Realizou-se em 25 e 26 de Maio de 2007, o «II Encontro Internacional Migrantes Subsarianos na Europa», organização de SociNova Migrações, que foi uma iniciativa que, pela sua qualidade, irá alimentar novas dinâmicas de investigação e de intervenção.
Este II Encontro foi muito bem organizado por uma comissão composta por Cármen Maciel, Joana Lopes Martins, Francisco Carvalho; Francisco Costa, Sofia Santos e M. Margarida Marques. Teve lugar nos paços do Concelho de Odivelas, cuja Câmara deu toda a sua colaboração para que tudo decorresse nas melhores condições, reflectindo a sensibilidade da sua Presidente, Susana Amador, por esta temática. Discutiram-se em atelier (em simultâneo) questões de grande actualidade como: “Democracia; Direitos Individuais e Bem Comum”; “A Produção Cultural de África na Europa”; “Políticas e Práticas de Saúde em Contexto Migratório”; “Segundas Gerações Pós-Coloniais”; “Imigração e Cidades Criativas”.
O Encontro iniciou-se com o debate em plenário da “Cooperação Europa-África” e terminou significativamente com o debate, também em plenário das “ Redes no Espaço da Lusofonia”.
As Actas deste II Encontro serão um instrumento de trabalho fundamental não apenas para académicos, mas também para agentes políticos e para empreendedores, porque abrem pistas de reflexão e de trabalho muito aliciantes.
Como referiu no decorrer do Encontro a Prof. M. Margarida Marques, a Lusofonia nasce hoje de baixo para cima e alimenta trocas entre artistas e criadores das mais diversas origens, que se exprimem numa língua comum, o português.
O debate sobre as “Redes no Espaço Lusófono” partindo das relações espontâneas que se estabelecem, designadamente, entre portugueses, cabo-verdianos e, brasileiros ou angolanos em diversos países, que foi referido por Arnaldo Andrade, Embaixador de Cabo Verde em Portugal, referiu a importância da acção político-diplomática desenvolvida pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa-CPLP, abordou outras dimensões que assumem estas redes. Hélder Vaz Lopes, conhecida figura política e intelectual guineense, falou da importância das cidades na construção destas redes e de um importantíssimo projecto da UCCLA, que visa a criação de uma Rede de Cidades Lusófonas, como alavanca da cooperação lusófona. Enoque João, presidente da Casa de Moçambique explicou a importância insubstituível das Associações de Imigrantes na criação das redes lusófonas e as dificuldades com que ainda se confrontam entre nós. Jorge Gonçalves, director da RDP África, referiu a expansão da cobertura da RDP África em Portugal, a necessidade de atingir o Porto, a colaboração positiva que se tem vindo a verificar com a RDP Internacional e com Rádios e televisões brasileiras e a necessidade de haver maior produção de conteúdos por partes dos parceiros dos diversos países lusófonos. Não deixa de ser interessante referir que este debate foi moderado por Mónica Goracci, actualmente responsável pela OIM em Portugal, que demonstra uma grande capacidade de entender os portugueses e esta problemática.
Como não podia deixar de ser foi referida a importância da existência e funcionamento da CPLP, que promove uma acção de concertação político diplomática, conforme foi referido por Arnaldo Andrade. O pilar político-diplomático tem vindo a ser construído, e progrediu o pilar linguístico. O IILP (o Instituto Internacional da Língua Portuguesa) tem projectos interessantes e uma direcção empenhada. Tudo isto alimenta redes formais ou informais de profissionais, centrais sindicais, empresários, investigadores, intelectuais, cada vez mais diversas e cada vez mais numerosas. É por isso importante que a CPLP continue a criar condições institucionais para que os cidadãos participem neste processo. Deve ser uma exigência dos cidadãos que se continue a trabalhar para ir mais longe nas áreas de “ Circulação e Cidadania”, cujo grupo de trabalho tem de reunir e prosseguir o seus trabalhos sobre a cidadania lusófona e será necessário que se institucionalize uma Assembleia Parlamentar da CPLP, para atenuar o défice democrático na sua construção, como já defendemos aqui.
A construção de redes no espaço da Lusofonia pode ser potenciado com o diálogo e a colaboração com académicos competentes e motivados para trabalhar nesta área. A SociNova Migrações demonstrou com este Encontro, que pode contribuir para que as redes no espaço da Lusofonia não falem apenas a mesma língua, mas construam uma linguagem e uma agenda comuns.
domingo, maio 27, 2007
domingo, maio 20, 2007
DARFUR - O PRIMEIRO GENOCÍDIO DO SÉCULO XXI
Os massacres no Darfur prosseguem e ameaçam tornar-se no primeiro genocídio do século XXI, como tem afirmado o bispo Jacques Gaillot.
Em 31 de Julho de 2004 lançámos aqui um apelo no qual afirmávamos: temos de impedir a continuação do genocídio no Darfur. Recordávamos que anos antes não tinha havido uma acção atempada que tivesse impedido os massacres do Ruanda e que ainda estávamos a tempo de impedir uma tragédia maior. Passados estes anos os massacres no Darfur prosseguem, bem como os dramas dos refugiados. Países como a Líbia e a China protegem o governo de Cartum por interesses de ordem económica e política.
Jacques Gaillot denunciava aqui recentemente que há interesses em jogo: a exploração do petróleo e que a China é o principal fornecedor de armas e absorve dois terços da sua exploração de petróleo. A China tem-se oposto às sanções do Conselho de Segurança das Nações Unidas contra o Sudão.
A União Europeia e os Estados Unidos também não têm feito o que é necessário para pôr termo ao genocídio de Darfur.
É certo que são de saudar as diligências feitas pelo presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, para tentar convencer o presidente do Sudão a aceitar o envio de uma força das Nações Unidas para o Darfur sob pena de se isolar da comunidade internacional. Sabemos que as Nações Unidas aprovaram o envio de uma força de 17 mil soldados e de 3 mil polícias, mas que o seu envio está bloqueado pela recusa do governo de Cartum em aceitá-lo. O presidente sudanês Omar al-Bachir apenas aceita o reforço da força da União Africana que já se encontra na região.
A delegação da União Europeia abandonou o Sudão sem ter visitado os campos dos refugiados no Darfur por alegadas razões de segurança. Esta situação não pode continuar, porque há muitos homens e mulheres em risco de vida e sujeitas a diversos formas de humilhação.
A nível da opinião pública outras questões têm polarizado a atenção. A comunicação social tem dificuldade em nos dar informação actualizada em virtude das restrições que o governo de Cartum coloca à deslocação de jornalistas.
Por outro lado a opinião pública vive apaixonadamente a informação durante um período curto, as tragédias que se prolongam tendem a ser secundarizadas ou esquecidas.
É necessário mobilizar os cidadãos para pressionar os Estados a encontrar uma solução política. Como afirma Jacques Gaillot: «é necessário forçar Cartum a negociar, para parar com o massacre e proteger as populações: É possível e é urgente».
Para quem pretenda ter uma ideia mais concreta do que tem sido o genocídio em Darfur é possível ver aqui as imagens das atrocidades cometidas, graças à colaboração do Google Earth com o Museu Memorial do Holocausto em Washington.
Nestas imagens podemos ver, utilizando o sistema de mapas por satélite Google Earth, mais de 1600 aldeias destruídas, escolas, mesquitas, mais de 100 mil casas. Pode verificar-se que o genocídio é uma realidade. Desde 2003 estima-se que mais de 200 mil pessoas morreram no Darfur.
É necessário fazermos o que estiver ao nosso alcance para despertar, através da Rede, a pressão dos cidadãos para que seja alcançada uma solução política que ponha termo ao sofrimento das populações atingidas.
Como António Guterres tem alertado na sua qualidade de Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados «O conflito em Darfur é o factor de crise mais importante no continente e no mundo».
Darfur é sinónimo já de milhares de vítimas. É sinónimo do sofrimento evitável e intolerável de milhares de seres humanos. Além disso uma situação que pode alastrar e levar a conflitos mais alargados na região. Não esqueçamos que o Sudão tem fronteiras com países tão diferentes como a Líbia, o Egipto, o Quénia, a República Centro-Africana, a República Democrática do Congo, o Uganda, a Eritreia, a Etiópia e o Chade.
A situação de conflito que se vive em Darfur tem que ser gerida com determinação e sem a procurar instrumentalizar ao serviço de outras finalidades políticas.
São razões suficientes para que a opinião pública e os cidadãos se mantenham informados e exijam que as instituições internacionais assegurem o fim do genocídio, a paz e o respeito pelos direitos humanos em Darfur.
domingo, maio 13, 2007
PORTUGAL - IDENTIDADE E DIFERENÇA
É necessário pensar Portugal, o seu passado e a sua identidade, para melhor perspectivar o presente e as opções em aberto para o futuro.
Guilherme d’Oliveira Martins em “Portugal. Identidade e Diferença”, editado pela Gradiva, dá-nos algumas fichas de leitura de momentos marcantes da história e da cultura portuguesas para despertar a nossa própria reflexão.
Fá-lo com muita clareza, mas simultaneamente por aproximações sucessivas, como quem desenha uma tapeçaria, como disse na apresentação do livro, o escritor e diplomata, Marcello Duarte Matias, que no posfácio sublinha e prolonga as linhas de força deste livro.
Como refere Guilherme d’Oliveira Martins na nota inicial: «A cultura só se enriquece se for aberta e cosmopolita, se for ponto de encontro e encruzilhada, a partir das várias culturas da língua portuguesa, mas também lugar de intercâmbio e exigências que envolva a cooperação além fronteiras e um diálogo activo com a educação e a ciência…».
Não é possível compreender Portugal hoje sem conhecer e dialogar com os pensadores e os criadores das outras culturas de língua portuguesa. Guilherme d’Oliveira Martins revela essa atenção. Escritores e pensadores brasileiros como Manuel Bandeira, Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, João Guimarães Rosa, Sérgio Buarque de Holanda, mas também José Sarney, Alberto Costa e Silva, Antonio Cândido de Melo Sousa e Celso Lafer estão presentes nestas páginas. Estão também presentes escritores e ensaístas de outros países de língua portuguesa como, por exemplo: Baltazar Lopes, Germano de Almeida, Vera Duarte, Corsino Fortes, Dina Salústio, José Vicente Lopes, de Cabo Verde; Mário de Andrade e Luandino Vieira, de Angola; Nazaré Ceita e Alda do Espírito Santo, de São Tomé e Príncipe; Mia Couto, de Moçambique. Este é um dos méritos deste livro, em confronto com outras reflexões sobre Portugal muito provincianas, por ignorância da riqueza das várias culturas de língua portuguesa.
Guilherme d’Oliveira Martins faz uma abordagem de diferentes pistas de identificação de Portugal, valorizando elementos como a geografia, a terra e a língua, a memória e o património e tendo em conta os trabalhos de Orlando Ribeiro e José Mattoso, mas também outros contributos de Eduardo Lourenço, Manuel Villaverde Cabral, ou as teses sobre Portugal de Boaventura de Sousa Santos.
Não é possível resumir todo o conjunto de linhas de abordagem de Guilherme d’Oliveira Martins, que mais do que uma resposta nos dão elementos para reflectir. Há um lado pedagógico neste livro a que não é alheio o facto de muitas páginas terem sido escritas no contexto do ensino da História da Cultura Portuguesa.
Guilherme d’Oliveira Martins é conhecido pelo carácter enciclopédico da sua cultura, mais uma vez patente neste livro, que não reúne toda a vasta colaboração que tem vindo a publicar, designadamente, no “JL, Jornal de Letras, de Artes e de Ideias” que refere justamente como um «instrumento único para a difusão da cultura portuguesa e das culturas de língua portuguesa no mundo».
Seria por isso muito aliciante conhecer a opinião de Guilherme d’Oliveira Martins sobre o contributo para pensar a identidade portuguesa das obras de Manuel Alegre e de Nuno de Bragança.
Guilherme d’Oliveira Martins não ignora a necessidade de pensar a identidade portuguesa no contexto da integração europeia. Como refere «no campo europeísta surge muitas vezes a tentação de dar ênfase a uma “identidade europeia”, que sucederia às antigas identidades nacionais», mas adverte: «O Estado-nação já não é o alfa e o ómega da vida política e social contemporânea, mas tem um lugar insubstituível». E acrescenta: «As identidades nacionais coexistem e completam-se e só se enriquecem abrindo-se num contexto cosmopolita e universalista».
A permanente redefinição da identidade portuguesa é condição e consequência da nossa vitalidade cultural e cívica.
Marcello Duarte Matias refere no posfácio, que importa preservar a identidade «sabendo…integrar de forma harmoniosa as diferenças, nomeadamente, o pluralismo étnico, pois o intercâmbio é a primeira dimensão da vida internacional». É nesta linha que se situa este livro.
Espero que este livro se torne uma referência e que seja lido, estudado, discutido, e reescrito, pelos mais jovens escritores, ensaístas, pensadores e criadores culturais de todos os países de língua portuguesa.
Guilherme d’Oliveira Martins em “Portugal. Identidade e Diferença”, editado pela Gradiva, dá-nos algumas fichas de leitura de momentos marcantes da história e da cultura portuguesas para despertar a nossa própria reflexão.
Fá-lo com muita clareza, mas simultaneamente por aproximações sucessivas, como quem desenha uma tapeçaria, como disse na apresentação do livro, o escritor e diplomata, Marcello Duarte Matias, que no posfácio sublinha e prolonga as linhas de força deste livro.
Como refere Guilherme d’Oliveira Martins na nota inicial: «A cultura só se enriquece se for aberta e cosmopolita, se for ponto de encontro e encruzilhada, a partir das várias culturas da língua portuguesa, mas também lugar de intercâmbio e exigências que envolva a cooperação além fronteiras e um diálogo activo com a educação e a ciência…».
Não é possível compreender Portugal hoje sem conhecer e dialogar com os pensadores e os criadores das outras culturas de língua portuguesa. Guilherme d’Oliveira Martins revela essa atenção. Escritores e pensadores brasileiros como Manuel Bandeira, Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, João Guimarães Rosa, Sérgio Buarque de Holanda, mas também José Sarney, Alberto Costa e Silva, Antonio Cândido de Melo Sousa e Celso Lafer estão presentes nestas páginas. Estão também presentes escritores e ensaístas de outros países de língua portuguesa como, por exemplo: Baltazar Lopes, Germano de Almeida, Vera Duarte, Corsino Fortes, Dina Salústio, José Vicente Lopes, de Cabo Verde; Mário de Andrade e Luandino Vieira, de Angola; Nazaré Ceita e Alda do Espírito Santo, de São Tomé e Príncipe; Mia Couto, de Moçambique. Este é um dos méritos deste livro, em confronto com outras reflexões sobre Portugal muito provincianas, por ignorância da riqueza das várias culturas de língua portuguesa.
Guilherme d’Oliveira Martins faz uma abordagem de diferentes pistas de identificação de Portugal, valorizando elementos como a geografia, a terra e a língua, a memória e o património e tendo em conta os trabalhos de Orlando Ribeiro e José Mattoso, mas também outros contributos de Eduardo Lourenço, Manuel Villaverde Cabral, ou as teses sobre Portugal de Boaventura de Sousa Santos.
Não é possível resumir todo o conjunto de linhas de abordagem de Guilherme d’Oliveira Martins, que mais do que uma resposta nos dão elementos para reflectir. Há um lado pedagógico neste livro a que não é alheio o facto de muitas páginas terem sido escritas no contexto do ensino da História da Cultura Portuguesa.
Guilherme d’Oliveira Martins é conhecido pelo carácter enciclopédico da sua cultura, mais uma vez patente neste livro, que não reúne toda a vasta colaboração que tem vindo a publicar, designadamente, no “JL, Jornal de Letras, de Artes e de Ideias” que refere justamente como um «instrumento único para a difusão da cultura portuguesa e das culturas de língua portuguesa no mundo».
Seria por isso muito aliciante conhecer a opinião de Guilherme d’Oliveira Martins sobre o contributo para pensar a identidade portuguesa das obras de Manuel Alegre e de Nuno de Bragança.
Guilherme d’Oliveira Martins não ignora a necessidade de pensar a identidade portuguesa no contexto da integração europeia. Como refere «no campo europeísta surge muitas vezes a tentação de dar ênfase a uma “identidade europeia”, que sucederia às antigas identidades nacionais», mas adverte: «O Estado-nação já não é o alfa e o ómega da vida política e social contemporânea, mas tem um lugar insubstituível». E acrescenta: «As identidades nacionais coexistem e completam-se e só se enriquecem abrindo-se num contexto cosmopolita e universalista».
A permanente redefinição da identidade portuguesa é condição e consequência da nossa vitalidade cultural e cívica.
Marcello Duarte Matias refere no posfácio, que importa preservar a identidade «sabendo…integrar de forma harmoniosa as diferenças, nomeadamente, o pluralismo étnico, pois o intercâmbio é a primeira dimensão da vida internacional». É nesta linha que se situa este livro.
