domingo, junho 21, 2009

OS CATÓLICOS E A CRISE DE PARTICIPAÇÃO POLÍTICA

José Tolentino de Mendonça escreveu um texto em que fala do que designa por alergia dos cristãos à política, neste excelente sítio aqui.
Se tivermos em conta a participação assumida na vida política, a manifestação clara de opções, o sujeitar-se a eleições no interior de organizações políticas ou cívicas, temos de reconhecer que assim é de facto. Estamos muito longe da participação de católicos nos diferentes partidos e sindicatos, que se viveu no pós-25 de Abril e que tão positiva foi para a consolidação da democracia
Haverá, decerto, várias razões para esta situação, para além do desaparecimento dos movimentos da Acção Católica, com excepções como a da JOC (Juventude Operária Católica) aqui, que se orientavam por uma espiritualidade assente no ver, julgar e agir.
A alergia da política procura muitas vezes justificar-se da desconfiança existente relativamente à actividade política, ignorando os apelos daqueles militantes cristãos que escreveram designadamente:
“Todos e cada um têm direito e o dever de participar na política, embora com diversidade e complementaridade de formas, níveis, funções e responsabilidades. As acusações de arrivismo, idolatria de poder, egoísmo e corrupção que muitas vezes são dirigidas aos homens do governo, do parlamento, da classe dominante ou do poder político, bem como a opinião muito difusa de que a política é um lugar de necessário perigo moral, não justificam minimamente nem o cepticismo nem o absentismo dos cristãos pela coisa pública.”
O texto citado é da autoria do Papa João Paulo II e encontra-se na Exortação Apostólica Christifideles Laici, cuja leitura na íntegra pode fazer aqui.
A situação actual não se pode, contudo, reduzir a uma atitude de alergia à política. Verifica-se também que existem movimentos que privilegiam uma agenda fracturante, assente em temas como o aborto, o divórcio, a eutanásia, o casamento homossexual e mais recentemente a oposição à educação sexual nas escolas. Estes movimentos não são alérgicos à política e são dominados pela direita, como afirmava já há meses Marcelo Rebelo de Sousa aqui.
Todas estas questões, como muitas outras, como a desigualdade social, a exclusão social, o racismo, os direitos dos trabalhadores e dos imigrantes, podem naturalmente servir de motivação à intervenção organizada de cristãos, mas é necessário, por uma questão de lealdade e transparência, distinguir a intervenção dos cristãos como cristãos e enquanto cristãos, bem como a pluralidade das suas opções, é necessário que quando os cristãos intervém para apoiar uma determinada estratégia política não se pretenda fazer passar a intervenção como sendo feita apenas com base numa motivação cristã.
O exemplo do que se não deve fazer é, por exemplo, lançar como faz o jornal “ Voz da Verdade”, de 21 de Junho, uma campanha intitulada “Sexualidade nas escolas? Não, obrigado!” dando voz ao movimento intitulado “Plataforma Resistência Nacional”.
Segundo divulga a “Voz da Verdade”, uma das campanhas recentes da Plataforma Resistência Nacional passa por apelar aos pais para entregarem, no acto de renovação das matrículas para o ano lectivo de 2009/2010, uma carta referindo que não permitem que os filhos participem nas aulas de educação sexual, pelo menos sem que sejam previamente avisados dos conteúdos.
Na mesma notícia, critica-se o PS e o PCP por continuarem, segundo dizem de “ouvidos não abertos à sociedade”. Refere-se também que “Federação Portuguesa pela Vida acusa desnorte na educação sexual”.
Para uma informação sobre a discussão desta matéria na Assembleia da República, sugiro que consulte o sítio aqui.
É evidente que todos os pais têm o direito e o dever de promover a educação sexual dos filhos, o que não se verifica hoje, como não se verificava ontem.
Todas as leis podem e devem ser discutidas, bem como o conteúdo da educação sexual, mas é óbvio, que um jornal cristão não deve silenciar o facto de grande número de cristãos serem favoráveis à existência de educação sexual nas escolas, por não ignorarem que faz falta para completar toda a informação com que os jovens são bombardeados de forma caótica, através da comunicação social, incluindo a Internet.
A alergia dos cristãos ao empenhamento político no que se refere às grandes opções nacionais, é acompanhada pela intervenção por outras formas, legítimas em democracia, mas cujo significado político não pode ser ignorado e deve ser questionado.
De um jornal católico exige-se que seja objectivo, que publique informações que ajudem a perceber o que está em questão e dê voz aos cristãos que estão a favor ou contra leis como esta, mas não privilegie grupos sectários.
O debate sobre a participação política dos cristãos é um debate necessário e José Tolentino de Mendonça fez bem em tê-lo colocado.

