dos padres, que participou no meu casamento.
O Padre João Resina tinha dado há alguns meses uma notável entrevista a António Marujo, que foi publicada na Pública, que podem ler aqui e que merecia ser republicada em livro juntamente com outros textos seus, como sugeriu Frei Bento Domingues, de modo a que muitos que o não conheceram possam com ele descobrir e amar a Deus. É um livro que faz falta nas teofanias da Assírio & Alvim.
Foi sócio fundador do Centro de Reflexão Cristã, tendo participado em várias das suas iniciativas e na revista Reflexão Cristã.

domingo, maio 30, 2010

MANUEL ALEGRE - O APOIO DOS SOCIALISTAS

A candidatura de Manuel Alegre foi aprovada por esmagadora maioria pela Comissão Nacional do Partido Socialista, por proposta do secretário-geral, José Sócrates, apenas com uma abstenção e dez votos contra, como pode ler aqui. Verificaram-se assim serem manifestamente exageradas as notícias de que existiam muitas reticências no Partido Socialista a este apoio.
É uma decisão clara e inequívoca que não compromete o carácter independente da candidatura de Manuel Alegre, um socialista que não renuncia a essa condição. Não é um mero apoio formal. O PS quer que Manuel Alegre ganhe as eleições e vai bater-se por essa vitória, ao lado de todos os que apoiam esta candidatura.
É com satisfação que saudamos esta decisão da Comissão Nacional do PS, porque pelas razões que referimos aqui, aqui e aqui consideramos Manuel Alegre a melhor candidatura da esquerda e de todos os que querem um Presidente que saiba ler e interpretar as aspirações do País.
Reafirmamos o apoio desta blogue à candidatura de Manuel Alegre, que já tínhamos antecipado aqui.

segunda-feira, maio 24, 2010

MANUELA JARDIM- ESTÓRIAS ATRAVÉS DOS PANOS

A pintora e escultora luso-guineense Manuela Jardim, a que já nos referimos aqui ,tem expostas na Biblioteca Municipal da Amadora e no Pólo da Boba Estórias através do Panos desde 8 até 31 de Maio.
Manuela Jardim inspirando-se na panaria da Guiné-Bissau e Cabo Verde, que estabelece também subtis pontes com a cultura portuguesa, apresenta pinturas e esculturas
Esta escultura que se intitula No mercado das vaidades evoca o gosto das jovens de exibir os panos das suas vestes. As esculturas da exposição são todas em papel reciclado, sendo esta, que tem dois metros de altura, desmontável pela cintura.
Nas palavras do grande pintor moçambicano Malangatana Valente Ngwenya, “Manuela Jardim, aquela mulher tão sorridente e humilde tem uma carga injectada no seu íntimo. Quase que possuída por espíritos dos antepassados ela deve ser contadora de um passado africano.
Conta sobre coisas míticas vividas de uma curta vivência infantil na Guiné-Bissau, onde as entranhas das florestas embutiram na sua alma o teatro misterioso”.

As exposições servem de ponto de apoio a Manuela Jardim para promover actividades educativas e lúdicas com escolas e com os jovens do bairro da Boba, que despertem a sua criatividade, criando pontes para o conhecimento das colecções de panaria da Guiné-Bissau e Cabo Verde do Museu Nacional de Etnologia.

Manuela Jardim rodeada de duas das suas esculturas em papel reciclado.