Espero que este livro se torne uma referência e que seja lido, estudado, discutido, e reescrito, pelos mais jovens escritores, ensaístas, pensadores e criadores culturais de todos os países de língua portuguesa.
domingo, maio 06, 2007
MANUEL ALEGRE - NAUS PARA NOVAS VIAGENS
Manuel Alegre lançou esta semana um belíssimo livro de poesia intitulado “Doze Naus”
A escritora, professora e ensaísta Yvette Centeno apresentou-o de uma forma clara e precisa, como poderão constatar todos os que lerem o livro e as suas palavras, aqui.
A poesia é, contudo, vida, alimenta os nossos sonhos, anima as nossas esperanças ajuda-nos a ver mais fundo e mais longe e por isso é necessária ao nosso quotidiano. Como mero leitor, quero deixar estas breves notas, despretensiosas, que apenas pretendem continuar a conversar sobre este livro.
O livro precisa de ser mastigado devagar para que possamos ser sensíveis a todas as dimensões para que nos convoca.
As palavras abrem-nos diferentes horizontes, mas têm sempre a ver com a disponibilidade para novas viagens e novas procuras, uma inquietação pessoal e uma preocupação com Portugal.
Os poemas constroem-se com palavras como mar, vento, correntes, viagens, navegar, viajar, leme, poente e levante, mas também quartos, casas, ameixoeira, jardim, ou de outras palavras, como caçador, caça de salto, de batida, de largada, de espera, pássaro, perdiz, tiro, narcejas, marrequinhas, tarambolas, abibes, patos reais, arrozais, torcazes, tordos, olivais, aves de arribação, terras altas, rumor, rios e espuma.
Estes poemas falam-nos da procura do sentido da vida, mesmo quando usam a metáfora da caça. Lembrei-me que nos poemas inesquecíveis de “Senhora das Tempestades”, Manuel Alegre tinha utilizado com mestria a metáfora do pescador e da pesca.
No poema “O Caçador” retive: «Ouvi o grito da narceja ao levantar/mas era o bater da ilusão lírica/era o tempo a fugir/ou talvez Deus o sentido o sem sentido». Ou quando refere o pai (Francisco Duarte): «Havia nele algo mais que pontaria/também ele buscava o impossível/seu tiro era outra forma de poesia».
Os amigos e seu pai estão também muito presentes nos seus poemas. São poemas que doem, particularmente, para quem os conheceu.
“Um Adeus” para José Luís Nunes tocou-me porque usou as palavras exactas para evocar o homem verdadeiramente livre que ele foi, um homem espiritualmente inquieto. Transcrevo os últimos versos: «Oxalá possas ouvir o Tanhauser/e S. Pedro esteja de fraque à tua espera/com anjos e guerreiros e bandeiras».
“Contracanto de Babilónia” e “Ontem não te vi em Babilónia” (lendo António Lobo Antunes) continuam um diálogo permanente com algumas inquietações que já habitavam Camões. O diálogo com a melhor poesia e cultura, portuguesa e universal. é uma das chaves para ler estes poemas. Para além dos escritores já referidos estão presentes entre outros: Pessoa, Dante, Rilke e Kafka.
O amor à Pátria, que em Manuel Alegre, na senda de Almeida Garrett e Alexandre Herculano, sempre se identificou com o amor à liberdade, está subjacente a estes poemas.
Desde o poema “À sombra das árvores milenares”, que evoca «a última viagem de Portugal», a outros poemas, perpassa a inquietação com a falta de imaginação social e política para as necessárias novas viagens de Portugal, «País de muito mar/e pouca viagem», situação que o poeta pretende mudar, dizendo no poema “Hora do mar”: «Hora de ninguém/fechar os olhos e embarcar/Ouvir a voz que vem/ do mar».
Que Manuel Alegre continue a dar-nos versos como os deste livro e a desafiar-nos para novas viagens, são os meus votos.
A escritora, professora e ensaísta Yvette Centeno apresentou-o de uma forma clara e precisa, como poderão constatar todos os que lerem o livro e as suas palavras, aqui.
A poesia é, contudo, vida, alimenta os nossos sonhos, anima as nossas esperanças ajuda-nos a ver mais fundo e mais longe e por isso é necessária ao nosso quotidiano. Como mero leitor, quero deixar estas breves notas, despretensiosas, que apenas pretendem continuar a conversar sobre este livro.
O livro precisa de ser mastigado devagar para que possamos ser sensíveis a todas as dimensões para que nos convoca.
As palavras abrem-nos diferentes horizontes, mas têm sempre a ver com a disponibilidade para novas viagens e novas procuras, uma inquietação pessoal e uma preocupação com Portugal.
Os poemas constroem-se com palavras como mar, vento, correntes, viagens, navegar, viajar, leme, poente e levante, mas também quartos, casas, ameixoeira, jardim, ou de outras palavras, como caçador, caça de salto, de batida, de largada, de espera, pássaro, perdiz, tiro, narcejas, marrequinhas, tarambolas, abibes, patos reais, arrozais, torcazes, tordos, olivais, aves de arribação, terras altas, rumor, rios e espuma.
Estes poemas falam-nos da procura do sentido da vida, mesmo quando usam a metáfora da caça. Lembrei-me que nos poemas inesquecíveis de “Senhora das Tempestades”, Manuel Alegre tinha utilizado com mestria a metáfora do pescador e da pesca.
No poema “O Caçador” retive: «Ouvi o grito da narceja ao levantar/mas era o bater da ilusão lírica/era o tempo a fugir/ou talvez Deus o sentido o sem sentido». Ou quando refere o pai (Francisco Duarte): «Havia nele algo mais que pontaria/também ele buscava o impossível/seu tiro era outra forma de poesia».
Os amigos e seu pai estão também muito presentes nos seus poemas. São poemas que doem, particularmente, para quem os conheceu.
“Um Adeus” para José Luís Nunes tocou-me porque usou as palavras exactas para evocar o homem verdadeiramente livre que ele foi, um homem espiritualmente inquieto. Transcrevo os últimos versos: «Oxalá possas ouvir o Tanhauser/e S. Pedro esteja de fraque à tua espera/com anjos e guerreiros e bandeiras».
“Contracanto de Babilónia” e “Ontem não te vi em Babilónia” (lendo António Lobo Antunes) continuam um diálogo permanente com algumas inquietações que já habitavam Camões. O diálogo com a melhor poesia e cultura, portuguesa e universal. é uma das chaves para ler estes poemas. Para além dos escritores já referidos estão presentes entre outros: Pessoa, Dante, Rilke e Kafka.
O amor à Pátria, que em Manuel Alegre, na senda de Almeida Garrett e Alexandre Herculano, sempre se identificou com o amor à liberdade, está subjacente a estes poemas.
Desde o poema “À sombra das árvores milenares”, que evoca «a última viagem de Portugal», a outros poemas, perpassa a inquietação com a falta de imaginação social e política para as necessárias novas viagens de Portugal, «País de muito mar/e pouca viagem», situação que o poeta pretende mudar, dizendo no poema “Hora do mar”: «Hora de ninguém/fechar os olhos e embarcar/Ouvir a voz que vem/ do mar».
Que Manuel Alegre continue a dar-nos versos como os deste livro e a desafiar-nos para novas viagens, são os meus votos.
domingo, abril 29, 2007
JORGE SAMPAIO E A ALIANÇA DAS CIVILIZAÇÕES
A designação de Jorge Sampaio como Alto Representante das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações pelo Secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, é uma boa notícia porque representa um empenhamento reforçado das Nações Unidas nesta área e porque o escolhido é uma personalidade competente para desempenhar estas funções, como se apressaram a sublinhar os governos de Espanha e da Turquia.
Estes dois países que tiveram um papel pioneiro na definição dos objectivos na definição dos objectivos da Aliança das Civilizações, que foi apadrinhada posteriormente pelo anterior Secretário-Geral das Nações Unidas, Kofi Annan, receberam com satisfação esta designação
Não deixa de ser interessante confrontar a escolha de um português com o discurso de Kofi Annan proferido em Fevereiro de 2007, em Istambul, no qual a propósito da Aliança das Civilizações referiu, designadamente, que: «A fusão das diferenças, sejam de opinião, de cultura, de credo ou de modo de vida, foi sempre o motor do progresso humano. Na época em que a Europa atravessava a idade das trevas, a Península Ibérica construiu o seu progresso sobre a interacção entre as tradições muçulmanas, cristãs e judaicas. Mais tarde o Império Otomano prosperaria graças, sem dúvida, ao seu exército, mas também porque, neste império de ideias, a arte e as técnicas muçulmanas foram enriquecidas pelas contribuições judaicas e cristãs».
A escolha do antigo presidente da República portuguesa, que sempre defendeu a adesão da Turquia à União Europeia representa uma escolha de uma personalidade com um perfil adequado para o desempenho das funções que lhe foram cometidas.
Jorge Sampaio considerou que este convite é o “reconhecimento do papel histórico que Portugal tem vindo a assumir”.
É justo sublinhá-lo e valerá a pena ter presente que em Portugal, católicos e outros cristãos, muçulmanos, sunitas e ismailitas, judeus, hindus, baha’is e budistas têm desenvolvido um saudável diálogo inter-religioso, assente no respeito pela dignidade e liberdade de todos os seres humanos.
A Aliança das Civilizações, não suscitou ainda o debate alargado que a sua importância estratégica justifica.
A Aliança das Civilizações não se reduz, ao diálogo inter-religioso. O que distingue um muçulmano saudita de um muçulmano turco ou um cristão português de um cristão sírio ou iraquiano, não é do domínio do religioso, mas sim do histórico, do político e do cultural. É necessário por isso alargar o debate a um leque mais alargado de protagonistas.
Manuel Alegre no seu Contrato Presidencial defendeu que: «Portugal deveria fazer também seu, o programa de aliança de civilizações no seguimento do diálogo de civilizações preconizado pela UNESCO. Temos de tornar claro que não interpretamos o extremismo religioso como fazendo parte da cultura islâmica, com a qual temos laços de proximidade que devemos aprofundar».
É uma posição de grande lucidez cultural e política, que aponta para o que devemos fazer a nível nacional. Combater as estratégias assentes na tese do “choque de civilizações” de Samuel Huntington, não é da exclusiva competência, nem da exclusiva responsabilidade dos que têm estado empenhados no diálogo inter-religioso.
Jorge Sampaio ao assumir esta nova tarefa, com a determinação com que exerce sempre as funções que assume, como o demonstrou recentemente como emissário especial das Nações Unidas para a Luta contra a Tuberculose, está confrontado com um grande desafio. Está quase tudo por fazer. Existe um Relatório elaborado por um conjunto de personalidades de alto nível para servir de orientação à sua acção, este sítio na Rede, e será por isso necessário utilizar toda a sua competência, capacidade de trabalho, inteligência e prestígio para dar um conteúdo efectivo às suas novas funções, de forma a não desiludir a esperança que a sua nomeação a suscitou a nível internacional.
É importante que o nosso Ministério dos Negócios Estrangeiros providencie para que o relatório esteja acessível em português e não apenas em árabe, chinês, francês, russo, espanhol e turco, como até agora.
Quando o governo português considera, e muito bem, que esta nomeação contribui para o prestígio de Portugal, há que tirar desse facto as devidas consequências e criar condições para que seja efectivo e visível o nosso contributo para a Aliança das Civilizações.
Estes dois países que tiveram um papel pioneiro na definição dos objectivos na definição dos objectivos da Aliança das Civilizações, que foi apadrinhada posteriormente pelo anterior Secretário-Geral das Nações Unidas, Kofi Annan, receberam com satisfação esta designação
Não deixa de ser interessante confrontar a escolha de um português com o discurso de Kofi Annan proferido em Fevereiro de 2007, em Istambul, no qual a propósito da Aliança das Civilizações referiu, designadamente, que: «A fusão das diferenças, sejam de opinião, de cultura, de credo ou de modo de vida, foi sempre o motor do progresso humano. Na época em que a Europa atravessava a idade das trevas, a Península Ibérica construiu o seu progresso sobre a interacção entre as tradições muçulmanas, cristãs e judaicas. Mais tarde o Império Otomano prosperaria graças, sem dúvida, ao seu exército, mas também porque, neste império de ideias, a arte e as técnicas muçulmanas foram enriquecidas pelas contribuições judaicas e cristãs».
A escolha do antigo presidente da República portuguesa, que sempre defendeu a adesão da Turquia à União Europeia representa uma escolha de uma personalidade com um perfil adequado para o desempenho das funções que lhe foram cometidas.
Jorge Sampaio considerou que este convite é o “reconhecimento do papel histórico que Portugal tem vindo a assumir”.
É justo sublinhá-lo e valerá a pena ter presente que em Portugal, católicos e outros cristãos, muçulmanos, sunitas e ismailitas, judeus, hindus, baha’is e budistas têm desenvolvido um saudável diálogo inter-religioso, assente no respeito pela dignidade e liberdade de todos os seres humanos.
A Aliança das Civilizações, não suscitou ainda o debate alargado que a sua importância estratégica justifica.
A Aliança das Civilizações não se reduz, ao diálogo inter-religioso. O que distingue um muçulmano saudita de um muçulmano turco ou um cristão português de um cristão sírio ou iraquiano, não é do domínio do religioso, mas sim do histórico, do político e do cultural. É necessário por isso alargar o debate a um leque mais alargado de protagonistas.
Manuel Alegre no seu Contrato Presidencial defendeu que: «Portugal deveria fazer também seu, o programa de aliança de civilizações no seguimento do diálogo de civilizações preconizado pela UNESCO. Temos de tornar claro que não interpretamos o extremismo religioso como fazendo parte da cultura islâmica, com a qual temos laços de proximidade que devemos aprofundar».
É uma posição de grande lucidez cultural e política, que aponta para o que devemos fazer a nível nacional. Combater as estratégias assentes na tese do “choque de civilizações” de Samuel Huntington, não é da exclusiva competência, nem da exclusiva responsabilidade dos que têm estado empenhados no diálogo inter-religioso.
Jorge Sampaio ao assumir esta nova tarefa, com a determinação com que exerce sempre as funções que assume, como o demonstrou recentemente como emissário especial das Nações Unidas para a Luta contra a Tuberculose, está confrontado com um grande desafio. Está quase tudo por fazer. Existe um Relatório elaborado por um conjunto de personalidades de alto nível para servir de orientação à sua acção, este sítio na Rede, e será por isso necessário utilizar toda a sua competência, capacidade de trabalho, inteligência e prestígio para dar um conteúdo efectivo às suas novas funções, de forma a não desiludir a esperança que a sua nomeação a suscitou a nível internacional.
É importante que o nosso Ministério dos Negócios Estrangeiros providencie para que o relatório esteja acessível em português e não apenas em árabe, chinês, francês, russo, espanhol e turco, como até agora.
Quando o governo português considera, e muito bem, que esta nomeação contribui para o prestígio de Portugal, há que tirar desse facto as devidas consequências e criar condições para que seja efectivo e visível o nosso contributo para a Aliança das Civilizações.
domingo, abril 22, 2007
POR UMA SOCIEDADE SEGURA E LIVRE DE ARMAS
O trágico assassinato de trinta e duas pessoas, entre jovens estudantes e professores, na Universidade Técnica de Virgínia, por parte de um jovem estudante que se suicidou de seguida, vieram tornar mais actual a necessidade de assegurar a existência de sociedades seguras e livres de armas.
A facilidade com que uma pessoa, com manifestos problemas psíquicos, que já tinha sido sujeito a tratamento psiquiátrico, pode adquirir facilmente armas e munições de forma a levar a cabo um massacre vai reavivar o debate sobre esta questão nos Estados Unidos. Já começou a ser avançado o argumento, para a atenuar o questionamento, que o trágico acontecimento suscita, de que a lei federal americana impedia a compra de armas por uma pessoa com os antecedentes de doença psíquica do estudante que cometeu o crime É, contudo, inquestionável que teve facilidade de adquirir as armas e munições que utilizou.
Este acontecimento fez-nos recordar o massacre na escola de Columbine em 1999 durante o qual dois alunos mataram doze estudantes e um professor, antes de se suicidarem.
Nos Estados Unidos, ao contrário do que acontece na Europa ocidental, impera a ideia de que a segurança é assegurada pela posse individual de armas pelos cidadãos. Não é essa a cultura europeia, na qual a segurança assenta na existência de forças de segurança que actuam no quadro de Estados de direito e a quem está atribuída a responsabilidade da segurança dos cidadãos.
Portugal tem desde o ano passado uma nova e boa Lei das Armas (Lei n.º5/2006, de 23 de Fevereiro) que desincentiva os cidadãos da posse individual de armas tornando mais exigente os requisitos de posse legal de armas e penalizando fortemente a posse e usos ilegais.
A existência da lei é um instrumento necessário, mas não suficiente, para assegurar a segurança dos cidadãos. Existe ainda um excessivo número de armas na posse ilegal dos cidadãos.
Alguns factos recentes indiciam que assim é. O recente uso de armas,nomeadamente, num banco em Gaia e no assalto a uma estação de serviço em Benavente durante o qual foi assassinada uma pessoa, são dois factos notórios.