domingo, junho 14, 2009

LISBOA DE FERNANDO PESSOA, SEGUNDO JOSÉ FONSECA E COSTA

Os Mistérios de Lisboa or What TheTourist Should See do cineasta José Fonseca e Costa, cuja obra podem conhecer melhor aqui, é um filme, simultaneamente, fiel ao Guia escrito por Fernando Pessoa em que se inspirou e uma leitura pessoal e original desse texto.
A antestreia deste filme, de que podem ver aqui um trailer, no passado dia 13 de Junho, em que se assinalaram cento e vinte e um anos da data do nascimento de Fernando Pessoa é uma homenagem digna, e representa uma forma de continuar a sua obra e a sua acção. O nome completo do poeta nascido no dia de nascimento de Santo António, 13 de Junho, que se chamava Fernando de Bulhões, foi por isso mesmo Fernando António Nogueira Pessoa, que podem conhecder melhor aqui.
Lisboa é a cidade onde nasceu Fernando Pessoa e que ele amou mais do que qualquer outra e a Câmara de Lisboa tem procurado contribuir para o melhor conhecimento e internacionalização da sua obra, o que faz de forma permanente com a Casa – Museu Fernando Pessoa, que pode conhecer melhor aqui.
Lisboa foi para Fernando Pessoa a pátria, condensadamente no dizer de Teresa Rita Lopes, no prefácio que escreveu para aquele Guia, editado com o título Lisboa: O que o turista deve ver, Livros Horizonte, 1992, edição patrocinada pela Câmara Municipal de Lisboa.
O poeta escreveu este texto em inglês para promover internacionalmente a cidade. Inseria-se num conjunto de publicações, intitulado All about Portugal, que desejava editar, como refere Teresa Rita Lopes, que acrescenta também que ele pretendia criar uma firma significativamente denominada Cosmopolis para realizar este e outros projectos afins. Fernando Pessoa pretendia, desta forma, exportar a nossa cultura, e não apenas importar a cultura estrangeira, lutar contra a nossa descategorização europeia, a nossa descategorização civilizacional animado pelo seu nacionalismo cosmopolita.
José Fonseca e Costa partiu deste escrito, adaptando-o para servir de guião ao filme. A versão original do filme é narrada em inglês pelo escritor americano Peter Coyote, mas foram feitas: duas versões em português, uma portuguesa de Paulo Pires, outra brasileira de Marília Gabriela; versões em francês, italiano, castelhano e alemão. Cumprem-se desta forma o objectivo com que Fernando Pessoa escreveu o seu guia em inglês.
Este projecto deve-se também ao entusiasmo e estímulo inicial do Presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, sem os quais, como afirmou Fonseca e Costa talvez não tivesse realizado o filme. José Fonseca e Costa realizou um belíssimo filme sobre Lisboa, cumprindo de forma admirável o projecto do poeta de iniciação dos estrangeiros (e nacionais) ao conhecimento de Lisboa. Fê-lo com grande rigor, tendo em conta não apenas o escrito de Fernando Pessoa, mas também a Lisboa de poemas de Álvaro de Campos.
A Lisboa do Guia de Pessoa, datada de 1925, era também necessariamente diferente da actual. José Fonseca e Costa manteve-se fiel à Lisboa de Pessoa, dando dela contudo, necessariamente uma versão actualista. Os sons correspondentes aos ambientes são outros e foram gravados com muito rigor, as casas ganharam cor, o Chiado foi reconstruído, mas Pessoa reconheceria facilmente a Lisboa, que conheceu. José Fonseca e Costa teve o cuidado de ao iniciar o filme dar a ver algumas imagens da Lisboa que não existia, o Parque das Nações, a Gare do Oriente, de deixar ver o Centro Cultural de Belém, antes de filmar os Jerónimos.
É, como já referimos, um belíssimo filme que fica a fazer parte da iconografia de Lisboa, tal como os filmes Dans la Ville Blanche de Alain Tanner ou Lisbon Story de Wim Wenders.
A cidade de Fernando Pessoa mudou muito, criou novas centralidades, tornou-se mais cosmopolita, os alfacinhas enriqueceram-se com a vinda de novos lisboetas, vindos de todo o país e de vários continentes, a cidade tornou-se mais ecuménica, tendo ao lado das magníficas Igrejas de que nos fala o filme novas Igrejas católicas, mas também uma Mesquita, um Templo Ismaíli, um Templo Hindu, para lá da Sinagoga, que já existia.
Só podemos desejar que o sucesso deste filme abra caminho a novas visões cinematográficas de Lisboa, que prossigam o projecto de Fernando Pessoa de lutar contra a descategorização europeia, contribuindo para afirmar Lisboa como cidade global, uma grande metrópole cosmopolita.

domingo, junho 07, 2009

OBAMA NO CAIRO - UMA NOVA ERA NAS RELAÇÕES COM O MUNDO ISLÂMICO

Se quisermos resumir a mensagem deixada, no Cairo, por Barack Hussein Obama ao mundo islâmico podemos sintetizá-la em duas palavras que fez questão de proferir em árabe: “assalamu alaykum”, que significa “Que a paz esteja contigo”.
O seu discurso representa uma viragem radical relativamente à política seguida pela administração de G.W. Bush e da sua teoria do eixo do mal.
É significativo que o seu histórico discurso, que podem ler em português aqui, tenha sido proferido no Cairo, onde foi recebido por duas importantes instituições, a Universidade de al-Azhar e a Universidade do Cairo.
Obama, ao contrário de Bush, demonstrou ser uma pessoa culta e que não ignora as dimensões culturais e religiosas não apenas no relacionamento com os Estados, mas também com os cidadãos.
Obama, que se apresentou como cristão, filho de um muçulmano, que viveu num país maioritariamente muçulmano, a Indonésia, abordou frontalmente as principais questões que se têm colocado nas relações entre os Estados Unidos e o mundo islâmico, considerando que “temos de as enfrentar juntos”, deixando pistas para essa convergência, que tentarei sintetizar.
No que se refere ao extremismo violento, reafirmou a determinação no combate, mas também que os Estados Unidos não pretendem instalar bases no Afeganistão, que não haverá solução apenas militar e que apostam no desenvolvimento, reafirmando a retirada total do Iraque até 2012.
A questão israelo-palestiniana foi a segunda questão abordada, tendo sublinhado os laços inquebrantáveis entre os Estados Unidos e Israel e a condenação do Holocausto que não pode ser negado, mas evocando também o sofrimento dos palestinianos “muçulmanos e cristãos em busca de uma pátria”; os campos de refugiados; as humilhações resultantes da ocupação; o direito dos palestinianos a terem um Estado seu, condenando a construção de novos colonatos por Israel; bem como a importância da luta não-violenta para conseguirem os seus objectivos.
Obama manifestou a esperança de que “Jerusalém seja lar seguro e permanente para judeus, cristãos e muçulmanos, e lugar onde todas as crianças de Abraão vivam juntas e em paz”.
Muito importante é a clara posição contra a proliferação das armas nucleares, a defesa de um mundo em que “nenhuma nação tenha armas nucleares” e a importância nesse contexto do Tratado de Não proliferação de Armas Nucleares, bem como, noutro plano, o direito do Irão desenvolver a energia nuclear para fins pacíficos.
Reafirmando a importância e a superioridade dos valores democráticos, rejeitou a ideia de que a guerra seja o meio para impor a democracia, dizendo: “nenhum sistema ou governo pode ser imposto por uma nação a outra nação”.
A liberdade religiosa foi considerada, por Obama, “central para que os povos consigam viver juntos” , tendo saudado os esforços do rei Abdullah da Arábia Saudita de diálogo entre as religiões e a liderança da Turquia na Aliança de Civilizações.
A questão dos direitos das mulheres foi sublinhada de forma positiva, acentuando o facto de na Turquia, no Paquistão, no Bangladesh e na Indonésia, países de maioria muçulmana, terem sido eleitas mulheres para postos de liderança.
Em vez do afrontamento Obama procurou mobilizar os muçulmanos para a cooperação para o desenvolvimento económico e a igualdade de oportunidades, manifestando a disponibilidade dos norte-americanos para reunir-se aos cidadãos e governos, às organizações comunitárias e aos líderes religiosos, aos homens de negócios nas comunidades muçulmanas em todo o mundo “para ajudar nosso povo a alcançar uma vida melhor”.
O discurso de Obama está repleto de referências religiosas ecuménicas, terminando com citações do Corão, do Talmud e da Bíblia, convergentes na necessidade dos povos do mundo viverem juntos e em paz.
Paulo Pedroso demonstrou lucidez quando chamou a atenção no Blogue Banco Corrido aqui para o que designou por “a teologia política de Obama: pós secularismo ecuménico”.
É por isso que os cristãos tradicionalistas partilham com os laicistas tradicionais um certo mal-estar perante a forma desenvolta como Barack Obama se refere às práticas religiosas e à liberdade de religião e à separação das igrejas do Estado nos Estados Unidos, que é compatível, por exemplo, como se verifica neste discurso com a preocupação em trabalhar com os muçulmanos americanos para lhes criar condições que permitam cumprir o dever de pagar o zakat, cujo significado podem perceber aqui.
È uma nova linguagem que anuncia uma nova era nas relações dos Estados Unidos com o mundo islâmico, que merece ser apoiada, e que tem de levar a mudanças drásticas na agenda e nas prioridade da diplomacia americana e das diplomacias europeias.