sábado, maio 22, 2010

JESUS SEGUNDO PETER STILWELL

Peter Stilwell, Director da Faculdade de Teologia e Vice-Reitor da Universidade Católica Portuguesa (UCP), impulsionador do diálogo inter-religioso e intercultural, em Portugal, em Macau, ou com os académicos islâmicos do Irão, é antes de mais nada um excelente ser humano, como posso testemunhar pessoalmente.
Peter Stilwell publicou um pequeno grande livro O Meu Primeiro Jesus, integrado numa colecção destinada ao público juvenil, da D. Quixote, que está destinado a ser, como sugeriu Isabel Stilwell, sua irmã, um livro na linha do Princepezinho, de Saint- Exupéry um livro, que se lê e relê, em diferentes idades e que nos continua a interrogar permanentemente.
Peter Stilwell é um teólogo para quem Jesus, desde o primeiro Jesus que conheceu com os seus pais, tem sido uma procura permanente. Melhor de que ninguém o poeta e amigo Ruy Cinatti, o disse e imortalizou no belíssimo poema Agradecimento recordado oportunamente na apresentação deste livro por Isabel Stilwell, em que refere, nomeadamente, «Foste o meu pequenino Peter a quem roubei o “Alifas”/[o elefante de trapo(…)/E tu recompensaste-me depois mil anos múltiplos…/ó Padre Peter Stilwell, tu emprestaste-me a tua tese de [licenciatura sobre o verdadeiro Deus visto por Bultmann/(…)/esse grande teólogo da Igreja Triunfante, católico protes[tante e das galáxias!.../Obrigado Peter, beijo-te a face, sou eu que te persigo…/[e em ti, um Alifas juvenil, Jesus Cristo de cognome”.
Este livro, muito bem escrito, é como referiu o poeta, padre e biblista José Tolentino de Mendonça, um livro de um teólogo, que escreveu um livro de cristologia narrativa para crianças. Situou-o no contexto cultural da teologia narrativa, defendida por Johann Baptist Metz. O livro efectivamente valoriza as histórias para nos permitir uma interrogação radical sobre quem é esse Jesus.
Peter Stilwell dá-nos um livro que representará para muitos jovens de todas as idades, uma aproximação muito interpelante sobre Jesus.
Temos de nos libertar do que julgamos saber, para com humildade, nos deixarmos interrogar sobre Jesus e sobre um conjunto de pessoas a que o conheceram muito bem, desde o jovem que fugiu nú do Jardim das Oliveiras, a Simão, o leproso, ao jovem rico, a Maria. Peter Stilwell deixa hipóteses de interpretação para serem livremente confrontadas com textos do Novo Testamento, especialmente de Marcos, para permitir ao leitor um juízo crítico e pessoal.
O livro, como os textos dos Evangelho, é construído a partir do memorial da Morte e Ressurreição de Jesus, mas liga-os de forma original com as palavras proferidas pelo velho Simeão, quando Jesus criança foi apresentado pelos seus pais no Templo, chegado o tempo da cerimónia da purificação, quando disse a Maria sua mãe “(…) Uma grande dor, como golpe de espada trespassará a tua alma” (Lc, 2, 6-40). Como nos Evangelhos a infância de Jesus só ganha significado à luz da sua morte e ressurreição.
Peter Stilwell fala-nos do túmulo vazio e da sua ressurreição, que não foi um regresso à vida como a conhecemos, seguindo de muito perto Marcos e João, deixando-nos confrontados com as nossas perguntas e recordando na introdução a propósito, as palavras de Bento XVI, segundo as quais a ressurreição é «algo mais (…) para usar a linguagem da teoria da evolução - a maior “mutação”, em absoluto, o salto mais decisivo para uma dimensão totalmente nova, como nunca se tinha verificado na longa história da vida e dos seus avanços: um salto para uma ordem completamente nova, que tem a ver connosco e diz respeito a toda a história”.
Através das histórias que Peter Stilwell nos conta a partir da Bíblia, começamos a ver surgir um ponto no horizonte, como num deserto, e que só à medida que nos vamos conseguindo aproximar, ganhará progressivamente contornos e depois um rosto, um primeiro rosto de Jesus, para usar uma imagem que utilizou na apresentação do livro.
As ilustrações de José Miguel Ribeiro são sóbrias e conjugam-se bem com o texto.
Só posso desejar que muitos leitores se sintam com vontade de permitir que o ponto vago no horizonte, se torne num rosto próximo que ajude a descobrir quem são.