É também significativo que tenham sido aprendidas a grupos de extrema-direita esta semana um grande número de armas, incluindo pistolas, revólveres, carabinas, facas, sabres, punhais, soqueiras e matracas. Segundo o jornal “Público”, de 21 de Abril de 2007, o grosso do armamento estava na posse de um indivíduo já referenciado noutro tipo de crimes e que “há cerca de um ano, foi constituído arguido na sequência de uma grande operação desencadeada pela PSP e que culminou com a apreensão de um milhar de armas, muitas delas de guerra”.
Estes acontecimentos mais recentes tornam ainda mais premente o que se afirma na conclusão do comunicado do Observatório sobre a Produção, o Comércio e a Proliferação de Armas Ligeiras da Comissão Nacional Justiça e Paz, da Igreja Católica, a propósito dos assassinatos na Universidade de Virgínia:
“…A sociedade civil tem a obrigação de continuar atenta e chamar a atenção do Estado para o cumprimento que lhe cabe de assegurar a tranquilidade dos cidadãos.
A actuação do Estado deverá também procurar as causas profundas da violência que ainda se manifesta e intervir com coragem e de forma articulada nos diferentes domínios sociais que necessitam ainda de correcção: a eliminação da pobreza e a luta contra a exclusão social, a disponibilização de habitação digna, e a criação de condições que introduzam melhorias no mercado do emprego.
E no concerto das Nações, Portugal deverá pugnar por uma atitude conjunta mais activa e abrangente na luta contra a produção e comércio ilícitos de armas ligeiras, procurando contrariar os países mais inclinados a defender a desregulação destas actividades a nível mundial”.
Temos o dever de defender uma sociedade segura e livre de armas e exigirmos que o Estado assegure a tranquilidade dos cidadãos.
A facilidade com que uma pessoa, com manifestos problemas psíquicos, que já tinha sido sujeito a tratamento psiquiátrico, pode adquirir facilmente armas e munições de forma a levar a cabo um massacre vai reavivar o debate sobre esta questão nos Estados Unidos. Já começou a ser avançado o argumento, para a atenuar o questionamento, que o trágico acontecimento suscita, de que a lei federal americana impedia a compra de armas por uma pessoa com os antecedentes de doença psíquica do estudante que cometeu o crime É, contudo, inquestionável que teve facilidade de adquirir as armas e munições que utilizou.
Este acontecimento fez-nos recordar o massacre na escola de Columbine em 1999 durante o qual dois alunos mataram doze estudantes e um professor, antes de se suicidarem.
Nos Estados Unidos, ao contrário do que acontece na Europa ocidental, impera a ideia de que a segurança é assegurada pela posse individual de armas pelos cidadãos. Não é essa a cultura europeia, na qual a segurança assenta na existência de forças de segurança que actuam no quadro de Estados de direito e a quem está atribuída a responsabilidade da segurança dos cidadãos.
Portugal tem desde o ano passado uma nova e boa Lei das Armas (Lei n.º5/2006, de 23 de Fevereiro) que desincentiva os cidadãos da posse individual de armas tornando mais exigente os requisitos de posse legal de armas e penalizando fortemente a posse e usos ilegais.
A existência da lei é um instrumento necessário, mas não suficiente, para assegurar a segurança dos cidadãos. Existe ainda um excessivo número de armas na posse ilegal dos cidadãos.
Alguns factos recentes indiciam que assim é. O recente uso de armas,nomeadamente, num banco em Gaia e no assalto a uma estação de serviço em Benavente durante o qual foi assassinada uma pessoa, são dois factos notórios.
É também significativo que tenham sido aprendidas a grupos de extrema-direita esta semana um grande número de armas, incluindo pistolas, revólveres, carabinas, facas, sabres, punhais, soqueiras e matracas. Segundo o jornal “Público”, de 21 de Abril de 2007, o grosso do armamento estava na posse de um indivíduo já referenciado noutro tipo de crimes e que “há cerca de um ano, foi constituído arguido na sequência de uma grande operação desencadeada pela PSP e que culminou com a apreensão de um milhar de armas, muitas delas de guerra”.
Estes acontecimentos mais recentes tornam ainda mais premente o que se afirma na conclusão do comunicado do Observatório sobre a Produção, o Comércio e a Proliferação de Armas Ligeiras da Comissão Nacional Justiça e Paz, da Igreja Católica, a propósito dos assassinatos na Universidade de Virgínia:
“…A sociedade civil tem a obrigação de continuar atenta e chamar a atenção do Estado para o cumprimento que lhe cabe de assegurar a tranquilidade dos cidadãos.
A actuação do Estado deverá também procurar as causas profundas da violência que ainda se manifesta e intervir com coragem e de forma articulada nos diferentes domínios sociais que necessitam ainda de correcção: a eliminação da pobreza e a luta contra a exclusão social, a disponibilização de habitação digna, e a criação de condições que introduzam melhorias no mercado do emprego.
E no concerto das Nações, Portugal deverá pugnar por uma atitude conjunta mais activa e abrangente na luta contra a produção e comércio ilícitos de armas ligeiras, procurando contrariar os países mais inclinados a defender a desregulação destas actividades a nível mundial”.
Temos o dever de defender uma sociedade segura e livre de armas e exigirmos que o Estado assegure a tranquilidade dos cidadãos.
domingo, abril 15, 2007
ATENÇÃO AO ESSENCIAL!
Torna-se necessário em cada momento escolher entre o essencial e o acessório e tentar perceber por que é que o acessório pretende ocupar o lugar do essencial. Creio também que há momentos em que não podemos ficar calados, é necessário dizer basta.
Apenas três exemplos: a polémica em torno da licenciatura de José Sócrates; a crise de agenda da direita e do centro-direita; a forma como se está a dar visibilidade injustificada e desproporcionada à extrema-direita.
Já não há paciência para as especulações em torno da licenciatura de José Sócrates. É caso para dizer com Nicolau Santos «Por favor, podemos voltar a preocupar-nos com o país?» Expresso, 14 de Abril de 2007.
A maioria dos cidadãos já percebeu que o que está em causa é uma tentativa de promover o seu linchamento moral. Perante a incapacidade manifesta de alguns líderes políticos de o defrontarem de forma aberta e frontal, pretendem pôr em causa o seu carácter. Aliás, esta é a terceira tentativa de linchamento moral desde que se candidatou pela primeira vez a primeiro-ministro.
Tenho manifestado abertamente discordâncias políticas em diversos momentos com José Sócrates, muitas das quais se mantêm, mas quero manifestar repúdio perante campanhas de linchamento moral.
Esta campanha tem muito a ver com a incapacidade de alguns actuais líderes da direita e do centro-direita de elaborarem uma agenda política consequente e alternativa para o país.
Pensar Portugal no contexto Europeu e mundial permitirá decerto a formulação de políticas alternativas à luz dos valores conservadores e liberais, que são perfilhados pela direita e pelo centro-direita. Não é, contudo, essa a preocupação da actual liderança do principal partido de oposição de centro-direita. Para lá da mudança radical de posição sobre a OTA, que passou de opção apoiada quando estava no governo para solução combatida enquanto oposição, e da proposta de privatizar a RTP, a sua intervenção política tem-se centrado na tentativa de denegrir a personalidade moral de José Sócrates. É óbvio que no PSD há gente com horizontes mais largos com sentido de Estado e do interesse nacional, mas não são esses que lideram actualmente este partido.
É caso para perguntar como Nicolau Santos no artigo, já citado: «O que se segue? Exige-se a demissão do primeiro-ministro e a convocação de eleições?».
Outra questão lamentável é a forma como alguns democratas e alguns órgãos da comunicação social têm vindo a dar visibilidade desproporcionada a um partido de extrema-direita.
Não deixa de ser publicidade imerecida que um jornal como o “Expresso” dê grande destaque a um encontro em Lisboa de organizações de extrema-direita racista e xenófoba e não dedique uma linha ao próximo congresso mundial da Federação Internacional das Ligas dos Direitos do Homem (FIDH), representada em Portugal pela CIVITAS, que irá tornar Lisboa, a partir do próximo dia 19 de Abril, a Capital Mundial dos Direitos Humanos.
Seria também interessante que para além do cartaz do referido partido não esquecessem outras formas de intervenção como, por exemplo, tempos de antena e presença na Rede, que permitem ver com clareza de onde vêm e para onde vão. No meio de tudo isto é de saudar o facto de várias personalidades de direita, e não apenas de esquerda, se terem claramente demarcado das posições racistas e xenófobas deste partido.
Pena é que outros intelectuais que se pretendem mais ao centro, como Pacheco Pereira, passem mais tempo a criticar a forma como o Gato Fedorento têm agido neste caso, do que a desmontar a forma como este partido tem actuado e as propostas que tem apresentado.
Estes factos traduzem a crise de agenda estratégica da direita e do centro-direita. Quando não existem grandes desígnios nacionais acaba-se em campanhas sobre questões acessórias, no diz-se que disse.
Portugal vai dentro de dois meses assumir a Presidência da União Europeia, está em preparação a II Cimeira UE-África, a que já aqui nos referimos, e em discussão o futuro do Tratado Constitucional.
Temos de enfrentar grandes desafios para continuar a vencer de forma sustentada o défice orçamental e promover o desenvolvimento do país.
Valerá a pena estarmos atentos a estas questões, porque irão marcar o nosso futuro colectivo.
Apetece repetir com Nicolau Santos: «Por favor, podemos voltar a preocupar-nos com o país?».
Apenas três exemplos: a polémica em torno da licenciatura de José Sócrates; a crise de agenda da direita e do centro-direita; a forma como se está a dar visibilidade injustificada e desproporcionada à extrema-direita.
Já não há paciência para as especulações em torno da licenciatura de José Sócrates. É caso para dizer com Nicolau Santos «Por favor, podemos voltar a preocupar-nos com o país?» Expresso, 14 de Abril de 2007.
A maioria dos cidadãos já percebeu que o que está em causa é uma tentativa de promover o seu linchamento moral. Perante a incapacidade manifesta de alguns líderes políticos de o defrontarem de forma aberta e frontal, pretendem pôr em causa o seu carácter. Aliás, esta é a terceira tentativa de linchamento moral desde que se candidatou pela primeira vez a primeiro-ministro.
Tenho manifestado abertamente discordâncias políticas em diversos momentos com José Sócrates, muitas das quais se mantêm, mas quero manifestar repúdio perante campanhas de linchamento moral.
Esta campanha tem muito a ver com a incapacidade de alguns actuais líderes da direita e do centro-direita de elaborarem uma agenda política consequente e alternativa para o país.
Pensar Portugal no contexto Europeu e mundial permitirá decerto a formulação de políticas alternativas à luz dos valores conservadores e liberais, que são perfilhados pela direita e pelo centro-direita. Não é, contudo, essa a preocupação da actual liderança do principal partido de oposição de centro-direita. Para lá da mudança radical de posição sobre a OTA, que passou de opção apoiada quando estava no governo para solução combatida enquanto oposição, e da proposta de privatizar a RTP, a sua intervenção política tem-se centrado na tentativa de denegrir a personalidade moral de José Sócrates. É óbvio que no PSD há gente com horizontes mais largos com sentido de Estado e do interesse nacional, mas não são esses que lideram actualmente este partido.
É caso para perguntar como Nicolau Santos no artigo, já citado: «O que se segue? Exige-se a demissão do primeiro-ministro e a convocação de eleições?».
Outra questão lamentável é a forma como alguns democratas e alguns órgãos da comunicação social têm vindo a dar visibilidade desproporcionada a um partido de extrema-direita.
Não deixa de ser publicidade imerecida que um jornal como o “Expresso” dê grande destaque a um encontro em Lisboa de organizações de extrema-direita racista e xenófoba e não dedique uma linha ao próximo congresso mundial da Federação Internacional das Ligas dos Direitos do Homem (FIDH), representada em Portugal pela CIVITAS, que irá tornar Lisboa, a partir do próximo dia 19 de Abril, a Capital Mundial dos Direitos Humanos.
Seria também interessante que para além do cartaz do referido partido não esquecessem outras formas de intervenção como, por exemplo, tempos de antena e presença na Rede, que permitem ver com clareza de onde vêm e para onde vão. No meio de tudo isto é de saudar o facto de várias personalidades de direita, e não apenas de esquerda, se terem claramente demarcado das posições racistas e xenófobas deste partido.
Pena é que outros intelectuais que se pretendem mais ao centro, como Pacheco Pereira, passem mais tempo a criticar a forma como o Gato Fedorento têm agido neste caso, do que a desmontar a forma como este partido tem actuado e as propostas que tem apresentado.
Estes factos traduzem a crise de agenda estratégica da direita e do centro-direita. Quando não existem grandes desígnios nacionais acaba-se em campanhas sobre questões acessórias, no diz-se que disse.
Portugal vai dentro de dois meses assumir a Presidência da União Europeia, está em preparação a II Cimeira UE-África, a que já aqui nos referimos, e em discussão o futuro do Tratado Constitucional.
Temos de enfrentar grandes desafios para continuar a vencer de forma sustentada o défice orçamental e promover o desenvolvimento do país.
Valerá a pena estarmos atentos a estas questões, porque irão marcar o nosso futuro colectivo.
Apetece repetir com Nicolau Santos: «Por favor, podemos voltar a preocupar-nos com o país?».
domingo, abril 08, 2007
A PÁSCOA DE ARISTIDES DE SOUSA MENDES
Neste clima propício para reflectir sobre o que nos faz correr, numa altura em que os cristãos evocam a morte e ressurreição de Jesus Cristo, fundamento da nossa esperança, recordei-me de um homem bom, Aristides de Sousa Mendes.
Fui influenciado por estas palavras escritas por Frei Bento Domingues: «O católico Aristides de Sousa Mendes (1885-1954) soube fazer do Consulado de Bordéus, contra as ordens de Salazar, a Páscoa, a passagem de judeus e não judeus para a liberdade. Este português, que arriscou e perdeu tudo por fidelidade à sua consciência, tinha a sua raiz em Cristo e trabalhava para a Europa do futuro» (Semana Santa e “Europa mundo”, Público, 1/04/2007).
A Vigília Pascal ao evocar a criação do mundo e vários momentos da ligação de Deus com a humanidade culminando na morte e ressurreição de Cristo, tem leituras que são obrigatoriamente incluídas como é o caso da libertação do povo hebreu do cativeiro do Egipto. Nenhum cristão pode ignorar o laço que nos liga à fé do povo hebreu, testemunhada no que designamos por Antigo Testamento. Espiritualmente somos todos semitas. Este facto instaura uma ruptura radical entre qualquer cristão, conservador ou progressista, de direita, de centro ou de esquerda, em relação ao racismo e ao anti-semitismo.
Um aspecto que me toca profundamente em Aristides de Sousa Mendes é o facto de ser uma pessoa comum, com as suas qualidades e defeitos, que se viu confrontado com o dilema: obedecer a Salazar, preservando o seu estatuto de diplomata e o bem estar da sua família numerosa, deixando que milhares de pessoas perseguidas caíssem nas mãos do nazismo, ou desobedecer e arcar com as consequências. Não deve ter sido uma opção fácil, mas não há dúvida que a sua consciência cristã o obrigou a fazer o que tinha de fazer.
Os judeus não o esqueceram. Ele é o único português distinguido como “Gentio Honrado” pelo Museu Yad Vashem de Israel.
O historiador americano Douglas I. Wheeler considerou-o um herói da consciência que não teve dúvidas sobre a resposta a dar, nos dias difíceis da II Guerra Mundial e do Holocausto à interrogação bíblica: “E quem é o meu próximo?”.
A barbárie nunca está definitivamente superada e temos, por isso, de nos manter espiritual e intelectualmente vigilantes, honrando os que nos ajudam a ser melhores, nos alargam os horizontes, e não os que nos tornam as almas mais pequenas.
Acreditamos também que, como escreveu Bernard Henry Levy que «se existe na história o que foi designado como uma “banalidade do mal” (essa pura mecânica do crime, executada por agentes que se comportavam como funcionários ou “robots”) existe também uma espécie de “banalidade do bem”, essa outra tentação que a contraria ao longo das épocas e nunca acaba também ela de se exercer, que permite que por vezes se resista e faz, com que, no fundo, a partida nunca esteja totalmente perdida» (Público, 19/11/1995).
É um facto que Aristides de Sousa Mendes é conhecido de um número cada vez maior de portugueses e que José Miguel Júdice deu um contributo muito importante para o tornar presente a um grande número de portugueses, mas devemos interrogarmo-nos se temos feito tudo o que era exigível.
Em fins de 1995, num curto período em que exerci o mandato de deputado, evoquei Aristides de Sousa Mendes e o estado de degradação em que se encontrava a sua casa e chamei atenção dos diversos responsáveis para a necessidade de assegurar a sua recuperação. Constato, que passados estes anos, existe já uma Fundação com o seu nome, mas não se conhece o projecto para a utilização futura da sua casa.
Tornar a casa de Aristides de Sousa Mendes um centro que evoque o seu exemplo devia ser uma preocupação mais alargada para lá dos esforços dos membros da Fundação que tem o seu nome. Divulgar a memória da acção desenvolvida por Aristides de Sousa Mendes é um acto de pedagogia moral e cívica.
Vale a pena interrogarmo-nos sobre o que podemos fazer.