domingo, maio 31, 2009

É VITAL VOTAR PS NAS ELEIÇÕES PARA O PARLAMENTO EUROPEU

As eleições para o Parlamento Europeu no próximo dia 7 de Junho de 2009 são muito importantes para a vida dos portugueses e de todos os cidadãos europeus.
O que está em causa não é um plebiscito sobre a política do Governo ou das oposições.
O que está em causa é a escolha dos deputados que melhor possam contribuir para uma Europa mais forte para vencer a crise e que simultaneamente se comprometam a defender os interesses específicos de Portugal na Europa. Esses candidatos são os da lista do PS encabeçada por Vital Moreira. No anterior Parlamento a acção dos deputados que foram reconduzidos na lista foi marcada por trabalho, competência e independência de espírito.
Votar no PS é também votar no PSE (Partido Socialista Europeu) única forma de contribuir para impedir a continuação da hegemonia conservadora do PPE (Partido Popular Europeu), em que se integram o PSD e o PP no Parlamento Europeu. Só os socialistas em Portugal e na Europa são alternativa eficaz à direita.
As suas propostas constam do manifesto eleitoral, que podem consultar aqui.
O PS é o partido português, que tem demonstrado ser mais competente e eficaz em matéria participação de Portugal na União Europeia. Foi com o PS que aderimos à CEE, que foi aprovada a Estratégia de Lisboa, que aderimos ao Euro, que foi aprovado o Tratado de Lisboa.
O PS sempre demonstrou estar empenhado na articulação dos interesses da União Europeia com os interesses específicos de Portugal. Na última Presidência Portuguesa promovemos a uma reunião UE - Brasil, promovemos a cimeira Euro – Africana e Cabo Verde viu reconhecida uma parceria especial com a União Europeia.
É preciso dizer, que, ao contrário de muitos disparates populistas que têm sido ditos, o governo tem seguido uma estratégia correcta e progressista para enfrentar a actual crise, designadamente, evitando o colapso do sistema financeiro, nacionalizando o BPN e intervindo de forma limitada no BPP, protegendo os pequenos depositantes, recusando-se a indemnizar a SLN (Sociedade Lusa de Negócios) pela nacionalização do BPN. O Estado teve que utilizar 1700 milhões de euros no BPN sendo uma falta de vergonha vir agora a SLN pretender ter direito a uma indemnização de 400 milhões de euros pela nacionalização daquele banco.
O governo tomou simultaneamente medidas diversificadas de apoio às empresas e às famílias.
Mas o PS sabe que não é possível vencer a crise contando apenas com as nossas próprias forças. Precisamos para isso de uma Comissão Europeia melhor e de novas políticas contra a crise na Europa.
A lista do PS encabeçada por Vital Moreira, defende medidas eficazes para promover o relançamento económico e promover o emprego. Os socialistas consideram, nomeadamente, que se deve apostar fortemente nas políticas de investimento e de criação de emprego, em especial no domínio das energias alternativas, das redes transeuropeias de transportes, de energia e de telecomunicações, de investigação e de ciência, que é necessário revalorizar o papel do investimento público e o apoio da UE ao investimento. Só dessa forma serão criados empregos. São também necessárias instâncias europeias de regulação e supervisão, que evitem abusos de posição dominantes em mercados estratégicos e de bens e serviços essenciais, em particular no contexto dos mercados financeiros.
A Europa tem de saber responder aos seus cidadãos com iniciativas horizontais e abrangentes, nomeadamente as relativas ao emprego e investimento, dando corpo à Estratégia de Lisboa e reforçando os meios financeiros disponíveis.
Quando está em causa a vitória do PS ou do PSD, dos socialistas do PSE ou dos conservadores do PPE, não devemos abstermo-nos, ou ficar a assistir, temos de contribuir para vencer a direita. Necessitamos de uma Europa mais forte para vencer a crise.
Nestas eleições é vital votar na lista do PS, encabeçada por Vital Moreira.

domingo, maio 24, 2009

LISBOA - JACARANDÁS EM FLOR

Os jacarandás são uma das muitas árvores, que nos falam silenciosamente das viagens das plantas, dos encontros e desencontros, que têm feito de Lisboa, a cidade cosmopolita que ao longo dos séculos tem sido.
Jacarandá é uma palavra que ficámos a dever aos índios tupi do Brasil, que em tupi se pronuncia ya’kãgrã’ta’ que significa o que tem cabeça dura, segundo se pode ler no Dicionário de Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa.
Publicamos esta imagem graças à gentileza do nosso grande amigo António Sampaio de Carvalho, excelente fotógrafo a quem já nos referimos aqui.