domingo, maio 16, 2010

ECONOMIA SOLIDÁRIA

Vivemos um período de crise, que não é apenas financeira, nem se reduz ao défice público, mas que é uma crise estrutural do modelo de desenvolvimento, que tem sido seguido. Não é uma surpresa para quem levou a sério a caracterização da actual crise do capitalismo feita por Immanuel Wallerstein que referimos, nomeadamente, aqui.
Naturalmente que no caso português acrescem outras debilidades estruturais, mas não temos por adquirido que a nível da União Europeia se saiba para onde se pretende ir.
Temos de tentar perceber o que está a mudar e encontrar novas respostas. São necessárias novas ideias e projectos se quisermos continuar a lutar com alguma eficácia pela concretização dos valores do socialismo democrático.
Neste momento de construção de novas respostas, há que estar atento a tudo aquilo que podem representar novas abordagens teóricas e práticas inovadoras.
É o caso da Revista de Economia Solidária, de que foi publicado em Dezembro passado o primeiro número, dedicado precisamente à apresentação deste conceito.
No dizer de Rogério Roque Amaro, «Preliminarmente pode-se definir a Economia Solidária como as actividades económicas que se referenciam pelo procura nuclear de práticas de solidariedade (em vários sentidos, como se verá, o que implica uma perspectiva sistémica, e não meramente social), ou seja em que a lógica da cooperação se sobrepõe à da competição e à procura do lucro
O seu objectivo é promover a economia solidária, privilegiando como espaço de intervenção a Macaronésia, constituída pelos arquipélagos das Canárias, Madeira, Açores e Cabo Verde.
A revista é dirigida por Rogério Roque Amaro, O conselho editorial é constituído por: Cláudio Alves Furtado, Universidade de Cabo Verde; Gualter Manuel Medeiros Couto, Universidade dos Açores; Jean-Louis Laville, Laboratoire Interdisciplinaire pour la Sociologie Economique; Jordi Estivill Pascual, Universidade de Barcelona; José Fialho Feliciano, José Manuel Henriques e Rogério Roque Amaro, Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa; Leão Lopes, Atelier Mar - Cabo Verde; Paul Israel Singer; Universidade de São Paulo; Pedro Espanha, Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra; Victor Pestoff, Mid Sweden University.
Publica textos em quatro línguas: português nas suas variantes, inglês, francês e castelhano.
Pretende ser «uma Revista de pontes e articulações (…) uma expressão e um encontro de investigadores e Actores, uma experiência publicada de Investigação - Acção e por vezes de Investigacção».
A revista é editada pela Associação Centro de Estudos de Economia Solidária do Atlântico, sedeada em Ponta Delgada, Açores, http://www.ceesa-mac.org/
O debate sobre o conceito, as práticas, as potencialidades e os limites da economia solidária, é um contributo para pensar alternativas ao modelo de desenvolvimento actualmente em crise.

quarta-feira, maio 12, 2010

BENTO XVI - ENCONTRO COM O MUNDO DA CULTURA

O Papa Bento XVI encontrou-se hoje com o mundo da cultura no Centro Cultural de Belém, tendo afirmado, noeadamente:
«A Igreja – escrevia o Papa Paulo VI – deve entrar em diálogo com o mundo em que vive. A Igreja faz-se palavra, a Igreja torna-se mensagem, a Igreja faz-se diálogo» (Enc. Ecclesiam suam, 67). De facto, o diálogo sem ambiguidades e respeitoso das partes nele envolvidas é hoje uma prioridade no mundo, à qual a Igreja não se subtrai. Disso mesmo dá testemunho a presença da Santa Sé em diversos organismos internacionais, nomeadamente no Centro Norte-Sul do Conselho da Europa instituído há 20 anos aqui em Lisboa, tendo como pedra angular o diálogo intercultural a fim de promover a cooperação entre a Europa, o Sul do Mediterrâneo e a África e construir uma cidadania mundial fundada sobre os direitos humanos e as responsabilidades dos cidadãos, independentemente da própria origem étnica e adesão política, e respeitadora das crenças religiosas. Constatada a diversidade cultural, é preciso fazer com que as pessoas não só aceitem a existência da cultura do outro, mas aspirem também a receber um enriquecimento da mesma e a dar-lhe aquilo que se possui de bem, de verdade e de beleza.
Esta é uma hora que reclama o melhor das nossas forças, audácia profética, capacidade renovada de «novos mundos ao mundo ir mostrando», como diria o vosso Poeta nacional (Luís de Camões, Os Lusíades, II, 45)».