Fui influenciado por estas palavras escritas por Frei Bento Domingues: «O católico Aristides de Sousa Mendes (1885-1954) soube fazer do Consulado de Bordéus, contra as ordens de Salazar, a Páscoa, a passagem de judeus e não judeus para a liberdade. Este português, que arriscou e perdeu tudo por fidelidade à sua consciência, tinha a sua raiz em Cristo e trabalhava para a Europa do futuro» (Semana Santa e “Europa mundo”, Público, 1/04/2007).
A Vigília Pascal ao evocar a criação do mundo e vários momentos da ligação de Deus com a humanidade culminando na morte e ressurreição de Cristo, tem leituras que são obrigatoriamente incluídas como é o caso da libertação do povo hebreu do cativeiro do Egipto. Nenhum cristão pode ignorar o laço que nos liga à fé do povo hebreu, testemunhada no que designamos por Antigo Testamento. Espiritualmente somos todos semitas. Este facto instaura uma ruptura radical entre qualquer cristão, conservador ou progressista, de direita, de centro ou de esquerda, em relação ao racismo e ao anti-semitismo.
Um aspecto que me toca profundamente em Aristides de Sousa Mendes é o facto de ser uma pessoa comum, com as suas qualidades e defeitos, que se viu confrontado com o dilema: obedecer a Salazar, preservando o seu estatuto de diplomata e o bem estar da sua família numerosa, deixando que milhares de pessoas perseguidas caíssem nas mãos do nazismo, ou desobedecer e arcar com as consequências. Não deve ter sido uma opção fácil, mas não há dúvida que a sua consciência cristã o obrigou a fazer o que tinha de fazer.
Os judeus não o esqueceram. Ele é o único português distinguido como “Gentio Honrado” pelo Museu Yad Vashem de Israel.
O historiador americano Douglas I. Wheeler considerou-o um herói da consciência que não teve dúvidas sobre a resposta a dar, nos dias difíceis da II Guerra Mundial e do Holocausto à interrogação bíblica: “E quem é o meu próximo?”.
A barbárie nunca está definitivamente superada e temos, por isso, de nos manter espiritual e intelectualmente vigilantes, honrando os que nos ajudam a ser melhores, nos alargam os horizontes, e não os que nos tornam as almas mais pequenas.
Acreditamos também que, como escreveu Bernard Henry Levy que «se existe na história o que foi designado como uma “banalidade do mal” (essa pura mecânica do crime, executada por agentes que se comportavam como funcionários ou “robots”) existe também uma espécie de “banalidade do bem”, essa outra tentação que a contraria ao longo das épocas e nunca acaba também ela de se exercer, que permite que por vezes se resista e faz, com que, no fundo, a partida nunca esteja totalmente perdida» (Público, 19/11/1995).
É um facto que Aristides de Sousa Mendes é conhecido de um número cada vez maior de portugueses e que José Miguel Júdice deu um contributo muito importante para o tornar presente a um grande número de portugueses, mas devemos interrogarmo-nos se temos feito tudo o que era exigível.
Em fins de 1995, num curto período em que exerci o mandato de deputado, evoquei Aristides de Sousa Mendes e o estado de degradação em que se encontrava a sua casa e chamei atenção dos diversos responsáveis para a necessidade de assegurar a sua recuperação. Constato, que passados estes anos, existe já uma Fundação com o seu nome, mas não se conhece o projecto para a utilização futura da sua casa.
Tornar a casa de Aristides de Sousa Mendes um centro que evoque o seu exemplo devia ser uma preocupação mais alargada para lá dos esforços dos membros da Fundação que tem o seu nome. Divulgar a memória da acção desenvolvida por Aristides de Sousa Mendes é um acto de pedagogia moral e cívica.
Vale a pena interrogarmo-nos sobre o que podemos fazer.
sábado, março 31, 2007
LISBOA, CAPITAL MUNDIAL DOS DIREITOS HUMANOS


Em Abril, Lisboa vai ser a capital mundial dos direitos humanos com a realização do 36.º Congresso da Federação das Ligas de Direitos Humanos (FIDH), que em Portugal é representada pela CIVITAS, - Associação para a defesa e promoção dos direitos dos cidadãos. Durante o Congresso realizar-se-á o Fórum: ”Migrações e Direitos Humanos”, cujo programa podem encontrar aqui e que reunirá mais de trezentos peritos internacionais, entre os quais se contará a iraniana Shirin Ebadi, Prémio Nobel da Paz.João Correia, presidente da CIVITAS, acompanhado por José Rebelo, Vice-presidente da CIVITAS, de Sidiki Kaba, e de Driss El Yazami, respectivamente Presidente e Secretário-geral da FIDH., explicou esta semana, que Portugal foi escolhido pela «sensibilidade em perceber o fenómeno migratório em todas as suas dimensões».
A data do Congresso coincide com o 25 de Abril, participando os congressistas no jantar anual da Associação 25 de Abril e no tradicional desfile.
Esta associação ao 25 de Abril é também sugerida nos cartazes do Congresso que reproduzimos, através da sugestão de um cravo, e que são da autoria da Luísa Castelo dos Reis.
Shirin Ebadi evocou vários combatentes dos direitos humanos, que têm pago inclusive com a vida essa defesa como a jornalista russa, a quem dedicou a realização deste Congresso.
A realização deste Congresso foi a oportunidade escolhida, como explicou Driss El Yazami, para debater de forma «calma, serena e informada o fenómeno global das migrações». Sublinhou a propósito cinco pontos: apesar do aumento do número de imigrantes estes não ultrapassam 3% da população mundial; as migrações revelam as fracturas do mundo, já que são estimuladas pelo défice de desenvolvimento de muitos países, pelo défice demográfico de outros e pelo défice de democracia que se verifica noutros; sublinhou o papel crescente das mulheres nas migrações internacionais, as quais são já a maioria nas migrações que se dirigem aos países desenvolvidos; a importância das remessas de imigrantes que têm um valor três vezes superior à da ajuda pública ao desenvolvimento; a mundialização das migrações, as quais não são apenas sul/norte, mas também sul/sul.
Afirmou também que «todas as pessoas, mesmo em situação irregular, têm direitos. Denunciou também o endurecimento da legislação de muitos países, que tem tornado difícil a imigração legal.
Foi também defendida a necessidade de uma governança mundial das migrações e defendida a importância da ratificação da Convenção das Nações Unidas sobre a Protecção de Todos os Trabalhadores Migrantes e das suas Famílias, que apesar de já estar em vigor não foi ratificada por nenhum país desenvolvido.
Enquanto Lisboa se prepara para protagonizar um debate fundamental em termos da agenda internacional sobre direitos humanos dos imigrantes, verificou-se, a colocação e um cartaz anti-imigrantes por iniciativa de um partido racista e xenófobo.
É um gesto racista que tem de ter a resposta adequada por parte de todos os defensores dos direitos humanos. O racismo é sempre um atentado contra a humanidade no seu conjunto, porque põe em causa o laço de fraternidade que une todos os seres humanos, que são membros de uma única família humana.
Várias entidades já denunciaram, esta atitude, com clareza. Vale a pena reflectir nas palavras de Manuel Alegre proferidas na Assembleia da República, que pode ler aqui.
Tudo isto torna mais necessário o debate alargado que se irá realizar em Lisboa sobre “Migrações e Direitos Humanos”
Como foi dito na apresentação do Congresso mundial, Portugal é um país de emigração e imigração, vivendo milhões de portugueses como emigrantes em muitos países do mundo.
Lisboa vai saber merecer a honra de ser por alguns dias a capital mundial dos direitos humanos.
domingo, março 25, 2007
SARA TAVARES - UMA VOZ LIVRE
Sara Tavares é uma das mais lindas vozes femininas da música que se faz em Portugal, ao lado da de Mariza ou de Teresa Salgueiro. Recomendo aos que ainda a não ouviram cantar ao vivo que ouçam “Mi, Ma, Bô” e “Balancê”.
A sua carreira tem tido diversas vias, não tem seguido uma linha recta, mas isso não a diminui. Diria que tem ousado avançar e percorrer novos trilhos na procura de uma voz cada vez mais pessoal. Sara Tavares é uma mulher atenta e livre que procura uma relação justa com os outros, hesita, experimenta, corrige, continua a ser uma pessoa em construção.
Sara Tavares deu à “Única” do “Expresso” de 17 de Março do 2007, uma entrevista a Ana Soromenho, extremamente interessante, que é um elemento importante para conhecer melhor a forma de sentir e de pensar de muitos jovens portugueses com raízes africanas, de que irei citar alguns extractos.
Já tive oportunidade de me referir aqui “ao tropicalismo mestiço” que se manifesta a nível musical e no qual incluo Sara Tavares, que contribui para fazer de Portugal, um país plural ou aos “portugueses globais”de que nos fala Faíza Hayat. Todos estão a contribuir para tornar Portugal uma Nação mais cosmopolita.
Sara Tavares, ao falar de si com simplicidade e franqueza, deixou-nos observações pertinentes e elementos que questionam a forma como, por preguiça, se continua a pensar o lugar destas novas gerações.
Categorias como “segundas e terceiras gerações”, que ainda se usam entre nós, são manifestamente inadequadas para designar estas novas gerações.
Sara Tavares fala com esta franqueza: «…sou africana de Lisboa. …A gente anda ali com os nossos ténis Nike e o nosso computador a navegar pelo mundo, e eu, como música, quero fazer parte da minha geração. É verdade que no meu trabalho existem as raízes e essa coisa da identidade. Mas também sou uma pessoa assumidamente cosmopolita e quero olhar para a frente. A mim interessa-me fazer o “crossover”».
Acrescenta: «…uso simultaneamente o meu crioulo e o meu calão português. O que afirmo é a minha identidade mestiça.»
Sara Tavares coloca questões que se colocam aos jovens desta geração, mas também aos estudiosos e aos agentes políticos mais atentos: «Sinto que a minha geração está no limbo sem referências. Em Portugal, os miúdos africanos ou estão muito agarrados àquela coisa do hip hop ou então aquela coisa da saudade. Arriscam pouco a fazer algo de verdadeiramente nosso. Ainda se vive uma mentalidade pós-colonialista. Gostaria de devolver às pessoas da minha geração a consciência da sua identidade».
O que Sara Tavares diz é algo que tem um “sentido político” como sublinha, lucidamente, a entrevistadora, Ana Soromenho.
Diria que para que esta nova geração possa construir algo de totalmente seu, terá de ser totalmente livre, de ser pós pós-colonialista.
As gerações são construídas por pessoas com desiguais oportunidades e diferentes circunstâncias e é por isso natural que construam identidades pessoais cada vez mais diversificadas para além do que as possa aglutinar.
O facto de Sara Tavares ser cristã tem contribuído para que seja uma mulher livre. No seu processo de construção esse facto teve uma importância decisiva. Como refere: «Retomei a minha espiritualidade. Descobri que o mais importante é ter uma independência em relação ao lugar, ou à conjuntura com a qual nascemos. Seja ela regional ou cultural. Nessa altura comecei a resistir a ser chamada pelas raízes, que é uma coisa extremamente saudosista …».
A entrevista de Sara Tavares é uma entrevista corajosa, porque ela disse o que pensa, com naturalidade, e sem a preocupação de repetir palavras já ditas. Este é o primeiro gesto de cidadania, tomar a palavra e dizer o que se pensa.
Sara Tavares é, por tudo isto, não apenas uma cantora/compositora, que dará um contributo importante para a música, que se faz em Portugal, mas é também uma voz livre, uma cidadã atenta, cujas palavras merecem reflexão.
A sua carreira tem tido diversas vias, não tem seguido uma linha recta, mas isso não a diminui. Diria que tem ousado avançar e percorrer novos trilhos na procura de uma voz cada vez mais pessoal. Sara Tavares é uma mulher atenta e livre que procura uma relação justa com os outros, hesita, experimenta, corrige, continua a ser uma pessoa em construção.
Sara Tavares deu à “Única” do “Expresso” de 17 de Março do 2007, uma entrevista a Ana Soromenho, extremamente interessante, que é um elemento importante para conhecer melhor a forma de sentir e de pensar de muitos jovens portugueses com raízes africanas, de que irei citar alguns extractos.
Já tive oportunidade de me referir aqui “ao tropicalismo mestiço” que se manifesta a nível musical e no qual incluo Sara Tavares, que contribui para fazer de Portugal, um país plural ou aos “portugueses globais”de que nos fala Faíza Hayat. Todos estão a contribuir para tornar Portugal uma Nação mais cosmopolita.
Sara Tavares, ao falar de si com simplicidade e franqueza, deixou-nos observações pertinentes e elementos que questionam a forma como, por preguiça, se continua a pensar o lugar destas novas gerações.
Categorias como “segundas e terceiras gerações”, que ainda se usam entre nós, são manifestamente inadequadas para designar estas novas gerações.
Sara Tavares fala com esta franqueza: «…sou africana de Lisboa. …A gente anda ali com os nossos ténis Nike e o nosso computador a navegar pelo mundo, e eu, como música, quero fazer parte da minha geração. É verdade que no meu trabalho existem as raízes e essa coisa da identidade. Mas também sou uma pessoa assumidamente cosmopolita e quero olhar para a frente. A mim interessa-me fazer o “crossover”».
Acrescenta: «…uso simultaneamente o meu crioulo e o meu calão português. O que afirmo é a minha identidade mestiça.»
Sara Tavares coloca questões que se colocam aos jovens desta geração, mas também aos estudiosos e aos agentes políticos mais atentos: «Sinto que a minha geração está no limbo sem referências. Em Portugal, os miúdos africanos ou estão muito agarrados àquela coisa do hip hop ou então aquela coisa da saudade. Arriscam pouco a fazer algo de verdadeiramente nosso. Ainda se vive uma mentalidade pós-colonialista. Gostaria de devolver às pessoas da minha geração a consciência da sua identidade».
O que Sara Tavares diz é algo que tem um “sentido político” como sublinha, lucidamente, a entrevistadora, Ana Soromenho.
Diria que para que esta nova geração possa construir algo de totalmente seu, terá de ser totalmente livre, de ser pós pós-colonialista.
As gerações são construídas por pessoas com desiguais oportunidades e diferentes circunstâncias e é por isso natural que construam identidades pessoais cada vez mais diversificadas para além do que as possa aglutinar.
O facto de Sara Tavares ser cristã tem contribuído para que seja uma mulher livre. No seu processo de construção esse facto teve uma importância decisiva. Como refere: «Retomei a minha espiritualidade. Descobri que o mais importante é ter uma independência em relação ao lugar, ou à conjuntura com a qual nascemos. Seja ela regional ou cultural. Nessa altura comecei a resistir a ser chamada pelas raízes, que é uma coisa extremamente saudosista …».
A entrevista de Sara Tavares é uma entrevista corajosa, porque ela disse o que pensa, com naturalidade, e sem a preocupação de repetir palavras já ditas. Este é o primeiro gesto de cidadania, tomar a palavra e dizer o que se pensa.
Sara Tavares é, por tudo isto, não apenas uma cantora/compositora, que dará um contributo importante para a música, que se faz em Portugal, mas é também uma voz livre, uma cidadã atenta, cujas palavras merecem reflexão.
domingo, março 18, 2007
IMIGRAÇÃO: OPORTUNIDADE OU AMEAÇA?
Discutir a “Imigração: Oportunidade ou Ameaça?”, foi o tema de uma importante Conferência Internacional, promovida pelo Fórum Gulbenkian Imigração, realizada em 6 e 7 do corrente mês. Esta Conferência culminou o trabalho de um ano, de diversificadas iniciativas, que deram um contributo inovador e original para pensar os movimentos migratórios.
Esta reflexão não surgiu do nada, mas assentou no questionamento de práticas de regulação de fluxos migratórios e de integração social, que têm mais de uma década em Portugal e têm alimentado um diálogo fecundo entre académicos, agentes políticos, imigrantes e quadros da Administração Pública.
A composição dos “Workshops de Reflexão e Debate” e as propostas que deles saíram, que estão publicadas no livro “Imigração: Oportunidade ou Ameaça?” (Coord. António Vitorino, Ed. Princípia) traduzem bem esta realidade.
A Conferência de encerramento constituiu só por si um valor acrescentado para todo este trabalho, tendo permitido uma internacionalização de toda esta reflexão e representa um valor acrescentado, que não se deve perder e deveria ser editado em livro. O livro “Imigração: Oportunidade ou Ameaça?”ficará sem dúvida como um dos produtos mais interessantes do trabalho produzido no quadro do Fórum Gulbenkian Imigração.
O longo texto introdutório de António Vitorino, que foi o comissário do Fórum Gulbenkian de Imigração, é uma introdução aos relatórios dos worhshops e constitui um texto de referência incontornável sobre estas matérias, que há que discutir e aprofundar.