PATRIMÓNIO, HERANÇA E MEMÓRIA

Guilherme d’Oliveira Martins fala-nos da cultura como criação, que é aliás o subtítulo do livro com este título, recentemente editado pela Gradiva, de que reproduzimos a capa, no qual demonstra a complementaridade entre as políticas centradas no património histórico e a criação contemporânea, sublinhando que existe sempre uma simbiose entre património material e imaterial, herança e criação.
O livro é composto por duas partes: uma reflexão pessoal suscitada pelo trabalho conjunto levado a cabo pelo grupo a que presidiu que propôs ao Conselho de Ministros da Cultura do Conselho da Europa a Convenção - Quadro do Conselho da Europa relativa ao valor do Património cultural para sociedade contemporânea; outra composta por outros textos sobre cultura portuguesa, onde procurou demonstrar a relação entre Património, Herança e Memória. Acrescenta-se o texto em português e em inglês da referida Convenção.
Esta Convenção foi proposta sob a Presidência portuguesa e foi aprovada em 27 de Outubro de 2005, na cidade de Faro.
Esta convenção, reproduzida no livro segue-se à Convenção sobre o Património arquitectónico, de Granada de 1985, à Convenção sobre o Património arqueológico de La Valetta de 1992, à Convenção sobre a Paisagem de Florença de 2000. Esta Convenção já foi ratificada por Portugal, e o seu texto pode ser consultado aqui.
Inspirando-se na reflexão de Santo Agostinho sobre o tempo, afirma: “O presente das coisas passadas é a memória; o presente das coisas presentes é a vida, o presente das coisas futuras é a espera. A nossa relação com a Cultura apenas pode ser assim entendida a partir da História, das diferenças, da complexidade e do pluralismo, da responsabilidade e da capacidade criadora”.
O direito ao Património cultural é inerente ao direito de participar na vida cultural, como se afirma no art.1.º da Convenção, que para além das obrigações que cria para as Partes que a ratificaram e do mecanismo de acompanhamento nela previsto, nos compromete a todos na realização dos seus objectivos. É por isso que as Partes se comprometem, nomeadamente, a encorajar as pessoas a participar no processo de identificação, estudo, interpretação, protecção, conservação e apresentação do Património cultural e na reflexão e debates públicos sobre as oportunidades e os desafios que o Património cultural apresenta, a apelar em síntese ao exercício da nossa cidadania cultural.
A ilustração de que o Património cultural é uma realidade viva é feita de forma convincente pelos textos publicados na segunda parte do livro. Permito-me destacar os relativos à Língua Portuguesa, que são preciosos guias para acção dos responsáveis pedagógicos e/ou políticos pelo seu ensino e difusão; sem esquecer, como refere, que este é um desafio para os seus duzentos milhões de falantes porque é a todos que cabe a defesa da nossa Língua comum.
Registo também e sublinho o que afirma em defesa do multilinguismo, afirmando que o futuro seria do esperanto ou de uma língua franca básica, o inglês simplificado, e em que defende o bom domínio da língua materna e de pelo menos duas línguas estrangeiras.
Contributos de M. Machado Pires, de Antero de Quental, de Eduardo Lourenço, Sérgio Campos Matos, Alçada Baptista, D. Manuel Clemente, Eduardo Prado Coelho, entre outros, são recordados para melhor pensar Portugal, a sua cultura e os desafios com que se tem confrontado.
Devo dizer que nesta parte há um texto que se agiganta, intitulado “Culto do Algarve - um testemunho”, que dedica à sua Mãe, é um texto memorialista, em que se solta a sua veia literária, um texto de grande cultura e sensibilidade e em que se experimenta com particular intensidade o prazer de ler.
A capa do livro é ilustrada significativamente com uma imagem que faz parte do tríptico da Almada Negreiros alusivo ao “romance” da Nau Catrineta, na Gare marítima de Alcântara, em Lisboa, que é uma obra de referência do modernismo português.

sábado, maio 23, 2009

REGISTO

NA MORTE DE JOÃO BÉNARD DA COSTA (1935-2009)
A morte de João Benárd da Costa tem suscitado referências justificadas ao seu contributo para a cultura cinematográfica portuguesa e para a cultura portuguesa em geral, mas como referiu Franscisco Sarsfield Cabral num texto certeiro publicado no Público, de 22 de Maio de 2009, intitulado Vencido do catolicismo o seu empenhamento estético tinha uma clara dimensão de procura do transcendente. Deixou-nos textos preciosos de reflexão cristã desde os seus tempos de adolescente no jornal Encontro da JUC, que teve um papel destacado na renovação da Igreja e da Cultura portuguesas, passando pelo O Tempo e o Modo até à actualidade.
Para o comprovar veja-se a recente reflexão sobre o Belo, que podem ler aqui ou sobre a encíclica de Bento XVI, Spe Salvi (Salvos na Esperança), que podem ler aqui.
São muitas as razões para dizermos que Esta vida não acabou aqui, como escreveu Alexandra Lucas Coelho num excelente texto publicado no Público , de 22 de Maio de 2009, que podem ler aqui.