Podem ler na íntegra a intervenção de Bento XVI aqui, bem com a do bispo D.Manuel Clemente aqui, e do cineasta Manuel de Oliveira aqui.

sábado, maio 08, 2010

MANUEL ALEGRE - MUDAR A POLÍTICA E CONSTRUIR UMA NOVA ESPERANÇA

A candidatura de Manuel Alegre é a única oportunidade de vencer Cavaco Silva e impedir que se venha a aglutinar uma nova maioria de direita, tendo por base as eleições presidenciais.
Se esta razão seria só por si suficiente para não hesitar em apoiar Manuel Alegre, não tem em conta que eleger Manuel Alegre é muito mais do que isso, é uma oportunidade de mudar a política e construir uma nova esperança.
Como Manuel Alegre referiu na apresentação da sua candidatura, que pode ler na íntegra aqui: «Esta campanha será o que quiserem os homens e as mulheres, cidadãos do meu país que nada desejam para si, mas que pelo seu trabalho voluntário sabem que podem contribuir para mudar a política e construir uma nova esperança. A participação cívica é condição da renovação e revitalização da democracia. A todos, homens e mulheres que são a força e a alma de Portugal, a todos, sobretudo aos jovens, humildemente me dirijo, para que cada um, na medida das suas possibilidades, faça desta campanha uma campanha diferente que seja já, em si mesma, um sinal de mudança e de renovação»
Quem o afirma tem estado na primeira linha não apenas da renovação do socialismo democrático, mas também da acção política. Sem renegar a tradição do pensamento socialista, bem expresso pela referência simbólica a Antero de Quental, a sua intervenção tem sido marcada pela abertura permanente ao novo e à necessidade de mudar a política, recorrendo ao debate aberto, às novas tecnologias, editando uma revista socialista on-line, que pode recordar aqui, antecipando novas formas de fazer política, que nos recorda a criatividade e a imaginação social da esquerda democrática americana, de que Barack Obama é a expressão presente.
Define com lucidez os desafios com que estamos confrontados: «Hora de responsabilidade, de verdade e de solidariedade. Hora, também, para, no quadro das dificuldades existentes, tudo fazer para preservar o Estado Social. O país tem de ser mobilizado. Mas só o será se compreender o sentido das medidas e dos sacrifícios que lhe são pedidos. E por isso, além de rigor e austeridade, é necessária uma grande exigência ética. Contra os predadores do mercado, a única resposta tem de ser a mobilização geral para uma estratégia de crescimento económico. Sem abdicar do papel do Estado, quer no investimento público susceptível de estimular a economia e o emprego, quer no combate às desigualdades salariais e na adopção de políticas de uma mais justa redistribuição de rendimentos».
Manuel Alegre não esconde a sua condição de socialista, mas a sua candidatura é supra-partidária, mas não neutra. Dirige-se a «todos os democratas, de todos os quadrantes, que desejam um Presidente que seja uma alternativa, não de governo, mas de atitude, de pensamento, de uma outra visão de Portugal e do mundo».
Uma candidatura que pretende mudar a política e construir uma nova esperança, aposta nos cidadãos: «Os portugueses saberão corresponder. Com uma condição: não pode haver sacrifícios para quase todos e benefícios apenas para alguns. Mais do que nunca seria necessário promover um plano concertado entre Governo, partidos políticos e parceiros sociais. Sem apagar as diferenças e as divergências, há que realizar esforços no sentido de se tentar a máxima convergência para defender o interesse nacional, de modo a que se possa enfrentar a crise sem pôr em causa os direitos sociais dos cidadãos, sobretudo dos mais fracos e desprotegidos ».
Os jovens tem todas as razões para ver em Manuel Alegre, um companheiro de luta, e o sucesso da campanha e do País vão depender muito do seu contributo.
Como afirmou Manuel Alegre: «Por tudo isso dirijo daqui um apelo para que as novas gerações façam ouvir a sua voz, para que se reencontrem com as suas causas, para que mostrem o que pretendem construir e não privem o país do seu contributo decisivo. Por vezes parece que nos comprazemos em nos subestimarmos como povo, como se estivéssemos condenados à decadência. Portugal é um dos mais velhos países da Europa. Mas pode voltar a ser um país novo e de vanguarda, se as novas gerações forem capazes de partir para novos sonhos e novas descobertas».
Não é possível adiar a esperança, não podemos adiar o apoio a Manuel Alegre.