Gostaria de sublinhar a importância de que se reveste a necessidade de um conhecimento objectivo da realidade das migrações em todas as suas dimensões, não só para a construção das políticas públicas, mas também para uma relação mais verdadeira entre os agentes políticos, os médias e as opiniões públicas, sobre estas matérias. É preciso dizer, por exemplo, como o faz António Vitorino, que as remessas enviadas pelos emigrantes portugueses “ultrapassam, em cerca de cinco vezes, o volume de transferências feitas pelos imigrantes em relação aos seus países de origem” e que Portugal é “o décimo sexto país (numa lista de vinte elaborada pelo Banco Mundial) recebedor de transferências financeiras do estrangeiro enviadas pelos seus emigrantes”. Refere ainda que os fluxos migratórios não são apenas sul norte, mas sul-sul e também norte-sul.
Um aspecto que mereceria ser aprofundado é “o papel que os imigrantes em Portugal podem desempenhar na perspectiva da internacionalização das empresas portuguesas, em particular junto dos respectivos países de origem”. É importante analisar, no quadro da globalização, o papel que os imigrantes e as comunidades económicas transnacionais podem desempenhar na diversificação e densificação das relações entre os países de acolhimento e os países de origem e as oportunidades de desenvolvimento que representam.
Na impossibilidade de resumir toda a riqueza dos contributos dos workshops, gostaria de sublinhar a importância das propostas apresentadas por Fernando Luís Machado relativamente à integração dos filhos de imigrantes africanos em Portugal. São propostas muito lúcidas. Registo: “As políticas de juventude, por exemplo, deverão ser um lugar de acção privilegiado, tratando os jovens filhos de imigrantes como quaisquer outros jovens”. Um exemplo do que não se deve fazer foi efectuado no denominado programa “Escolhas-2.ª Geração” Este programa abrange jovens de meios sociais desfavorecidos em todo o país, grande parte dos quais não são de origem imigrante. Foi um erro colocá-lo sob a tutela do Alto-Comissário para a Imigração e as Minorias Étnicas. Como refere Fernando Luís Machado: “Independentemente dos méritos da intervenção, cola-se assim o rótulo de imigrante e de minoria étnica aos jovens envolvidos, o que não é boa prática politica”.
Refiro este exemplo, por duas razões: uma porque fizemos esta crítica aqui, em Junho de 2004, mas sobretudo, porque cria especificidades onde elas não fazem sentido.
As políticas de integração, como refere Fernando Luís Machado, a propósito dos filhos de imigrantes devem assentar “em critérios universais, salvo nos casos em que especificidades culturais objectivas (por exemplo, diferença linguística) justifiquem abordagens particulares”.
A imigração pode e deve ser uma oportunidade e ser percepcionada como tal, por todos os cidadãos.
Esta reflexão não surgiu do nada, mas assentou no questionamento de práticas de regulação de fluxos migratórios e de integração social, que têm mais de uma década em Portugal e têm alimentado um diálogo fecundo entre académicos, agentes políticos, imigrantes e quadros da Administração Pública.
A composição dos “Workshops de Reflexão e Debate” e as propostas que deles saíram, que estão publicadas no livro “Imigração: Oportunidade ou Ameaça?” (Coord. António Vitorino, Ed. Princípia) traduzem bem esta realidade.
A Conferência de encerramento constituiu só por si um valor acrescentado para todo este trabalho, tendo permitido uma internacionalização de toda esta reflexão e representa um valor acrescentado, que não se deve perder e deveria ser editado em livro. O livro “Imigração: Oportunidade ou Ameaça?”ficará sem dúvida como um dos produtos mais interessantes do trabalho produzido no quadro do Fórum Gulbenkian Imigração.
O longo texto introdutório de António Vitorino, que foi o comissário do Fórum Gulbenkian de Imigração, é uma introdução aos relatórios dos worhshops e constitui um texto de referência incontornável sobre estas matérias, que há que discutir e aprofundar.
Gostaria de sublinhar a importância de que se reveste a necessidade de um conhecimento objectivo da realidade das migrações em todas as suas dimensões, não só para a construção das políticas públicas, mas também para uma relação mais verdadeira entre os agentes políticos, os médias e as opiniões públicas, sobre estas matérias. É preciso dizer, por exemplo, como o faz António Vitorino, que as remessas enviadas pelos emigrantes portugueses “ultrapassam, em cerca de cinco vezes, o volume de transferências feitas pelos imigrantes em relação aos seus países de origem” e que Portugal é “o décimo sexto país (numa lista de vinte elaborada pelo Banco Mundial) recebedor de transferências financeiras do estrangeiro enviadas pelos seus emigrantes”. Refere ainda que os fluxos migratórios não são apenas sul norte, mas sul-sul e também norte-sul.
Um aspecto que mereceria ser aprofundado é “o papel que os imigrantes em Portugal podem desempenhar na perspectiva da internacionalização das empresas portuguesas, em particular junto dos respectivos países de origem”. É importante analisar, no quadro da globalização, o papel que os imigrantes e as comunidades económicas transnacionais podem desempenhar na diversificação e densificação das relações entre os países de acolhimento e os países de origem e as oportunidades de desenvolvimento que representam.
Na impossibilidade de resumir toda a riqueza dos contributos dos workshops, gostaria de sublinhar a importância das propostas apresentadas por Fernando Luís Machado relativamente à integração dos filhos de imigrantes africanos em Portugal. São propostas muito lúcidas. Registo: “As políticas de juventude, por exemplo, deverão ser um lugar de acção privilegiado, tratando os jovens filhos de imigrantes como quaisquer outros jovens”. Um exemplo do que não se deve fazer foi efectuado no denominado programa “Escolhas-2.ª Geração” Este programa abrange jovens de meios sociais desfavorecidos em todo o país, grande parte dos quais não são de origem imigrante. Foi um erro colocá-lo sob a tutela do Alto-Comissário para a Imigração e as Minorias Étnicas. Como refere Fernando Luís Machado: “Independentemente dos méritos da intervenção, cola-se assim o rótulo de imigrante e de minoria étnica aos jovens envolvidos, o que não é boa prática politica”.
Refiro este exemplo, por duas razões: uma porque fizemos esta crítica aqui, em Junho de 2004, mas sobretudo, porque cria especificidades onde elas não fazem sentido.
As políticas de integração, como refere Fernando Luís Machado, a propósito dos filhos de imigrantes devem assentar “em critérios universais, salvo nos casos em que especificidades culturais objectivas (por exemplo, diferença linguística) justifiquem abordagens particulares”.
A imigração pode e deve ser uma oportunidade e ser percepcionada como tal, por todos os cidadãos.
domingo, março 11, 2007
A CAMINHO DE UM PARTENARIADO UE-ÁFRICA
As relações entre a Europa e a África começaram com as migrações forçadas provocadas pelo comércio de escravos, continuaram com o colonialismo e manifestaram-se nos fluxos migratórios que se seguiram à descolonização e que têm ganho visibilidade acrescida nos últimos anos. Por linhas tortas, criaram-se laços económicos, culturais e inclusive familiares que criaram uma proximidade incontornável entre europeus e africanos.
Residem na União Europeia milhões de africanos, e milhões de europeus de origem africana, que ganharão crescente visibilidade à medida que for assegurada a sua participação equitativa nas diferentes sociedades.
As relações económicas têm-se intensificado desde o século XV a partir das viagens dos navegadores portugueses. Para dar apenas um exemplo, apesar das políticas europeias que dificultam a exportação de produtos agrícolas de origem africana para a União Europeia, a Europa é o primeiro parceiro comercial da África, absorvendo 85% das exportações africanas de algodão, frutos e produtos hortícolas.
Através de diversos fóruns construiu-se uma rede diversificada de relações entre a União Europeia e África. Alguns dos marcos significativos deste processo são: o Acordo de Partenariado do Cotonou, o Diálogo Euro-Mediterrâneo, iniciado em Barcelona em 1995, a Cimeira UE-África do Cairo (2000), mais recentemente, a conferência Euro-Africana sobre Migrações e Desenvolvimento em Rabat (2006) e a Conferência Ministerial UE-África em Tripoli (2006).
Tudo converge para tornar a II Cimeira UE-África, que terá lugar em Lisboa no fim de 2007, uma oportunidade de construir um partenariado futuro entre a UE e África, que pode representar uma alteração positiva sem precedentes no seu relacionamento, após séculos de desigualdades, humilhações e opressões. Existe essa possibilidade e uma dinâmica em que podem ser identificados elementos positivos, embora também existam dificuldades, e entidades estaduais e não-estaduais que não estão interessados no êxito do processo.
A Comissão Europeia adoptou a «Estratégia da UE para África: rumo a um Pacto Euro-Africano a fim de acelerar o desenvolvimento de África» (2005), que é um documento importante, e tem-se intensificado o diálogo entre a Comissão da União Europeia e a da União Africana. Refira-se, por exemplo, o facto da Comissão Europeia ter reunido pela primeira vez fora da Europa, em Addis Abeba, Etiópia (2006), tendo discutido não apenas a regulação dos fluxos migratórios, mas também o apoio ao reforço institucional da União Africana, a partilha de experiências em áreas como o emprego, a ciência, a tecnologia, e a saúde.
Este processo de construção do partenariado tem de ter sustentabilidade política alargada e daí que a Comissão Europeia tenha sentido a necessidade de promover a sua “apropriação” não só por actores não estaduais europeus, mas também por parte das Comunidades económicas regionais, os Estados e os actores não-estaduais africanos.
Com vista a desenvolver uma participação alargada foi lançado uma consulta pública sobre a estratégia conjunta UE-África, que será adoptada na Cimeira de Lisboa.
Os cidadãos, organizações e instituições da Europa e da África, estão convidados a dar contributos nas seguintes áreas: visão partilhada - qual o quadro político para um partenariado UE-África; paz e segurança; governança, democracia e direitos do homem; comércio e integração regional, questões chaves do desenvolvimento.
A consulta tem lugar através deste sítio (http://europafrique.org/) que foi concebido por uma Fundação independente, o Centre Européen pour la Gestion des Politiques de Développement (ECDPM), com o patrocínio da Comissão Africana, da Comissão Europeia e o apoio das Presidências UE da Finlândia, da Alemanha e de Portugual (2006/2007).
Estamos perante uma iniciativa sem precedentes de convite ao exercício da cidadania no quadro de uma consulta que é uma forma inovadora de democracia participativa a nível dos dois continentes. Só tem um senão, o facto dos textos estarem apenas disponíveis em francês e em inglês, mas nem por isso devemos deixar de participar e de considerar positiva esta iniciativa.
O caminho faz-se caminhando.
Residem na União Europeia milhões de africanos, e milhões de europeus de origem africana, que ganharão crescente visibilidade à medida que for assegurada a sua participação equitativa nas diferentes sociedades.
As relações económicas têm-se intensificado desde o século XV a partir das viagens dos navegadores portugueses. Para dar apenas um exemplo, apesar das políticas europeias que dificultam a exportação de produtos agrícolas de origem africana para a União Europeia, a Europa é o primeiro parceiro comercial da África, absorvendo 85% das exportações africanas de algodão, frutos e produtos hortícolas.
Através de diversos fóruns construiu-se uma rede diversificada de relações entre a União Europeia e África. Alguns dos marcos significativos deste processo são: o Acordo de Partenariado do Cotonou, o Diálogo Euro-Mediterrâneo, iniciado em Barcelona em 1995, a Cimeira UE-África do Cairo (2000), mais recentemente, a conferência Euro-Africana sobre Migrações e Desenvolvimento em Rabat (2006) e a Conferência Ministerial UE-África em Tripoli (2006).
Tudo converge para tornar a II Cimeira UE-África, que terá lugar em Lisboa no fim de 2007, uma oportunidade de construir um partenariado futuro entre a UE e África, que pode representar uma alteração positiva sem precedentes no seu relacionamento, após séculos de desigualdades, humilhações e opressões. Existe essa possibilidade e uma dinâmica em que podem ser identificados elementos positivos, embora também existam dificuldades, e entidades estaduais e não-estaduais que não estão interessados no êxito do processo.
A Comissão Europeia adoptou a «Estratégia da UE para África: rumo a um Pacto Euro-Africano a fim de acelerar o desenvolvimento de África» (2005), que é um documento importante, e tem-se intensificado o diálogo entre a Comissão da União Europeia e a da União Africana. Refira-se, por exemplo, o facto da Comissão Europeia ter reunido pela primeira vez fora da Europa, em Addis Abeba, Etiópia (2006), tendo discutido não apenas a regulação dos fluxos migratórios, mas também o apoio ao reforço institucional da União Africana, a partilha de experiências em áreas como o emprego, a ciência, a tecnologia, e a saúde.
Este processo de construção do partenariado tem de ter sustentabilidade política alargada e daí que a Comissão Europeia tenha sentido a necessidade de promover a sua “apropriação” não só por actores não estaduais europeus, mas também por parte das Comunidades económicas regionais, os Estados e os actores não-estaduais africanos.
Com vista a desenvolver uma participação alargada foi lançado uma consulta pública sobre a estratégia conjunta UE-África, que será adoptada na Cimeira de Lisboa.
Os cidadãos, organizações e instituições da Europa e da África, estão convidados a dar contributos nas seguintes áreas: visão partilhada - qual o quadro político para um partenariado UE-África; paz e segurança; governança, democracia e direitos do homem; comércio e integração regional, questões chaves do desenvolvimento.
A consulta tem lugar através deste sítio (http://europafrique.org/) que foi concebido por uma Fundação independente, o Centre Européen pour la Gestion des Politiques de Développement (ECDPM), com o patrocínio da Comissão Africana, da Comissão Europeia e o apoio das Presidências UE da Finlândia, da Alemanha e de Portugual (2006/2007).
Estamos perante uma iniciativa sem precedentes de convite ao exercício da cidadania no quadro de uma consulta que é uma forma inovadora de democracia participativa a nível dos dois continentes. Só tem um senão, o facto dos textos estarem apenas disponíveis em francês e em inglês, mas nem por isso devemos deixar de participar e de considerar positiva esta iniciativa.
O caminho faz-se caminhando.
domingo, março 04, 2007
A OPA SOBRE A PT E A QUALIDADE DA INFORMAÇÃO
A OPA da SONAECOM sobre a PT acabou, com alguns lamentos pelo facto da maioria dos accionistas da PT presentes em assembleia-geral extraordinária terem votado contra a desblindagem dos estatutos, tornando impossível a OPA. Pessoalmente, congratulo-me com esta votação, que demonstrou que somos um país moderno, em que um projecto empresarial sério não é posto em causa de ânimo leve.
Antes de prosseguir devo declarar que não tenho nem tenciono vir a ter nenhuma acção da PT, sou apenas um cliente, como muitos outros, um contribuinte líquido da PT e muitas vezes crítico do preço e da qualidade dos serviços prestados.
Creio que a opção dos accionistas pela não desblindagem dos estatutos é tão legítima como o seria o terem votado pela desblindagem. São as regras do jogo e a democracia é também o respeito pelas regras de deliberação previamente definidas.
As empresas devem ter lideranças, capazes de definir e concretizar projectos e com capacidade de os transmitir aos seus trabalhadores e ao mercado.
Penso que foi esta a razão do insucesso da OPA. Foi a confiança na gestão de Henrique Granadeiro que derrotou a OPA. O facto de ser aplaudido por trabalhadores não demonstra que tinha razão, mas traduz, de forma inequívoca, a sua capacidade de transmitir a sua ideia do que deve ser a PT.
Fui seguindo com atenção a evolução do processo da OPA e desde sempre me irritou a forma ligeira como a SONAE avaliava a participação da PT no Brasil. Entregar o mercado brasileiro à TELEFÓNICA sempre me pareceu uma opção errada do ponto de vista da PT e do ponto de vista nacional.
A Espanha que é um grande país, tem e muito bem, procurado manter um conjunto de empresas de referência que potenciam a sua presença económica no mundo, uma delas a TELEFÓNICA. É uma estratégia correcta e pela qual só merece elogios. A PT é uma empresa fortemente internacionalizada presente em mercados com grandes potencialidades económicas, como Brasil e Angola, para além de muitos outros países africanos, não apenas lusófonos, o que se reveste de grande importância económica e estratégica.
Tenho muito respeito pela capacidade com que Belmiro de Azevedo construiu o GRUPO SONAE, também fortemente internacionalizado, e creio que a OPA teve ganhos colaterais para os consumidores com a separação estrutural que se irá concretizar das redes de cobre e de cabo, o que irá aumentar a concorrência. Penso, contudo, que esta separação e o profundo abanão que provocou na gestão da PT, são efeitos colaterais positivos da OPA.
A razão pela qual escrevo este texto é apenas porque não sendo liberal em matéria económica, continuo a ser keynesiano, sou liberal em matéria de informação e não gostei nada do título do “Público”, que é para mim um grande jornal de referência e uma das grandes criações do GRUPO SONAE. Não gostei do título «OPA sobre a PT bloqueada por um terço dos accionistas e cumplicidade do Governo» a que se segue «Voto da Caixa Geral de Depósitos contribuiu para impedir a oferta da Sonaecom de chegar à Bolsa». Não estou preocupado com a defesa da honra do Governo nesta matéria. Não lhe é difícil demonstrar que agiu de acordo com critérios que melhor defenderam o interesse nacional. É também verdade que a Caixa Geral de Depósitos contribuiu para impedir a oferta da Sonaecom de chegar à Bolsa, e também não lhe será difícil explicar, como aliás já fez, as razões que estiveram na base desse voto. O que lamento é que se dê a ideia errada de que apenas uma minoria dos accionistas, com o apoio do Estado se opôs à desblindagem dos estatutos. Na realidade a Caixa Geral Depósitos detém apenas cerca de 5 % e o Estado, que detém directamente 1,8 % e quinhentas acções com direitos especiais, absteve-se.