domingo, maio 10, 2009

A CPLP EM MOVIMENTO

Verificaram-se recentemente iniciativas positivas que, de forma diversa, podem contribuir para a apropriação da Comunidades dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) pelos cidadãos e pelos povos dos seus Estados-Membros.
Destaco três iniciativas de natureza diversa, mas que vão nesse sentido e que merecem ser conhecidas e divulgadas.
A mais destacada foi a realização da I Sessão da Assembleia Parlamentar da CPLP, nos passados dias 27 e 28 de Abril, em São Tomé e Príncipe.
A Assembleia Parlamentar foi instituída pelo XII Conselho de Ministros que decorreu em Novembro de 2007, em Lisboa, como podem ver aqui.
Esta sessão foi um acontecimento fundador, durante o qual foram aprovados os Estatutos e o Regimento e discutidas questões de grande relevância, como podem ver aqui e aqui.
A criação da Assembleia Parlamentar foi o culminar de um processo no sentido de dotar a CPLP de um órgão parlamentar no qual têm tido um papel de destaque os presidentes dos parlamentos dos Estados-Membros.
Esta primeira sessão foi apenas um começo. É desejável que este órgão represente de forma cada vez mais adequada a pluralidade política representada nos parlamentos dos Estados-Membros e que seja reconhecido aos cidadãos da CPLP o direito de petição perante este órgão relativamente à aplicação do Direito da CPLP.
Uma excelente iniciativa que demonstra a capacidade de execução de projectos por parte da CPLP, é DOCTV CPLP, concurso internacional de selecção de projectos de documentário, que é um programa de fomento à produção e teledifusão do Documentário, que pode conhecer melhor aqui. Foi anunciado em 6 de Abril e decorre até 21 de Maio e vai permitir seleccionar um projecto vencedor em cada um dos Estados-Membros e em Macau. A sua concretização envolve o Ministério da Cultura e/ou a Autoridade Nacional de Cinema e a Televisão pública de cada País, bem como, o Instituto Internacional de Macau e a TDM.
São necessárias mais iniciativas que envolvam os profissionais de cinema, televisão e comunicação social. Existe um défice de informação sobre as actividades desenvolvidas pela CPLP que tem de ser superado com o contributo de todos nós.
Uma outra iniciativa que merece realce no quadro da Semana Cultural da CPLP, que decorre de 4 a 14 de Maio, foi o Colóquio sobre Cidadania na CPLP, cujo programa pode consultar aqui, no qual participei com muito gosto.
A aspiração à institucionalização de uma cidadania da CPLP é uma aspiração de concretização cada vez mais premente. Os valores comuns, assentes nos direitos humanos, partilhados pelos Estados-Membros, a comum linguagem científica em matéria de direito constitucional e de direitos dos estrangeiros, os numerosos acordos bilaterais, tudo isto facilita a sua adopção. A Cidadania na CPLP foi também discutida na I Assembleia Parlamentar da CPLP.
A cidadania da CPLP é uma nova cidadania que se acrescenta à cidadania nacional e visa permitir aos seus detentores exercer direitos preexistentes e originariamente destinados aos cidadãos do país em que o cidadão da CPLP se encontra e de que não é nacional. É o que se denomina uma cidadania de segundo grau, cuja concretização é possível e desejável.
Os Países de Língua Portuguesa quando deram à sua organização a designação de Comunidade tinham plena consciência de que era fundada em laços especiais de solidariedade, como referem as suas Constituições, em valores e finalidades comuns e duradouros.
A Comunidade está em movimento, a avançar com determinação. É preciso que os cidadãos da CPLP participem mais neste processo e vejam reconhecidos Direitos de Cidadania.
Imagem retirada do Blogue da Embaixada de Portugal no Brasil, de aqui.

sábado, maio 02, 2009

AGENDA CULTURAL (21)


Conferências de Maio 2009
CRC - Cento de Reflexão Cristã

ESPERANÇA E JUSTIÇA CONTRA A CRISE

1 -
Economia da Ilusão e Sociedade Injusta
Dia 7 de Maio, 5ª feira, 18h30m
Alfredo Bruto da Costa
Ulisses Garrido
2 - Desesperança e Apelo Solidário
Dia 14 de Maio, 5ª feira, 18h30m
João Ferreira do Amaral
Jorge Wemans
M.Margarida Marques
3 - Crise dos Modelos as Novas Respostas
Dia 21 de Maio, 5ª feira, 18h30m
Guilherme d’Oliveira Martins
Eduardo Paz Ferreira
4 - Há uma Esperança Global?
Dia 28 de Maio, 5ª feira, 18h30m
Luís Moita
Manuel Brandão Alves

Local: Centro de Estudos da Ordem do Carmo
Rua de Santa Isabel, 128-130. Lisboa (Metro: Rato)

domingo, abril 26, 2009

AGENDA CULTURAL (20)

Muitos Dias Tem o Mês
de Margarida Leitão

O endividamento das famílias portuguesas é um tema deste documentário de Margarida Leitão. Um filme de uma actualidade extrema, que procura mostrar a complexidade deste problema que assola milhares de famílias. A realizadora procura abordar a questão de diversos ângulos, desde o balcão da DECO, às casas de penhores, passando pelos leilões imobiliários e as confissões intimistas de vários devedores. Sobretudo revela uma notável dimensão humana. Num filme urgente, que pode ser tomado como uma obra sóbria de intervenção social. Porque a maior lição que se toma é que é preciso mantermo-nos alerta numa sociedade em que o apelo ao consumo se torna tantas vezes irresistível.
M.H.
Cinema São Jorge, dia 27, às 21h e 45, Sala 1; Cinema Londres, dia 1 de Maio, às 21h e 15 , Sala 2
10 filmes não perder
Especial Indie
JL
JORNAL DE LETRAS, ARTES E IDEIAS
Para saber tudo sobre INDIE LISBOA
FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINEMA INDEPENDENTE

quinta-feira, abril 16, 2009

AGENDA CULTURAL (19 )

Darwin, um Diálogo entre Fé e Ciência

Dia 22 de Abril de 2009 (4ª feira às 18h30m)
João Caraça
P. João Resina
Promovido pelo CRC (Centro de Reflexão Cristã)