domingo, maio 02, 2010




Conferências de Maio 2010 do Centro de Reflexão Cristã (CRC)

RENOVAR A IGREJA, ANIMAR A SOCIEDADE

1 – A Ousadia da Esperança

Dia 4 de Maio, 3ª feira, 18h30m
Eugénio Fonseca
João Wengorovius Menezes
Lourenço de Almeida


2 – Conversão Contemporânea e Criação Cultural
Dia 18 de Maio, 3ª feira, 18h30m
Fr. Bento Domingues
Emília Nadal
Jacinto Lucas Pires
Pandora da Cunha Telles

3 – A Coragem de Agir
Dia 25 de Maio, 3ª feira, 18h30m
Francisco Sarsfield Cabral
José Leitão
P. Peter Stilwell


4 – A Demanda no Mundo da Incerteza
Dia 31 de Maio, 2ª feira, 18h30m
Eduardo Lourenço
P. José Tolentino de Mendonça
Maria de Sousa

Local: Centro de Estudos da Ordem do Carmo
Rua de Santa Isabel, 128-130. Lisboa
[Metro: Rato]
ENTRADA LIVRE


Para uma informação sobre os conferencistas consultar aqui o blogue do CRC, de onde retirei a imagem.

domingo, abril 25, 2010

CPLP - AVANÇOS NA CIRCULAÇÃO E NA CIDADANIA


O novo mundo que a revolução do 25 de Abril tornou possível, criou condições para que se viesse a institucionalizar, vários anos depois, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que pode conhecer melhor aqui.
Na passada semana no quadro dos Dias de Desenvolvimento, que pode conhecer aqui, tive oportunidade de fazer o ponto de situação dos progressos realizados em matéria de convenções sobre Circulação e Cidadania no quadro da CPLP.
A CPLP pretende ser desde o início uma Comunidade fundada num sentimento de particular solidariedade entre os seus membros, que tem por base a partilha de valores e finalidades comuns, num sinal de identidade, que é determinante para a definição dos seus objectivos.
Tive oportunidade de referir no Estudo sobre Circulação e Cidadania (2009), que pode ler aqui, o património jurídico comum dos seus Estados-membros e ao facto de serem todos amigos do Direito Internacional e favorecedores do seu desenvolvimento.
Em matéria Circulação estão em vigor as chamadas convenções de Brasília, a saber: Acordo sobre a concessão de vistos de múltiplas entradas para determinadas categorias de pessoas; Acordo sobre a concessão de visto temporário para tratamento médico a cidadãos da CPLP; Acordo sobre a isenção de taxas e emolumentos devidos à emissão e renovação de autorizações de residência para os cidadãos da CPLP; Acordo sobre o estabelecimento de requisitos comuns para a instrução de processos de visto de curta duração; Acordo sobre o estabelecimento de balcões específicos nos postos de entrada e saída dos aeroportos para o atendimento de cidadãos da CPLP. Os acordos sobre a concessão de visto de estudante e de cooperação consular entre os Estados-Membros prosseguem o processo de ratificação e esperamos que entrem em breve em vigor.