Como escreveu Nicolau Santos no “Expresso” (03/03/2007): «A OPA da SONAECOM foi derrotada de forma clara na assembleia-geral da PT. Para passar, a proposta precisava de dois terços dos votos presentes e não chegou sequer à fasquia dos 50 %».
Por todo isto não gostei daquele título a encimar a primeira página do “Público”. Um país de média dimensão em termos europeus, como Portugal, precisa, especialmente num momento de crise como a que atravessa, de ter um Estado forte e eficaz, grupos económicos e empresas com projectos ambiciosos, de uma imprensa e de uma informação em geral, plural e de qualidade.
Precisamos de continuar a ter diários de referência como têm sido o”Público” e o “Diário de Notícias”, uma imprensa não apenas com colunistas variados e críticos, goste-se ou não do que escrevem, mas também de espaços de opinião abertos à participação dos cidadãos.
A liberdade é a possibilidade de exprimir diferentes pontos de vista. É esse o liberalismo de que precisamos cada vez mais, para que nos garanta uma informação de qualidade, sem a qual não teremos uma democracia de qualidade.
Antes de prosseguir devo declarar que não tenho nem tenciono vir a ter nenhuma acção da PT, sou apenas um cliente, como muitos outros, um contribuinte líquido da PT e muitas vezes crítico do preço e da qualidade dos serviços prestados.
Creio que a opção dos accionistas pela não desblindagem dos estatutos é tão legítima como o seria o terem votado pela desblindagem. São as regras do jogo e a democracia é também o respeito pelas regras de deliberação previamente definidas.
As empresas devem ter lideranças, capazes de definir e concretizar projectos e com capacidade de os transmitir aos seus trabalhadores e ao mercado.
Penso que foi esta a razão do insucesso da OPA. Foi a confiança na gestão de Henrique Granadeiro que derrotou a OPA. O facto de ser aplaudido por trabalhadores não demonstra que tinha razão, mas traduz, de forma inequívoca, a sua capacidade de transmitir a sua ideia do que deve ser a PT.
Fui seguindo com atenção a evolução do processo da OPA e desde sempre me irritou a forma ligeira como a SONAE avaliava a participação da PT no Brasil. Entregar o mercado brasileiro à TELEFÓNICA sempre me pareceu uma opção errada do ponto de vista da PT e do ponto de vista nacional.
A Espanha que é um grande país, tem e muito bem, procurado manter um conjunto de empresas de referência que potenciam a sua presença económica no mundo, uma delas a TELEFÓNICA. É uma estratégia correcta e pela qual só merece elogios. A PT é uma empresa fortemente internacionalizada presente em mercados com grandes potencialidades económicas, como Brasil e Angola, para além de muitos outros países africanos, não apenas lusófonos, o que se reveste de grande importância económica e estratégica.
Tenho muito respeito pela capacidade com que Belmiro de Azevedo construiu o GRUPO SONAE, também fortemente internacionalizado, e creio que a OPA teve ganhos colaterais para os consumidores com a separação estrutural que se irá concretizar das redes de cobre e de cabo, o que irá aumentar a concorrência. Penso, contudo, que esta separação e o profundo abanão que provocou na gestão da PT, são efeitos colaterais positivos da OPA.
A razão pela qual escrevo este texto é apenas porque não sendo liberal em matéria económica, continuo a ser keynesiano, sou liberal em matéria de informação e não gostei nada do título do “Público”, que é para mim um grande jornal de referência e uma das grandes criações do GRUPO SONAE. Não gostei do título «OPA sobre a PT bloqueada por um terço dos accionistas e cumplicidade do Governo» a que se segue «Voto da Caixa Geral de Depósitos contribuiu para impedir a oferta da Sonaecom de chegar à Bolsa». Não estou preocupado com a defesa da honra do Governo nesta matéria. Não lhe é difícil demonstrar que agiu de acordo com critérios que melhor defenderam o interesse nacional. É também verdade que a Caixa Geral de Depósitos contribuiu para impedir a oferta da Sonaecom de chegar à Bolsa, e também não lhe será difícil explicar, como aliás já fez, as razões que estiveram na base desse voto. O que lamento é que se dê a ideia errada de que apenas uma minoria dos accionistas, com o apoio do Estado se opôs à desblindagem dos estatutos. Na realidade a Caixa Geral Depósitos detém apenas cerca de 5 % e o Estado, que detém directamente 1,8 % e quinhentas acções com direitos especiais, absteve-se.
Como escreveu Nicolau Santos no “Expresso” (03/03/2007): «A OPA da SONAECOM foi derrotada de forma clara na assembleia-geral da PT. Para passar, a proposta precisava de dois terços dos votos presentes e não chegou sequer à fasquia dos 50 %».
Por todo isto não gostei daquele título a encimar a primeira página do “Público”. Um país de média dimensão em termos europeus, como Portugal, precisa, especialmente num momento de crise como a que atravessa, de ter um Estado forte e eficaz, grupos económicos e empresas com projectos ambiciosos, de uma imprensa e de uma informação em geral, plural e de qualidade.
Precisamos de continuar a ter diários de referência como têm sido o”Público” e o “Diário de Notícias”, uma imprensa não apenas com colunistas variados e críticos, goste-se ou não do que escrevem, mas também de espaços de opinião abertos à participação dos cidadãos.
A liberdade é a possibilidade de exprimir diferentes pontos de vista. É esse o liberalismo de que precisamos cada vez mais, para que nos garanta uma informação de qualidade, sem a qual não teremos uma democracia de qualidade.
domingo, fevereiro 25, 2007
BABEL OU OS MUROS EVITÁVEIS ENTRE O GÉNERO HUMANO
O filme “Babel” de Alejandro González-Iñárritu surpreendeu-me e deixou marcas profundas na minha sensibilidade. Devo dizer que não tinha expectativa especial relativamente a ele e por isso apenas o vi na semana passada.
O que desde logo me agarrou foi o olhar a partir de vários ângulos para pedaços da nossa condição humana contemporânea, foi dar-nos a ver em paralelo várias estórias, situadas em contextos culturais e sociais muito diferentes - Estados Unidos, México, Marrocos, Japão e faladas em francês, inglês, espanhol, japonês e árabe.
Progressivamente as várias estórias mostram os nexos que as ligam e que na sua diversidade se inserem na trama comum da nossa história. Não deixa de ser simbólico, e creio que carregado de alguma ironia, que o que as une seja a espingarda de caça que um rico caçador japonês deu, como prova de amizade, a um guia marroquino e que este vendeu a um vizinho.
Devo confessar que as dimensões políticas presentes no filme e que podem ser discutidas, não são para mim o mais importante.
Considero a política um instrumento para tornar possível, a liberdade de desabrochar a vida que todos trazem dentro de si, de concretizar o direito à felicidade.
O que me interessa no filme é o que reforça a nossa consciência metapolítica de uma comum pertença à humanidade. É a capacidade para nos dar a ver o que de mesmo se esconde no que é diferente. Apesar da metáfora bíblica de Babel, percebemos que “a descoberta da alteridade é a de uma relação não de uma barreira”, como escreveu há muito, Claude Lévi-Strauss.
Impressionaram-me positivamente no filme as boas representações de Brad Pitt e Cate Blanchet, mas devo confessar que considero excelentes as representações de Adriana Barraza, no papel de empregada doméstica mexicana, da jovem japonesa e dos jovens irmãos marroquinos, particularmente do mais novo, cujos nomes gostaria de poder mencionar aqui.
O mesmo e o diferente unem o jovem marroquino, que descobre a sua sexualidade. e a jovem japonesa, que vive dolorosamente a sua solidão emocional, agravada pelo preconceito de que é vítima por ser surda-muda. Estão presentes na solidariedade viva com que a turista americana é ajudada na aldeia marroquina, onde fica a aguardar a vinda de auxílio americano. Estão também presentes na forma como as crianças americanas são recebidas na festa de casamento mexicana e no laço de afecto que une a empregada doméstica mexicana às crianças que criou.
O filme fala-nos também dos muros e daí o recurso à metáfora de Babel. Os muros da desconfiança e do preconceito político que atrasam o socorro à americana ferida, os muros que existem entre vizinhos, México e Estados Unidos, os que impedem uma mexicana de regressar aos Estados Unidos onde trabalhava há 16 anos, os muros da discriminação e do preconceito que se erguem em torno da jovem japonesa, apesar de bela e rica, porque é surda-muda.
O filme deixa-nos muitas questões em aberto que se prendem com a súbita emergência do trágico na vida de cada um, como a bala que quase mata a turista americana, a forma impensada como dois jovens marroquinos, ao experimentarem uma arma que lhes foi dada para guardar um rebanho dos chacais, irão causar a morte de um deles.
O filme usa uma linguagem sóbria. Uma imagem que vale muitas palavras é a do regresso da empregada ao México depois de muitos anos de trabalho em situação irregular. Tudo o que tem cabe debaixo do braço. É uma das imagens com mais carga política deste filme.
Se há um objectivo politico que podemos fixar depois de ver este filme é lutar para regular a globalização de forma a eliminar os muros evitáveis que separam o género humano e nos impedem de ver que somos todos membros de uma única humanidade.
O que desde logo me agarrou foi o olhar a partir de vários ângulos para pedaços da nossa condição humana contemporânea, foi dar-nos a ver em paralelo várias estórias, situadas em contextos culturais e sociais muito diferentes - Estados Unidos, México, Marrocos, Japão e faladas em francês, inglês, espanhol, japonês e árabe.
Progressivamente as várias estórias mostram os nexos que as ligam e que na sua diversidade se inserem na trama comum da nossa história. Não deixa de ser simbólico, e creio que carregado de alguma ironia, que o que as une seja a espingarda de caça que um rico caçador japonês deu, como prova de amizade, a um guia marroquino e que este vendeu a um vizinho.
Devo confessar que as dimensões políticas presentes no filme e que podem ser discutidas, não são para mim o mais importante.
Considero a política um instrumento para tornar possível, a liberdade de desabrochar a vida que todos trazem dentro de si, de concretizar o direito à felicidade.
O que me interessa no filme é o que reforça a nossa consciência metapolítica de uma comum pertença à humanidade. É a capacidade para nos dar a ver o que de mesmo se esconde no que é diferente. Apesar da metáfora bíblica de Babel, percebemos que “a descoberta da alteridade é a de uma relação não de uma barreira”, como escreveu há muito, Claude Lévi-Strauss.
Impressionaram-me positivamente no filme as boas representações de Brad Pitt e Cate Blanchet, mas devo confessar que considero excelentes as representações de Adriana Barraza, no papel de empregada doméstica mexicana, da jovem japonesa e dos jovens irmãos marroquinos, particularmente do mais novo, cujos nomes gostaria de poder mencionar aqui.
O mesmo e o diferente unem o jovem marroquino, que descobre a sua sexualidade. e a jovem japonesa, que vive dolorosamente a sua solidão emocional, agravada pelo preconceito de que é vítima por ser surda-muda. Estão presentes na solidariedade viva com que a turista americana é ajudada na aldeia marroquina, onde fica a aguardar a vinda de auxílio americano. Estão também presentes na forma como as crianças americanas são recebidas na festa de casamento mexicana e no laço de afecto que une a empregada doméstica mexicana às crianças que criou.
O filme fala-nos também dos muros e daí o recurso à metáfora de Babel. Os muros da desconfiança e do preconceito político que atrasam o socorro à americana ferida, os muros que existem entre vizinhos, México e Estados Unidos, os que impedem uma mexicana de regressar aos Estados Unidos onde trabalhava há 16 anos, os muros da discriminação e do preconceito que se erguem em torno da jovem japonesa, apesar de bela e rica, porque é surda-muda.
O filme deixa-nos muitas questões em aberto que se prendem com a súbita emergência do trágico na vida de cada um, como a bala que quase mata a turista americana, a forma impensada como dois jovens marroquinos, ao experimentarem uma arma que lhes foi dada para guardar um rebanho dos chacais, irão causar a morte de um deles.
O filme usa uma linguagem sóbria. Uma imagem que vale muitas palavras é a do regresso da empregada ao México depois de muitos anos de trabalho em situação irregular. Tudo o que tem cabe debaixo do braço. É uma das imagens com mais carga política deste filme.
Se há um objectivo politico que podemos fixar depois de ver este filme é lutar para regular a globalização de forma a eliminar os muros evitáveis que separam o género humano e nos impedem de ver que somos todos membros de uma única humanidade.
domingo, fevereiro 18, 2007
FLEXIGURANÇA - QUESTÕES PRÉVIAS
A flexigurança irá ser cada vez mais discutida nos próximos meses e não posso deixar de colocar algumas questões prévias ao seu debate.
Vivemos tempos de grandes desafios para os trabalhadores, em que é necessário tentar perceber o que são mudanças razoáveis tendo em conta as alterações da situação económica, social e cultural, quer a nível nacional, quer no quadro europeu e mundial, e que representa o aproveitamento desses processos para maior exploração e precarização das condições de trabalho.
A flexigurança é apresentada como uma solução mágica, importada da Dinamarca, com uma ligação a uma certa social-democracia “nórdica”, que seria uma alternativa ao liberalismo puro e duro e que permitiria articular de forma virtuosa flexibilidade e segurança. Naturalmente que o novo modelo abre as portas a maior flexibilidade nas contratações e despedimentos, mas promete maior apoio social no desemprego.
Temos de reconhecer que o ministro Vieira da Silva tem tido alguma prudência no tratamento desta matéria, chamando a atenção, designadamente, para as questões que coloca a sua “transferabilidade”, isto é, a determinação dos termos e condições em que tais estratégias podem funcionar em países com características culturais e com sistemas de emprego distintos dos países nórdicos.
Para justificar a introdução da flexigurança, entre nós, tem-se invocado a rigidez do mercado de trabalho e da legislação dos despedimentos.
Convém, contudo, ser mais rigoroso. A única área em que o despedimento é rodeado de maiores garantias do que em outros países europeus é a do despedimento individual com invocação de justa causa.
Os trabalhadores estão mais desprotegidos do que em muitos outros países europeus no que se refere aos despedimentos ditos por causas objectivas, como os justificados com a invocação de extinção dos postos de trabalho ou por despedimento colectivo e verificam-se muitos atropelos na forma como a legislação é aplicada pelas entidades patronais sem uma pronta intervenção da administração do trabalho, por falta de recursos humanos.
O mercado de trabalho português é, na prática, um dos mais flexíveis da Europa. Nele coexistem elevado grau de informalidade nas relações laborais em vários sectores de actividade, com crescente precarização do trabalho, particularmente, dos trabalhadores mais jovens, bem como, formas imaginativas de contornar os direitos dos trabalhadores por parte de muitas entidades empregadoras.
Para discutir a flexigurança é preciso ter também presente que o que se está a propor é uma nova forma da Segurança Social financiar a reconversão das empresas.
Nesta matéria é necessário fazer contas e dizer quanto custou e quanto continua a custar à Segurança Social o “emagrecimento” das empresas nos últimos anos, quantos milhões de euros estão a ser pagos e têm sido pagos a título de subsídio de desemprego para facilitar a cessação dos contratos de trabalho “por mútuo acordo, motivado pela necessidade de reduzir postos de trabalho”.
Não sabemos também quantos milhões de euros deixaram de entrar em contribuições para a Segurança Social com as reformas antecipadas na sequência do esgotamento do período de concessão de subsídio de desemprego.
Tudo isto teve grandes vantagens económicas para as empresas e foi muito importante para atenuar os prejuízos sofridos pelos trabalhadores abrangidos. O custo destas medidas foi, contudo, mais elevado para Segurança Social do que o montante das importâncias pagas pelo Fundo de Garantia Salarial para custear o pagamento das importâncias em dívida aos trabalhadores no caso de insolvência dos empregadores.
É justo dizer que esta legislação foi alterada pelo actual Governo que instituiu novas regras em matéria de subsídio de desemprego.
Não se devem adoptar novas soluções que favoreçam a rentabilidade das empresas à custa dor recursos afectos à Segurança Social, sem prejuízo de admitir que devemos estar abertos a considerar novas possibilidades de articulação entre o económico e o social.
Vivemos tempos de mudança em que as empresas e sobretudo os grupos de empresas têm uma grande plasticidade e recorrem à autonomização de algumas das suas actividades criando novas empresas e mudando as sedes dessas novas empresas para Espanha. Entre as causas dessas mudanças de sede estão razões fiscais, designadamente, o IVA mais elevado em Portugal e não a rigidez da legislação laboral.
É positivo que as centrais sindicais portuguesas, UGT e CGTP estejam decididas a tomar uma atitude proactiva nesta matéria e tenham constituído uma comissão conjunta para acompanhar de perto os assuntos considerados prioritários da Presidência Portuguesa da União Europeia e queiram discutir temas, como emprego, relações de trabalho e flexigurança.