Local: Centro Nacional de Cultura - Galeria Fernando Pessoa
Largo do Picadeiro, nº 10-1º. Lisboa.
(metro Baixa-Chiado)

Para conhecer mais sobre Darwin consulte aqui .

quinta-feira, abril 02, 2009

AGENDA CULTURAL (18)

SESSÃO COMEMORATIVA
FEVEREIRO/MARÇO de 1959 – Dois acontecimentos:

As relações entre a Igreja e o Estado e a liberdade dos católicos, documento subscrito por 43 cidadãos;
Carta a Salazar sobre os serviços de repressão do regime, subscrita por 45 cidadãos;

O Forum Abel Varzim e o Centro Nacional de Cultura, organizam uma Sessão comemorativa dos 50 Anos destes dois eventos históricos; uma homenagem aos principais animadores dos dois documentos: Francisco Lino Neto, bem como a todos os que já faleceram, entre os quais o primeiro subscritor, Pe. Abel Varzim; Mons. Adriano Botelho (de que ocorrem agora os cem anos de nascimento, e que foi pároco das Paróquias de Alcântara e de São João de Brito); e de João Perestrello que faleceu em 2 do corrente mês.
Convidam-se todos os que assinaram aqueles documentos e que conheceram de perto os homenageados e todos os que se interessam pela história da Oposição de Católicos ao Estado Novo.
A mesa será constituída por:
Guilherme de Oliveira Martins
João Miguel Almeida
Nuno Teotónio Pereira

O encontro terá lugar no dia 3 de Abril de 2009, sexta-feira, no auditório da Junta de Freguesia de São João de Brito, pelas 18h00m.
Rua Conde de Arnoso, n.º 5
1700-112 Lisboa
(Nas traseiras da Igreja de São João de Brito)
Participe, passe a palavra, traga um amigo…..

segunda-feira, março 30, 2009

AGENDA CULTURAL (17)





4 de Abril, pelas 22h30,
YEMANJAZZ, apresentam o seu primeiro disco
com um concerto ao vivo na
COMUNA, na Praça de Espanha, em Lisboa

…sonoridades parajazzísticas, vectorizações woodstokianas, afro-glam sinfónico e pozinhos de brasis crioulos…
Pedro Castanheira
mais informação aqui e aqui

sábado, março 28, 2009

AGENDA CULTURAL (16)


ABRIL, ÂNIMOS MIL

pintura . escultura
ANTÓNIO COLAÇO
16 abril . 8 maio
Galeria da Associação 25 de Abril
Rua da Misericórdia, n.º95, em Lisboa
exposição comemorativa dos 30 anos da ânimo
http://animo30.wordpress.com/
inauguração dia 16 de Abril, quinta-feira, pelas 19 horas, De que falamos quando falamos de ânimo com a participação do Pe. Anselmo Borges
"...Num tempo de desânimo, uma exposição que faz apelo a que retomemos os caminhos que Abril nos abriu e em cujo esquecimento radicam, também, à nossa escala, algumas das razões para a crise que enfrentamos.
Na luta por uma sociedade mais justa e solidária, regressar às origens, mesmo a partir da grande cidade, pode ser um bom começo..."

domingo, março 22, 2009

BOSS AC - PRETO NO BRANCO - UMA NOVA MÚSICA URBANA


Ângelo César Firmino, musicalmente conhecido por Boss AC, como podem ver aqui e aqui, nasceu em Cabo Verde, mas foi criado no bairro da Bica em Lisboa, sendo ”cem por cento alfacinha”, como afirma aqui.
O seu novo disco “Preto no Branco” é a demonstração de que podemos somar influências culturais e musicais, fazer melhor música e viver com horizontes mais alargados. Estamos perante um disco que é expressão da emergência de uma nova música urbana, simultaneamente enraizada num quotidiano e numa memória musical cosmopolita.
Boss AC pertence à geração que esteve ligada ao aparecimento do rap em português, de que a colectânea “Rapública” (1994) ficou como um marco, mas sua música evoluiu e tornou-se muito mais rica desde essa época.
Boss AC é, com Sam The Kid, a que me referi aqui, uma das mais promissoras esperanças do hip hop português.
Não foi por acaso que ganhou o Prémio de Jovens autores de 2007 da Sociedade Portuguesa de Autores. Os seus poemas têm qualidade, ajudam a pensar seriamente sobre a forma como vivemos o quotidiano e sobre o sentido da vida, ajudam a pôr tudo preto no branco. Um dos seus versos foi inclusive incluído num manual de filosofia.
Boss AC é um ser humano responsável e solidário, que canta, por exemplo: “Respeito o meu próximo para que ele me respeite a mim/Penso na origem de tudo e penso como será o fim/ A morte é o fim ou um novo amanhecer?” e proclama, com evidente sinceridade, “ Eu acredito na Paz e no Amor”.
Cada som neste álbum é - segundo afirma - uma foto da sua alma.
A sua música é um incitamento a viver a vida com intensidade, não esquecendo como diz numa destas canções, que “hoje é uma dádiva, é por isso que se chama presente”. Incita-nos a não perder tempo com lamentações e a não esquecer, como diz no título de uma das canções que mais gostei “Estou vivo”que podem ouvir aqui e adverte “Damos tanta importância a coisas que nada importam, de repente alguém nos deixa e vemos temos senha” e acrescenta: “Vive a vida, tira proveito até ao fim da corrida, põe-te de pé e grita bem alto: Eu estou vivo e vou viver a vida”.
Este é um disco feito com um enorme cuidado e profissionalismo. Boss AC cria a sua música com uma grande liberdade criativa, indo para além do rap e do hip hop, conjugando contributos diversos desde o fado e a voz de Mariza, presentes em “Alguém Me Ouviu (Mantém-te Firme) até às guitarras da morna em “Pa Nada”, que canta muito bem no crioulo de Cabo Verde. Não é por acaso que é filho de uma grande cantora cabo-verdiana, Ana Firmino, que podem conhecer melhor aqui.
A música de Boss AC não pode ser desligada da crescente afirmação cultural de uma nova geração de portugueses, que assumindo a sua mestiçagem cultural, contribuem para afirmar cada vez mais Portugal, como um País plural, a que me referi aqui.
Não apenas Lisboa que é cada vez mais uma cidade cosmopolita, é Portugal, no seu conjunto, que é cada vez mais uma Nação cosmopolita, cuja identidade cultural está em permanente reelaboração com o contributo de todos os seus cidadãos.
Todo o mudo é composto de mudança, como dizia, Luís de Camões. Ao lado do fado, que tanto aprecio, numa cidade como Lisboa, assistimos ao emergir de novas músicas urbanas, como a de Boss AC, enriquecendo a nossa cultura.
O facto de neste disco ter colaborado Mariza exprime, de uma forma feliz, os laços de cumplicidade e de solidariedade, que devem existir entre todos os criadores, que por diversos caminhos, estão renovando o nosso imaginário colectivo. São também de referir as participações neste disco de Shout, TC, Patrícia Antunes, Djodje, Olavo Bilac, Valete e Toni Garrido.
Não deixem, de ouvir este novo disco de Boss AC. Vale a pena conhecer a nova música urbana.