Existe um défice de informação sobre os acordos existentes em matéria de Circulação, inclusive entre os profissionais da comunicação social, que tem de ser encarado de frente, criando-se condições para que todos cidadãos da CPLP os conheçam e sejam promovidas acções de informação generalizada. No último ano e depois de vários anos de debate sobre o Projecto de Convenção Quadro sobre o Estatuto do Cidadão da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa existem condições objectivas para que possa ser aprovado na VIII Conferência de Chefes de Estado e de Governo da CPLP a realizar de Luanda, por três razões.
A primeira é o facto do texto ter merecido consenso na sua actual versão por parte do Grupo de Trabalho sobre Circulação e Cidadania, consagrando um projecto de convenção, de aplicação gradual e de geometria variável, que assenta no respeito pelo direito dos Estados-Membros.
A segunda razão radica no grande empenhamento da Assembleia Parlamentar da CPLP (AP-CPLP) para que os governos aprovem o projecto de Convenção Quadro do Estatuto do Cidadão da CPLP e o enviem aos seus parlamentos para ratificação como foi manifestado na II Reunião da AP-CPLP, que teve lugar nos passados dias 8 a 10 de Março de 2010 em Lisboa, como refere o comunicado final que pode ler aqui.
A terceira razão tem a ver com evolução constitucional verificada em Angola, que tinha já uma lei dos estrangeiros que facilitava a adesão àquela Convenção. A actual Constituição de Angola, que pode conhecer aqui, criou condições para que Angola possa estar na linha da frente em matéria de Estatuto de Cidadão da CPLP.
O art.25.º (Estrangeiros e apátridas) consagra como princípio geral que os estrangeiros e apátridas gozam dos direitos, liberdades e garantias fundamentais, bem como da protecção do Estado (n.º1), com as excepções previstas (n.º2). Contudo, o n.º3 do mesmo artigo estabelece:
«Aos cidadãos de comunidades regionais ou culturais de que Angola seja parte ou a que adira, podem ser atribuídos, mediante convenção internacional e em condições de reciprocidade de direitos não conferidos a estrangeiros, salvo a capacidade eleitoral activa e passiva para os órgãos de soberania».
Não oferece dúvidas que a CPLP cabe no conceito de comunidades culturais, não esquecendo que a língua oficial de Angola é o português (art.19.º, n.º1).
É a hora dos Estados-Membros da CPLP reconhecerem aos seus cidadãos, sem mais delongas, o Estatuto por que anseiam desde a Cimeira de Maputo.
Se assim acontecer, Luanda marcará para sempre o imaginário dos cidadãos da CPLP.