Estaremos atentos e não deixaremos de dar o nosso contributo para estes debates.
O que está em causa não são apenas direitos ou garantias dos trabalhadores, são questões de cidadania.
Vivemos tempos de grandes desafios para os trabalhadores, em que é necessário tentar perceber o que são mudanças razoáveis tendo em conta as alterações da situação económica, social e cultural, quer a nível nacional, quer no quadro europeu e mundial, e que representa o aproveitamento desses processos para maior exploração e precarização das condições de trabalho.
A flexigurança é apresentada como uma solução mágica, importada da Dinamarca, com uma ligação a uma certa social-democracia “nórdica”, que seria uma alternativa ao liberalismo puro e duro e que permitiria articular de forma virtuosa flexibilidade e segurança. Naturalmente que o novo modelo abre as portas a maior flexibilidade nas contratações e despedimentos, mas promete maior apoio social no desemprego.
Temos de reconhecer que o ministro Vieira da Silva tem tido alguma prudência no tratamento desta matéria, chamando a atenção, designadamente, para as questões que coloca a sua “transferabilidade”, isto é, a determinação dos termos e condições em que tais estratégias podem funcionar em países com características culturais e com sistemas de emprego distintos dos países nórdicos.
Para justificar a introdução da flexigurança, entre nós, tem-se invocado a rigidez do mercado de trabalho e da legislação dos despedimentos.
Convém, contudo, ser mais rigoroso. A única área em que o despedimento é rodeado de maiores garantias do que em outros países europeus é a do despedimento individual com invocação de justa causa.
Os trabalhadores estão mais desprotegidos do que em muitos outros países europeus no que se refere aos despedimentos ditos por causas objectivas, como os justificados com a invocação de extinção dos postos de trabalho ou por despedimento colectivo e verificam-se muitos atropelos na forma como a legislação é aplicada pelas entidades patronais sem uma pronta intervenção da administração do trabalho, por falta de recursos humanos.
O mercado de trabalho português é, na prática, um dos mais flexíveis da Europa. Nele coexistem elevado grau de informalidade nas relações laborais em vários sectores de actividade, com crescente precarização do trabalho, particularmente, dos trabalhadores mais jovens, bem como, formas imaginativas de contornar os direitos dos trabalhadores por parte de muitas entidades empregadoras.
Para discutir a flexigurança é preciso ter também presente que o que se está a propor é uma nova forma da Segurança Social financiar a reconversão das empresas.
Nesta matéria é necessário fazer contas e dizer quanto custou e quanto continua a custar à Segurança Social o “emagrecimento” das empresas nos últimos anos, quantos milhões de euros estão a ser pagos e têm sido pagos a título de subsídio de desemprego para facilitar a cessação dos contratos de trabalho “por mútuo acordo, motivado pela necessidade de reduzir postos de trabalho”.
Não sabemos também quantos milhões de euros deixaram de entrar em contribuições para a Segurança Social com as reformas antecipadas na sequência do esgotamento do período de concessão de subsídio de desemprego.
Tudo isto teve grandes vantagens económicas para as empresas e foi muito importante para atenuar os prejuízos sofridos pelos trabalhadores abrangidos. O custo destas medidas foi, contudo, mais elevado para Segurança Social do que o montante das importâncias pagas pelo Fundo de Garantia Salarial para custear o pagamento das importâncias em dívida aos trabalhadores no caso de insolvência dos empregadores.
É justo dizer que esta legislação foi alterada pelo actual Governo que instituiu novas regras em matéria de subsídio de desemprego.
Não se devem adoptar novas soluções que favoreçam a rentabilidade das empresas à custa dor recursos afectos à Segurança Social, sem prejuízo de admitir que devemos estar abertos a considerar novas possibilidades de articulação entre o económico e o social.
Vivemos tempos de mudança em que as empresas e sobretudo os grupos de empresas têm uma grande plasticidade e recorrem à autonomização de algumas das suas actividades criando novas empresas e mudando as sedes dessas novas empresas para Espanha. Entre as causas dessas mudanças de sede estão razões fiscais, designadamente, o IVA mais elevado em Portugal e não a rigidez da legislação laboral.
É positivo que as centrais sindicais portuguesas, UGT e CGTP estejam decididas a tomar uma atitude proactiva nesta matéria e tenham constituído uma comissão conjunta para acompanhar de perto os assuntos considerados prioritários da Presidência Portuguesa da União Europeia e queiram discutir temas, como emprego, relações de trabalho e flexigurança.
Estaremos atentos e não deixaremos de dar o nosso contributo para estes debates.
O que está em causa não são apenas direitos ou garantias dos trabalhadores, são questões de cidadania.
domingo, fevereiro 11, 2007
ANTÓNIO ALÇADA BAPTISTA - UM ENCONTRO MARCANTE
António Alçada Baptista é uma referência marcante na minha evolução espiritual, cultural e política, apesar das diferenças de percurso. Posso dizer que a minha vida teria sido diferente se não fosse a sua intervenção. Estou certo que para outros homens e mulheres ele foi também um encontro marcante nas suas vidas, mesmo para muitos que o não conhecem pessoalmente.Alçada Baptista fez recentemente oitenta anos e foi editado um livro de homenagem, intitulado, «ANTÓNIO ALÇADA BAPTISTA Tempo Afectuoso - Homenagem ao Escritor e Amigo de Todos Nós» que merece ser lido e debatido. É uma iniciativa da sua actual editora, a Presença, em colaboração com o Centro Nacional e Cultura, no qual participaram inúmeros amigos entre os quais, Maria Helena Mira Mateus e Guilherme d’Oliveira Martins, que assinam o prefácio. Entre os quarenta e cinco amigos e amigas que colaboram nesta iniciativa contam-se: Alberto Vaz da Silva, Edgar Morin, Eduardo Lourenço, Fernando Pinto Amaral, João Bénard da Costa, Guilherme d’Oliveira Martins, Jorge Sampaio, Mário Soares, Pedro Roseta, Sidónio de Freitas Branco Paes, Pedro Tamen e Urbano Tavares Rodrigues.
Quando era ainda um jovem estudante do Liceu Nacional de Viseu foi para mim decisiva a leitura da revista «O Tempo e o Modo», de que Alçada foi criador e director. Esta revista alargou-me os horizontes e permitiu alimentar a minha dupla procura, por um lado, de uma Igreja renovada pelo Concílio Vaticano II, por outro lado, de uma esquerda que fosse ela própria inovadora e capaz de acolher os “militantes de origem cristã”, para parafrasear o título de um número especial da revista «Esprit».
Apesar dos vinte e quatro anos de idade que nos separam experimentei muito do mundo mental de que nos fala Alçada Baptista no seu primeiro livro da «Peregrinação Interior». Foi muito importante ter tido a possibilidade de ler vários livros do “Círculo de Humanismo Cristão” na descoberta de uma teologia viva que nos possibilita uma outra aproximação ao mistério e a Deus, editados pela sua Livraria Moraes. Lamentei toda a minha vida não ter comprado quando o vi, o livro «Força Para Amar» de Martin Luther King, que viria a ser apreendido e que nunca consegui encontrar até hoje.
Foi também com o “Círculo de Poesia” e com o “Circulo de Prosa” da Moraes, que descobri, por exemplo, a poesia de Sophia, designadamente, o «Livro VI» e «O Nome das Coisas», ou a prosa de Nuno Bragança de «A Noite e o Riso» e de «Directa».
Não falando já de pensadores como Mounier, Lebret, Maritain, Giorgio La Pira, Simone Weil, Adérito Sedas Nunes, Manuel Antunes e muitos outros.
Alçada Baptista teve também influência na minha vida política, de forma indirecta. Quando era estudante de Coimbra e ele foi candidato pela Oposição Democrática por Castelo Branco escrevi-lhe, manifestando o meu entusiasmo e pedindo o envio do manifesto que era um texto muito bem escrito e com linguagem inovadora. Alçada Baptista teve a gentileza de mo enviar.
Julgo que foi muito importante para a futura participação dos católicos na esquerda democrática e socialista o facto de Alçada Baptista e os seus companheiros terem convidado Mário Soares, Salgado Zenha e Jorge Sampaio a juntarem-se aos católicos que estiveram na origem de «O Tempo e o Modo».
Alçada Baptista é um notável memorialista, mas é também um novelista e um romancista de ideias. Livros como «Os Nós e os Laços», «O Riso de Deus» e «O Tecido do Outono» são romances de ideias desafiadores, que nos colocam não apenas perante reflexões sobre Deus, mas também perante novas representações das relações afectivas entre homens e mulheres, que questionam o amor e a amizade, que ainda não tiverem o tratamento crítico que merecem. Guilherme d’Oliveira Martins afirma no seu testemunho que o escritor se admira de nos tempos que correm não haver ainda uma “teologia da felicidade”. Creio que Alçada Baptista deu-nos com estes livros e as suas novelas contributos para a uma teologia da felicidade e do prazer, a construir, e que a melhor forma de prosseguir esta homenagem é continuarmos a lê-lo e a discuti-lo, qual quer que seja as respostas que entendamos dar às questões que coloca.
domingo, fevereiro 04, 2007
O MEU VOTO SIM NO REFERENDO SOBRE A IVG
Votarei sim no próximo referendo na esperança que o meu voto contribua para uma lei mais equilibrada em matéria de interrupção voluntária da gravidez.
Considero que devem ser criadas todas as condições para evitar e reduzir o mais possível o recurso ao aborto, mas entendo também que devo votar “sim” à despenalização proposta no referendo. Para além dos valores da defesa da vida ou da livre escolha, sou também sensível a outros valores como os da responsabilidade e da compaixão, que em sentido etimológico significa a capacidade de ser sensível ao sofrimento dos outros.
A vida intra-uterina constitui um bem constitucionalmente tutelado, e este reconhecimento é independente de concepções filosóficas ou religiosas sobre o início da vida humana, donde deriva a obrigação do Estado de a defender
Considero, como muitos outros que defendem o sim, que deveriam ser adoptadas medidas como a obrigatoriedade de uma prévia consulta de aconselhamento e o estabelecimento de um período entre a consulta e a intervenção abortiva para assegurar que a mulher tomou a decisão de forma livre, informada e não precipitada, evitando-se a interrupção da gravidez motivada por súbito desespero.
Seria muito positivo que os partidos que apoiam a despenalização assumissem antes do referendo o compromisso de prever estas medidas na futura lei. A sua ausência desprotegeria de forma desproporcionada a tutela da vida intra-uterina.
O que está em causa neste referendo não é “o direito ao aborto”, nem o ser “a favor do aborto”, mas o respeito pela consciência e pelo sentido de responsabilidade das mulheres que decidem interromper a gravidez até às dez semanas. A maioria dos abortos realizam-se em Portugal até às dez semanas e a lei penal tem-se revelado ineficaz para o evitar. A proibição contribui para o recurso ao aborto em situação ilegal, com consequências gravosas para a situação física e psíquica da mulher.
O aborto é motivo de conflito e sofrimento e é particularmente dramático para as mulheres mais pobres, mais jovens e mais excluídas, que são levadas a recorrer a ele sem condições de segurança por graves situações de carência económica ou por força dos preconceitos sociais. A penalização do aborto constitui um factor de maior sofrimento e de reforço da discriminação de que são vítimas na sociedade. Considero que a nossa intervenção cívica e política deve ter como um dos objectivos eliminar o sofrimento evitável e penso que a prevenção do aborto não exige a penalização dos que se verificam até às dez semanas. Confio na consciência bem informada e no sentido de responsabilidade das mulheres e dos cidadãos, em geral, para conseguir que o aborto seja raro.
Considero que é intolerável que muitas mulheres sejam levadas a abortar por força das difíceis condições económicas em que vivem ou por força dos preconceitos sociais que tendem a excluir mulheres que engravidam fora do casamento ou da união de facto.
São de louvar e apoiar todas as iniciativas da sociedade civil que se têm substituído à omissão do Estado nesta matéria.
Cabe também primeiro que tudo assegurar a educação sexual e o planeamento familiar a todos os cidadãos de forma a prevenir gravidezes indesejadas. Os diferentes governos têm-se demitido de fazer o que lhes compete nestas matérias, o que não pode continuar a acontecer.
Se o “sim” ganhar a minha agenda nesta matéria passa a ser a da promoção de condições sociais, culturais e legais para assegurar que todas as mulheres, independentemente da idade, condição social, origem ou fortuna, possam ter a liberdade de escolher ser mães e não sejam levadas a abortar sem o pretender.
Considero que devem ser criadas todas as condições para evitar e reduzir o mais possível o recurso ao aborto, mas entendo também que devo votar “sim” à despenalização proposta no referendo. Para além dos valores da defesa da vida ou da livre escolha, sou também sensível a outros valores como os da responsabilidade e da compaixão, que em sentido etimológico significa a capacidade de ser sensível ao sofrimento dos outros.
A vida intra-uterina constitui um bem constitucionalmente tutelado, e este reconhecimento é independente de concepções filosóficas ou religiosas sobre o início da vida humana, donde deriva a obrigação do Estado de a defender
Considero, como muitos outros que defendem o sim, que deveriam ser adoptadas medidas como a obrigatoriedade de uma prévia consulta de aconselhamento e o estabelecimento de um período entre a consulta e a intervenção abortiva para assegurar que a mulher tomou a decisão de forma livre, informada e não precipitada, evitando-se a interrupção da gravidez motivada por súbito desespero.
Seria muito positivo que os partidos que apoiam a despenalização assumissem antes do referendo o compromisso de prever estas medidas na futura lei. A sua ausência desprotegeria de forma desproporcionada a tutela da vida intra-uterina.
O que está em causa neste referendo não é “o direito ao aborto”, nem o ser “a favor do aborto”, mas o respeito pela consciência e pelo sentido de responsabilidade das mulheres que decidem interromper a gravidez até às dez semanas. A maioria dos abortos realizam-se em Portugal até às dez semanas e a lei penal tem-se revelado ineficaz para o evitar. A proibição contribui para o recurso ao aborto em situação ilegal, com consequências gravosas para a situação física e psíquica da mulher.
O aborto é motivo de conflito e sofrimento e é particularmente dramático para as mulheres mais pobres, mais jovens e mais excluídas, que são levadas a recorrer a ele sem condições de segurança por graves situações de carência económica ou por força dos preconceitos sociais. A penalização do aborto constitui um factor de maior sofrimento e de reforço da discriminação de que são vítimas na sociedade. Considero que a nossa intervenção cívica e política deve ter como um dos objectivos eliminar o sofrimento evitável e penso que a prevenção do aborto não exige a penalização dos que se verificam até às dez semanas. Confio na consciência bem informada e no sentido de responsabilidade das mulheres e dos cidadãos, em geral, para conseguir que o aborto seja raro.
Considero que é intolerável que muitas mulheres sejam levadas a abortar por força das difíceis condições económicas em que vivem ou por força dos preconceitos sociais que tendem a excluir mulheres que engravidam fora do casamento ou da união de facto.
São de louvar e apoiar todas as iniciativas da sociedade civil que se têm substituído à omissão do Estado nesta matéria.
Cabe também primeiro que tudo assegurar a educação sexual e o planeamento familiar a todos os cidadãos de forma a prevenir gravidezes indesejadas. Os diferentes governos têm-se demitido de fazer o que lhes compete nestas matérias, o que não pode continuar a acontecer.
Se o “sim” ganhar a minha agenda nesta matéria passa a ser a da promoção de condições sociais, culturais e legais para assegurar que todas as mulheres, independentemente da idade, condição social, origem ou fortuna, possam ter a liberdade de escolher ser mães e não sejam levadas a abortar sem o pretender.
segunda-feira, janeiro 29, 2007
A LUTA PELA JUSTIÇA
A preocupação com a qualidade da Justiça estende-se a um número crescente de cidadãos.
A cidadania plena exige uma justiça atempada, eficiente, equitativa e acessível, concebida ela própria como um novo direito social, que um Estado democrático de direito tem o dever de assegurar.
A preocupação com a Justiça tem um mediador fundamental a comunicação social que tanto pode contribuir para um conhecimento mais objectivo das situações quer para reacções emocionais com base numa informação incompleta e distorcida.
A forma como tem sido debatido na imprensa o caso da criança da Sertã é sintomática de uma indignação generalizada relativamente à condenação do sargento a uma pena de seis anos de prisão, mas é também um exemplo de uma informação pouco completa e rigorosa. Acompanho nesta matéria o que escreveu Sofia Loureiro dos Santos, aqui, sobre os limites do jornalismo interpretativo.
Corre-se o risco de se alimentar uma ideia negativa de descrença na Justiça aplicada pelos tribunais que não pode ser generalizada. Isto não significa que possamos ignorar que a morosidade ou ineficácia das decisões, nomeadamente, na área cível é insustentável e mina a credibilidade de todo o sistema.
Há, contudo, sinais positivos de mudança para melhor.
Um deles é a importância crescente que os cidadãos, os deputados, os operadores judiciais dão à necessidade do combate à corrupção, a vontade de impedir o alastramento de relações perversas entre a acção política, o futebol e os interesses imobiliários.