sábado, março 21, 2009

AGENDA SOCIAL (1)


Lançamento do livro
Por um Sindicalismo Renovado
Comissão Nacional Justiça e Paz, Grupo de trabalho “Economia e Sociedade”
24 de Março 18h30 Auditório B203, Edifício II, ISCTE
Apresentação pelo Professor Mário Murteira e pelo Dr. Paulo Pedroso

quarta-feira, março 18, 2009

REGISTO

A revista ops!, com o terceiro número dedicado à Economia e à Crise - Tempo de Grandes Decisões - já está online.
A apresentação decorre na quarta-feira, 18 Março, 18h30, Hotel Altis, Lisboa, com análise e intervenções de Manuel Alegre, Henrique Neto, António Carlos dos Santos, Jorge Bateira e Nuno David.
Com um dossier dedicado à Economia e às grandes decisões, a revista ops! lança-se nas raízes, nas ameaças e nas oportunidades criadas pela crise. Contando com um editorial de Manuel Alegre, com o dossier coordenado por Jorge Bateira e uma entrevista a Alfredo Bruto da Costa, participam neste número diversos investigadores e actores políticos socialistas e independentes.
A crise e as suas soluções são temas de debate na próxima quarta-feira no Hotel Altis, ás 18h30.
Escrevem neste número Manuel Alegre, Jorge Bateira, Henrique de Melo, João Correia, Nuno David, João Ferreira do Amaral, José Castro Caldas, Elísio Estanque, Luis Tito, Ernesto Silva, Maria José Gama, Sérgio Pessoa, Pedro Tito Morais, Ana Cardoso, José Reis, Catarina Frade, Eduardo de Oliveira Fernandes, Maria Clara Murteira e Ricardo Paes Mamede.
Site da revista: http://www.opiniaosocialista.org/

terça-feira, março 17, 2009

domingo, março 15, 2009

DIÁLOGOS NO MEDITERRÂNEO OCIDENTAL

A necessidade de aprofundar o diálogo euro-mediterrâneo, através da criação de novos dinamismos esteve no centro do encontro, intitulado “Diálogos no Mediterrâneo Ocidental - as regiões e a sociedade civil pela cooperação descentralizada e a democracia participativa”, realizado em 13 e 14 de Março, na bela e histórica cidade de Génova, por iniciativa da Região da Ligúria e da Representação em Itália da Comissão Europeia, com o Alto Patrocínio do Presidente da República Italiana, Giorgio Napolitano.
Tendo tido oportunidade de participar neste encontro a convite das entidades organizadoras, que procuraram assegurar a presença de participantes de cinco Estados - Membros da União Europeia (Itália, França, Portugal, Espanha e Malta) e cinco Estados da África do Norte (Argélia, Líbia, Tunísia, Marrocos e Mauritânia.), quero chamar a atenção para a importância de que se revestiu um encontro, que discutiu questões como: o reforço da cooperação sobre imigração e sobre integração; a democracia participativa, local, paritária - reforçar os direitos de expressão, de associação e a igualdade homem - mulher; a protecção do meio ambiente e o reforço do desenvolvimento duradouro na região; o partenariado cultural e humano - promover o reconhecimento mútuo e a coabitação entre culturas diferentes através da mobilidade e da educação; o papel da sociedade civil no desenvolvimento e na cooperação no Mediterrâneo Ocidental.
Temos de reconhecer a necessidade da sociedade civil seguir, de forma mais atenta e informada, esta dinâmica da União Europeia, na qual o Estado e os governos portugueses têm participado de forma empenhada.
Portugal é um país que em termos de geografia, humana, cultural e política, está dividido entre o Atlântico e o Mediterrâneo. Não é pressionado a participar neste processo pois não tem uma imigração intensa e descontrolada a partir dos países da África do Norte como acontece em Itália e Espanha.
Não podemos, contudo, ignorar os laços históricos entre Portugal e Marrocos em diferentes fases da história, as marcas linguísticas e culturais que deixaram na nossa cultura, particularmente no Sul de Portugal, populações originárias de Marrocos durante o período de hegemonia islâmica.
O número de imigrantes que residem legalmente em Portugal, provenientes da bacia do Mediterrâneo, é efectivamente limitado, como se pode constatar pelos seguintes números: Marrocos - 1871; Argélia 220, Tunísia - 113, Líbano - 195, Egipto - 351, Síria - 90, Israel - 133, Jordânia - 87 e Irão - 624 (Fonte: SEF).
Não devemos ignorar os laços económicos com estes países, nomeadamente, o gás que utilizamos vem da Argélia. Temos possibilidade de aprofundar não apenas o relacionamento económico, mas também cultural e político.
Fiquei impressionado com a forma como a Universidade de Génova consegue atrair um grande número de alunos provenientes do outro lado do Mediterrâneo, a sua aspiração a ser a Universidade do Mediterrâneo, acompanhando o protagonismo político que a cidade de Génova e a Região da Ligúria pretendem ter no diálogo euro - mediterrâneo. Valerá a pena às instituições universitárias portuguesas estarem atentas a estas dinâmicas, bem como às possibilidades abertas pelo programa comunitário Erasmus Mundus, como podem ver aqui.
Para quem se queira começar a interessar pelo diálogo euro - mediterrâneo, gostaria de recomendar que começasse por ler o livro “Breviário Mediterrâneo” de Predrag Matvejevitch, recentemente reeditado pela Quetzal, de que reproduzimos a belíssima capa, antes de ler a comunicação da Comissão ao Parlamento Europeu e ao Conselho sobre o processo de Barcelona: União para o Mediterrâneo.
Como tem afirmado o escritor mediterrâneo Tahar Ben Jelloun, a cultura é um antídoto ao conflito, neste processo deve-se começar pela cultura, o resto seguirá.
Sem desconsiderar a importância de iniciativas políticas como a que me referi, que irá ter continuidade nos próximos anos, devemos ter em conta que se não forem acompanhadas de trocas culturais mais alargadas, dificilmente se enraizarão nas sociedades civis.