domingo, abril 11, 2010

O MIÚDO QUE PREGAVA PREGOS NUMA TÁBUA DE MANUEL ALEGRE

Esta novela de Manuel Alegre, pode ler-se como uma viagem, através de diversos fragmentos que acorrem à memória, ou dito de outra forma, como uma pergunta pela identidade. Nas palavras de Manuel Alegre: «a história é uma pergunta sem resposta, e as personagens são as metamorfoses por que passa o miúdo que fazia essa pergunta sentado num parapeito a olhar as águas que vão por sobre a ponte do rio Águeda».
O prazer da escrita que este livro nos proporciona, tem a ver com a escrita ágil, depurada, precisa, mas também com a forma como a pergunta sobre a identidade se vai estruturando, não através de uma resposta, mas apenas através de actos, através dos quais o miúdo que pregava pregos se vai construindo na sua singularidade. O miúdo que pregava pregos numa tábua, vai ser também a do que engoliu os comprimidos do avô, o que deslizava na água como se contasse as sílabas pelos dedos, o que falhou o tiro na seixa e deixou o seu pelotão com estômago a dar horas, o que ficou com os ouvidos a chiar depois da bazucada entre Nambuangongo e Quipedro, o que sentiu o bafo da terra no rebordo da cratera do vulcão Santiago na Nicarágua, o que não deixaram adormecer quando o ritmo se perdeu dentro dele, o que esteve fechado numa cela da prisão da PIDE em Luanda. De muitos fragmentos é feita uma vida, ou como diz Manuel Alegre, «Vida de tantas vidas, na tão curta vida».
Este livro pode ser lido à luz das artes poéticas, que escreveu Sophia de Mello Breyner Andresen, através das quais perseguia o real, buscava uma relação justa com as pessoas e as coisas. O miúdo que pregava pregos numa tábua apreende cedo a indignar-se com a injustiça, quando vê o médico amigo do avô ser arrastado por uns sujeitos de gabardina.
Este livro fala de uma viagem singular, mas é um livro, de que o autor disse «- Está muita gente a escrever comigo». Manuel Alegre insere-se numa genealogia poética. Sophia e Miguel Torga fazem parte da sua família poética, mas também João Roiz Castelo Branco, Sá de Miranda, Luís de Camões, Camilo Pessanha, Fernando Pessoa ou Mário de Sá-Carneiro. Todos eles fazem parte não apenas do código genético da poesia de língua portuguesa, mas também do seu cânone.
É um livro habitado pelos sons e pela música, pelo fado, pelo alarido e alarme dos sinos, pelo trilo no Verão, pelas cigarras, pelo trinado do rouxinol, do melro, da toutinegra, do pintarroxo, do pisco, pelo Concerto n.º 2 de Rachmaninov, pela Polonaise de Chopin, a Rapsódia Húngara n.º 2 de Listz, pelo próprio hino Nacional, pelas músicas brejeiras de A Saia da Carolina ou Ó Rosa Arredonda a Saia, o Concerto n.º 5 de Beethoven, Mozart, Bach, Vivaldi ou Amália.
Comecei por dizer nesta leitura pessoal deste livro, que deve ser confrontada e completada com o que disse a Prof.ª Doutora Paula Morão aqui ou pelo próprio Manuel Alegre aqui, que esta novela pode ser lida como uma pergunta pela identidade. Talvez se possa dizer que ao longo do livro há uma única pergunta, que nome tinha o miúdo de que nos fala o livro e que fala no livro.
Não é apenas Sophia no seu quarto de hospital que responde “Que nome tinha” completando o seu poema «Ia e vinha / E a cada coisa perguntava».
Que nome tinha é a mais radical questão que se pode colocar quando, como diz o autor, não se sabe sequer «quem é quem».
Este livro traz-nos uma certeza, a terra continua a tremer dentro do miúdo que pregava pregos numa tábua, o pulsar do mundo bate no coração de um homem, há um livro por acabar para o miúdo que pregava pregos numa tábua. Que esse livro em aberto continue a ser escrito por Manuel Alegre, mas que haja cada vez mais gente a escrevê-lo com ele, transformando-se num rio caudaloso, mas tranquilo, que invade com as suas canções as praças do meu País.

domingo, abril 04, 2010

AGENDA CULTURAL (36)


Apresentação do novo livro de Manuel Alegre
O Múdo Que Pregava Pregos Numa Tábua
Quarta-feira, 7 de Abril, às 19h30m
Palácio Galveias
Biblioteca Municipal Central
Campo Pequeno - Lisboa
O livro será apresentado pela Professora Doutora Paula Morão

sábado, abril 03, 2010

REGISTO


OS PECADOS DA IGREJA

Estamos aos pés da Cruz num momento em que os pecados da Igreja, mesmo os pecados dos sacerdotes, indignam o mundo e ofuscam a imagem do Reino de Deus. Aos pés da Cruz, compensemos com amor renovado a tristeza provocada pelos pecados da Igreja, e recorramos humildemente à Cruz como “trono da graça”, amor que nos redime. Com amor e humildade peçamos, por intercessão de Maria: Senhor, perdoai os pecados da vossa Igreja.

Excerto da homília de Sexta-Feira Santa do Bispo de Lisboa, o Cardeal-Patriarca, D. José Policarpo, que pode ler na íntegra aqui.

domingo, março 28, 2010

I CONGRESSO INTERNACIONAL DOS ADVOGADOS DE LÍNGUA PORTUGUESA

Os advogados dos países de língua portuguesa estão empenhados em ser uma força activa e interveniente nos seus países na defesa da justiça, dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos e na afirmação da língua portuguesa nas instituições internacionais.
O I Congresso Internacional dos Advogados de Língua Portuguesa, promovido pela UALP (União dos Advogados de Língua Portuguesa), sobre os desafios da advocacia de língua portuguesa num mundo sem fronteiras, realizado em Lisboa nos passados dias 22, 23 e 24 de Março, com cerca de seiscentos advogados de Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, S. Tomé e Príncipe, Moçambique, Timor-Leste e da Região Administrativa Especial de Macau, foi revelador de uma dinâmica de relacionamento crescente entre as suas Ordens e a Associação de Advogados de Macau, mas também da vontade de cooperação mais estreita entre advogados, como podem ver aqui.
Foram discutidas, em primeiro lugar, “Prerrogativas dos Advogados como Garantias dos Cidadãos”, no que se refere concretamente ao Advogado perante o Estado de Direito, o Poder Judicial, e a Sociedade.
Na sessão relativa ao “Sigilo Profissional” foram abordadas: a confidencialidade entre Advogado e Cliente; escutas e buscas em escritórios de advogados; criminalização da violação de sigilo. Foram também muito interessantes as comunicações sobre “Inscrição Obrigatória", nomeadamente, as relativas aos limites éticos da profissão e a função social das Ordens.
Verificaram-se comunicações de grande qualidade de advogados, como, por exemplo, Cézar Britto (Brasil), Roberto Busato (Brasil), Álvaro Rodrigues (Macau) e Manuel Gonçalves (Angola), unidos por uma cultura e valores jurídicos comuns expressos na Língua Portuguesa. No que se refere à participação portuguesa, é de realçar o empenhamento do Bastonário, António Marinho Pinto, na concretização e no êxito da iniciativa e a qualidade das comunicações de António Pinto Ribeiro e de Daniel Proença de Carvalho, bem como, as intervenções do Ministro da Justiça, Alberto Martins, e do Secretário de Estado da Justiça e da Modernização Judiciária, José Magalhães.
Subjacente a todos debates esteve sempre a preocupação com a qualidade do Estado de Direito e os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos na defesa dos quais os Advogados têm um papel insubstituível a desempenhar.
Como referiu José António Pinto Ribeiro: «Os Advogados têm um papel essencial a desempenhar na luta pela consagração e defesa do Estado de direito. Eles devem discutir e consensualizar esses valores e defendê-los intransigentemente, assim fazendo com que a UALP e eles cumpram o seu ideal. Como escreveu António Vieira “ viver é fazer, quem não faz não vive, apenas dura”».
O anúncio desde já da realização do II Congresso em Angola, em Março de 2012, deve permitir definir com tempo uma agenda e uma ordem de trabalhos que permita, designadamente, reforçar a presença da advocacia de língua portuguesa nas organizações internacionais, como foi defendido por muitos participantes, e avançar de forma serena, gradual, com geometria variável, em matéria de circulação de advogados. Será importante para isso que sejam divulgadas amplamente as comunicações e as conclusões.
Este facto reveste-se de grande responsabilidade para as Ordens de Advogados e para a Associação de Advogados de Macau, porque na actual estrutura da UALP é a elas que cabe o papel catalizador desta dinâmica.
Jorge Sampaio, advogado, e antigo Presidente da República, referiu na sessão de boas vindas, o orgulho que sentia em ter estado associado à criação da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) tendo em conta tudo o que tem vindo a ser realizado na sequência daquele acto, a que não foi alheia a realização deste Congresso, para além de ter deixado pistas a explorar para a afirmação da advocacia de língua portuguesa a nível das instituições internacionais.
Estou certo que todos os que participámos neste Congresso podemos dizer, com orgulho, nós estivemos lá, porque são enormes as possibilidades de construção em comum de actos concretos de cooperação. Só resta prosseguir e aprofundar o que começou a ser feito, até porque, como escreveu Luís de Camões, em Os Lusíadas «...pois é fraqueza / Desistir-se de cousa começada».