domingo, fevereiro 15, 2009

PARTIDO SOCIALISTA - UMA RECENTRAGEM à ESQUERDA?



O XVI Congresso do Partido Socialista é um facto político de grande importância não só pelo facto de estar no governo, mas também porque estamos no limiar de um novo ciclo político, realizando-se durante este ano três actos eleitorais decisivos para o futuro do País.
Como defendi aqui cabe ao PS a enorme responsabilidade de continuar a merecer, em muitos casos recuperar, a confiança dos eleitores, quer pela sua acção governativa, quer pelas políticas que defina para este novo ciclo político.
Disse também que não devemos ter ilusões, sem o Partido Socialista a esquerda não marcará o próximo ciclo político. Se o Bloco de Esquerda conseguir retirar a maioria absoluta ao Partido Socialista a única coisa certa é que teremos piores políticas e menos progressistas do que se o PS tiver maioria absoluta.
O Bloco de Esquerda ao romper a coligação com o PS na Câmara de Lisboa e a retirar a confiança política a José Sá Fernandes, sem qualquer razão válida, deu um sinal claro de que a preocupação são apenas alguns ganhos eleitorais e não que a esquerda governe Lisboa e prossiga as políticas que a coligação contribuiu para promover, como foi a aprovação do Plano Verde para Lisboa ou a resolução, através do tribunal arbitral, da situação dos trabalhadores precários.
A moção política “PS: A Força da Mudança” apresentada por José Sócrates, que podem ler aqui, é uma resposta positiva à necessidade de formular políticas que respondam à crise, inscrita na tradição do socialismo democrático, na qual reconheço muitas das ideias e propostas que apoiei ou defendi em anteriores congressos do PS. Subscrevo, sem hesitar a afirmação de que assistimos “à derrota da lógica do pensamento único” e que: “O mundo acaba de assistir á clamorosa derrota do pensamento político neoliberal. A ideologia do mercado entregue a si próprio, sem Estado sem regulação capaz, e a especulação desenfreada nos mercados financeiros são os responsáveis principais pela profunda crise que se abateu sobre toda a economia mundial…. Não pode ser resolvida recorrendo aos princípios, às práticas e às políticas que a provocaram. É preciso responder com mais regulação e com firme defesa do interesse público.” Considero também muito positivo que se defenda que a Europa: “deve tomar as iniciativas necessárias à eliminação, à escala global, das zonas de privilégio e excepção que na prática funcionam, como os off-shores, como indutores de opacidade, à especulação e evasão fiscal”.
A ideia de Estado Estratega, que me é cara, é afirmada, quando se refere que: “O PS é partidário da economia de mercado e defensor do papel estratégico do Estado democrático, com capacidade reguladora, mas adversário do proteccionismo e do colectivismo”.
Recomendo a todos a leitura da moção. Mesmo que se não concorde com todas as análises e propostas, é manifesto que se trata de um texto político de referência.
Não bastam, contudo, boas propostas, o Partido Socialista tem demonstrar de forma inequívoca, na sua prática interna ser um partido inclusivo, que premeia a qualidade e não a subserviência, que aceita avaliar o resultado das políticas, que não confunde a crítica interna, com o confronto parlamentar.
Deve também ter por preocupação responder às angústias e às esperanças dos cidadãos particularmente dos que são mais vulneráveis neste momento face à crise. É tendo em contas as pessoas, que sempre defendemos que devem estar em primeiro lugar, que devemos definir racionalmente, as prioridades da nossa agenda política. Trata-se de unir esforços e fazer convergir vontades da forma mais alargada possível e não dividir a nossa base social de apoio natural.
Este é o momento de procuramos construir não qualquer forma de unanimismo, e é positivo que tenham sido apresentadas outras moções subscritas respectivamente por Fonseca Ferreira e por António Brotas, que podem ler respectivamente, aqui e aqui ou que se façam leituras críticas da moção apresentada por José Sócrates, como a de Manuel Alegre aqui, mas temos todos a obrigação de contribuir para a unidade necessária sem a qual não conseguiremos enfrentar com sucesso os próximos desafios eleitorais. É preciso mais cidadania também no interior do Partido Socialista, que se não confunde com o apoio acrítico a todas as medidas e propostas, nem com uma atitude de sistemática desconfiança relativamente à acção governativa, mas que exige que se apoie aquilo com que se concorda e discorde do que consideramos errado ou mal aplicado.
Se o fizermos estaremos a contribuir para uma necessária recentragem do Partido Socialista à esquerda, a afirmar a actualidade do socialismo democrático face à crise, e mereceremos ter de novo a confiança de uma grande maioria dos portugueses, assegurando as condições para que o PS continue a ser a força da mudança.