Foram apresentadas um conjunto de iniciativas legislativas na Assembleia da República que serão discutidas em breve. Desejamos que o debate sobre o que está em causa em todas elas possa chegar de forma completa e objectiva a todos os cidadãos para que possamos ajuizar como se comportaram os diferentes grupos parlamentares nesta matéria. A inscrição do combate à corrupção na agenda política é por si só um facto positivo que terá forçosamente como resultado melhor legislação e maior eficácia nesse combate.
É positivo o dinamismo que está ser demonstrado pelo Ministério Público, não só por parte do novo Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro, mas também por um conjunto de brilhantes magistrados.
A designação por Pinto Monteiro de Maria José Morgado para coordenar as investigações de todos os inquéritos e processos instaurados ou a instaurar conexos com o “Apito Dourado” foi um sinal positivo, como aqui escrevemos.
A recente eleição da Francisca Van Dunem, directora do Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP), como Procuradora-geral distrital de Lisboa é também um facto muito positivo. Francisca Van Dunem é uma competente magistrada, discreta, e muito respeitada pela sua competência e rigor profissionais e pelo seu profundo conhecimento do direito penal. Não é por acaso que foi eleita por maioria absoluta, por voto secreto, pelo Conselho Superior do Ministério Público.
A maior eficácia da repressão penal também se deve à qualidade que está ser demonstrada de forma crescente pelos agentes policiais, não apenas da Judiciária, mas também da PSP e da GNR.
Naturalmente ainda há muito por fazer para que a Justiça se torne um direito social, mas há que valorizar todos os que se empenham com profissionalismo em criar condições para melhorar o funcionamento da justiça. Nada disto dispensa uma comunicação social objectiva e que nos dê elementos para avaliar o funcionamento da Justiça, nem cidadãos activos e exigentes.
PS. 1 Tenciono explicar as razões por que vou votar “sim” no próximo referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez.
Lamento a forma primária como muitos estão a tratar esta questão, quer entre os que votam “sim”, quer entre os que votam “não”.
Estou convencido que o resultado do referendo depende da forma como votarem os cidadãos que sendo contra o aborto são também favoráveis à despenalização. Se não forem votar, o “sim” não vencerá.
Quero por isso dizer que os posts que sobre esta matéria Tomás Vasques tem colocado no seu blogue, designadamente este, são mais eficazes para a mobilização dos votos pelo “sim”, que os excessos de linguagem que tem criticado. É verdade que muitos e graves excessos têm também sido utilizados para defender o “não”.
Não nos iludamos, o eleitorado tem bom senso e punirá os excessos. Ganhará quem demonstrar bom senso e bom gosto no tratamento desta questão difícil.
PS 2. Um grande abraço de parabéns ao Luís Novais Tito e ao Carlos Manuel Castro pelos três anos do Tugir.
Parabéns também à equipa do Canhoto por já ter ultrapassados os 1001 posts.
São blogues com quem temos um link permanente e de consulta frequente.
A cidadania plena exige uma justiça atempada, eficiente, equitativa e acessível, concebida ela própria como um novo direito social, que um Estado democrático de direito tem o dever de assegurar.
A preocupação com a Justiça tem um mediador fundamental a comunicação social que tanto pode contribuir para um conhecimento mais objectivo das situações quer para reacções emocionais com base numa informação incompleta e distorcida.
A forma como tem sido debatido na imprensa o caso da criança da Sertã é sintomática de uma indignação generalizada relativamente à condenação do sargento a uma pena de seis anos de prisão, mas é também um exemplo de uma informação pouco completa e rigorosa. Acompanho nesta matéria o que escreveu Sofia Loureiro dos Santos, aqui, sobre os limites do jornalismo interpretativo.
Corre-se o risco de se alimentar uma ideia negativa de descrença na Justiça aplicada pelos tribunais que não pode ser generalizada. Isto não significa que possamos ignorar que a morosidade ou ineficácia das decisões, nomeadamente, na área cível é insustentável e mina a credibilidade de todo o sistema.
Há, contudo, sinais positivos de mudança para melhor.
Um deles é a importância crescente que os cidadãos, os deputados, os operadores judiciais dão à necessidade do combate à corrupção, a vontade de impedir o alastramento de relações perversas entre a acção política, o futebol e os interesses imobiliários.
Foram apresentadas um conjunto de iniciativas legislativas na Assembleia da República que serão discutidas em breve. Desejamos que o debate sobre o que está em causa em todas elas possa chegar de forma completa e objectiva a todos os cidadãos para que possamos ajuizar como se comportaram os diferentes grupos parlamentares nesta matéria. A inscrição do combate à corrupção na agenda política é por si só um facto positivo que terá forçosamente como resultado melhor legislação e maior eficácia nesse combate.
É positivo o dinamismo que está ser demonstrado pelo Ministério Público, não só por parte do novo Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro, mas também por um conjunto de brilhantes magistrados.
A designação por Pinto Monteiro de Maria José Morgado para coordenar as investigações de todos os inquéritos e processos instaurados ou a instaurar conexos com o “Apito Dourado” foi um sinal positivo, como aqui escrevemos.
A recente eleição da Francisca Van Dunem, directora do Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP), como Procuradora-geral distrital de Lisboa é também um facto muito positivo. Francisca Van Dunem é uma competente magistrada, discreta, e muito respeitada pela sua competência e rigor profissionais e pelo seu profundo conhecimento do direito penal. Não é por acaso que foi eleita por maioria absoluta, por voto secreto, pelo Conselho Superior do Ministério Público.
A maior eficácia da repressão penal também se deve à qualidade que está ser demonstrada de forma crescente pelos agentes policiais, não apenas da Judiciária, mas também da PSP e da GNR.
Naturalmente ainda há muito por fazer para que a Justiça se torne um direito social, mas há que valorizar todos os que se empenham com profissionalismo em criar condições para melhorar o funcionamento da justiça. Nada disto dispensa uma comunicação social objectiva e que nos dê elementos para avaliar o funcionamento da Justiça, nem cidadãos activos e exigentes.
PS. 1 Tenciono explicar as razões por que vou votar “sim” no próximo referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez.
Lamento a forma primária como muitos estão a tratar esta questão, quer entre os que votam “sim”, quer entre os que votam “não”.
Estou convencido que o resultado do referendo depende da forma como votarem os cidadãos que sendo contra o aborto são também favoráveis à despenalização. Se não forem votar, o “sim” não vencerá.
Quero por isso dizer que os posts que sobre esta matéria Tomás Vasques tem colocado no seu blogue, designadamente este, são mais eficazes para a mobilização dos votos pelo “sim”, que os excessos de linguagem que tem criticado. É verdade que muitos e graves excessos têm também sido utilizados para defender o “não”.
Não nos iludamos, o eleitorado tem bom senso e punirá os excessos. Ganhará quem demonstrar bom senso e bom gosto no tratamento desta questão difícil.
PS 2. Um grande abraço de parabéns ao Luís Novais Tito e ao Carlos Manuel Castro pelos três anos do Tugir.
Parabéns também à equipa do Canhoto por já ter ultrapassados os 1001 posts.
São blogues com quem temos um link permanente e de consulta frequente.
domingo, janeiro 21, 2007
MEMÓRIAS DE EDMUNDO PEDRO
A apresentação do primeiro volume das “Memórias - Um Combate pela Liberdade” de Edmundo Pedro, no passado dia 18 de Janeiro, 73 anos depois da greve revolucionária de 18 de Janeiro de 1934. A preparação dessa greve levou-o à prisão com quinze anos de idade, tendo sido condenado a um ano de prisão e à perda de direitos políticos por cinco anos.
O livro editado pela Âncora, foi apresentado por Pacheco Pereira, na Torre do Tombo. Na mesa estiveram presentes: o Presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, o Secretário de Estado da Cultura, Mário Vieira de Carvalho, Manuel Alegre, o director da Torre do Tombo, Silvestre Lacerda, além do editor, Baptista Lopes.
Este livro, muito bem escrito, é um documento incontornável sobre a luta de uma geração de militantes operários para quem o comunismo aparecia nos anos trinta do século XX como a concretização das suas aspirações a uma sociedade de justiça e democracia, uma sociedade sem discriminações. Edmundo Pedro pertence à geração de muitos milhares, talvez milhões, de jovens que enfrentaram nessa época em todo o mundo, os pelotões de fuzilamento, a forca, o cutelo ou «foram lançados, servindo de combustível, nas fornalhas dos comboios militares de Chiang Kai Chek». Muitos felizmente, como Edmundo Pedro, viveram o tempo suficiente para perceber como a ruptura do leninismo com as tradições democráticas do movimento operário levaram à traição dos ideais libertadores que os animavam.
Nada disto retira grandeza à luta generosa da geração de dirigentes operários do PCP, que procederam à reorganização do PCP em 1929, como Bento Gonçalves, Francisco Paula de Oliveira (Pavel), José de Sousa e dos que a continuaram.
Nada disto torna menos odiosa a repressão violenta de que foram vítimas por parte do salazarismo. Edmundo Pedro, como muitos outros comunistas, anarco-sindicalistas e mais tarde militantes anti-coloniais experimentaram no campo de concentração do Tarrafal a mais brutal e desumana repressão e se alguns saíram dali vivos isso deve-se ao facto do nazi-fascismo ter saído derrotado da segunda guerra mundial. É um dado a ter presente quando se pretende branquear os crimes do salazarismo.
Edmundo Pedro só saiu do campo de concentração do Tarrafal depois de terminada a segunda guerra mundial, com vinte e sete anos e tuberculoso. Fora para lá deportado no início de 1936, com apenas 17 anos.
O seu testemunho sobre o Tarrafal é, aliás, uma parte essencial deste livro, o que se compreende por que nele passou os anos decisivos da sua juventude, ao lado de seu pai, mas também de destacados militantes comunistas e anarco-sindicalistas. Permite-nos também conhecer melhor o regime prisional, as punições a que os presos políticos ali encarcerados estavam sujeitos, as tentativas de fuga, os espancamentos, as torturas cruéis, entre as quais, a frigideira.
O livro de Edmundo Pedro reconstitui ambientes e pessoas tornando-os vivos e presentes. É uma escrita com vocação para a transposição para o cinema. Estou certo que a partir dele se faria um bom guião para um filme.
O livro para além dos acontecimentos em que Edmundo Pedro esteve envolvido e da saga de seus pais e irmãos, uma família dizimada pela repressão salazarista, dá-nos elementos para conhecer o percurso de resistentes de personalidades como Álvaro Cunhal, Mário Castelhano, Júlio Fogaça, Álvaro Salema, Carolina Loff, entre muitos outros.
Conta com um prefácio de Mário Soares que o convidou a ingressar no Partido Socialista e de um posfácio, no qual Fernando Rosas evoca o que apreendeu com ele durante um período em que ambos estiveram presos no Reduto Sul do Forte de Caxias.
Como, justamente, refere Mário Soares é um livro «não só político, mas muito humano».
É impressionante o relato que faz do trabalho no Arsenal e da acção de Bento Gonçalves não só como político, mas também como operário altamente qualificado e empreendedor. Ajuda-nos a ter uma visão mais completa da época e das mentalidades a forma como vai referindo a sua educação sentimental. Dá pistas para estudar e rever a história deste período, a acção dos comunistas, dos anarco-sindicalistas, bem como, as tentativas de José de Sousa depois da ruptura com o PCP, para reorganizar o velho Partido Socialista.
Não é por isso possível tentar fazer a história deste período sem ter em conta este primeiro livro de “ Memórias” de Edmundo Pedro, leitura imprescindível para os que querem conhecer melhor as lutas democráticas que antecederam o 25 de Abril.
O livro editado pela Âncora, foi apresentado por Pacheco Pereira, na Torre do Tombo. Na mesa estiveram presentes: o Presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, o Secretário de Estado da Cultura, Mário Vieira de Carvalho, Manuel Alegre, o director da Torre do Tombo, Silvestre Lacerda, além do editor, Baptista Lopes.
Este livro, muito bem escrito, é um documento incontornável sobre a luta de uma geração de militantes operários para quem o comunismo aparecia nos anos trinta do século XX como a concretização das suas aspirações a uma sociedade de justiça e democracia, uma sociedade sem discriminações. Edmundo Pedro pertence à geração de muitos milhares, talvez milhões, de jovens que enfrentaram nessa época em todo o mundo, os pelotões de fuzilamento, a forca, o cutelo ou «foram lançados, servindo de combustível, nas fornalhas dos comboios militares de Chiang Kai Chek». Muitos felizmente, como Edmundo Pedro, viveram o tempo suficiente para perceber como a ruptura do leninismo com as tradições democráticas do movimento operário levaram à traição dos ideais libertadores que os animavam.
Nada disto retira grandeza à luta generosa da geração de dirigentes operários do PCP, que procederam à reorganização do PCP em 1929, como Bento Gonçalves, Francisco Paula de Oliveira (Pavel), José de Sousa e dos que a continuaram.
Nada disto torna menos odiosa a repressão violenta de que foram vítimas por parte do salazarismo. Edmundo Pedro, como muitos outros comunistas, anarco-sindicalistas e mais tarde militantes anti-coloniais experimentaram no campo de concentração do Tarrafal a mais brutal e desumana repressão e se alguns saíram dali vivos isso deve-se ao facto do nazi-fascismo ter saído derrotado da segunda guerra mundial. É um dado a ter presente quando se pretende branquear os crimes do salazarismo.
Edmundo Pedro só saiu do campo de concentração do Tarrafal depois de terminada a segunda guerra mundial, com vinte e sete anos e tuberculoso. Fora para lá deportado no início de 1936, com apenas 17 anos.
O seu testemunho sobre o Tarrafal é, aliás, uma parte essencial deste livro, o que se compreende por que nele passou os anos decisivos da sua juventude, ao lado de seu pai, mas também de destacados militantes comunistas e anarco-sindicalistas. Permite-nos também conhecer melhor o regime prisional, as punições a que os presos políticos ali encarcerados estavam sujeitos, as tentativas de fuga, os espancamentos, as torturas cruéis, entre as quais, a frigideira.
O livro de Edmundo Pedro reconstitui ambientes e pessoas tornando-os vivos e presentes. É uma escrita com vocação para a transposição para o cinema. Estou certo que a partir dele se faria um bom guião para um filme.
O livro para além dos acontecimentos em que Edmundo Pedro esteve envolvido e da saga de seus pais e irmãos, uma família dizimada pela repressão salazarista, dá-nos elementos para conhecer o percurso de resistentes de personalidades como Álvaro Cunhal, Mário Castelhano, Júlio Fogaça, Álvaro Salema, Carolina Loff, entre muitos outros.
Conta com um prefácio de Mário Soares que o convidou a ingressar no Partido Socialista e de um posfácio, no qual Fernando Rosas evoca o que apreendeu com ele durante um período em que ambos estiveram presos no Reduto Sul do Forte de Caxias.
Como, justamente, refere Mário Soares é um livro «não só político, mas muito humano».
É impressionante o relato que faz do trabalho no Arsenal e da acção de Bento Gonçalves não só como político, mas também como operário altamente qualificado e empreendedor. Ajuda-nos a ter uma visão mais completa da época e das mentalidades a forma como vai referindo a sua educação sentimental. Dá pistas para estudar e rever a história deste período, a acção dos comunistas, dos anarco-sindicalistas, bem como, as tentativas de José de Sousa depois da ruptura com o PCP, para reorganizar o velho Partido Socialista.
Não é por isso possível tentar fazer a história deste período sem ter em conta este primeiro livro de “ Memórias” de Edmundo Pedro, leitura imprescindível para os que querem conhecer melhor as lutas democráticas que antecederam o 25 de Abril.
domingo, janeiro 14, 2007
PAZ LIBERDADE E DESENVOLVIMENTO PARA GUINÉ-BISSAU
Os recentes acontecimentos na Guiné-Bissau desde o assassinato por desconhecidos de Lamine Sanhá, ex-chefe do Estado Maior da Armada e que foi um dos mais próximos aliados do brigadeiro Ansumane Mané, líder da ex-Junta Militar, que derrubou Nino Vieira, estão a ser seguidos com angústia e preocupação em Portugal, onde vivem muitos milhares de guineenses, muitos dos quais são hoje também cidadãos portugueses.
Os guineenses têm uma grande presença em Portugal e puderam sentir durante a guerra civil, iniciada em 7 de Junho de 1998 e que só terminou em Maio de 1999, que não estavam sós nos momentos difíceis e que podiam contar com os portugueses. Vários milhares de cidadãos com dupla nacionalidade portuguesa e guineense, ou apenas com nacionalidade guineense puderam encontrar acolhimento em Portugal e beneficiar do estatuto de protecção temporária, que foi prorrogado para lá de todos os limites legais.
Portugal foi para eles um porto de abrigo, como tem sido para muitos governantes da Guiné-Bissau de Luís Cabral a Nino Vieira. É por isso natural que sigamos com preocupação as notícias que nos vêm de Bissau.
No clima de medo, insegurança, informações contraditórias e boatos, que circulam em Bissau, é difícil ter há distância uma informação completa sobre o que se passa. Sente-se no contacto com muita gente o receio de falar claro.
Cabe aos guineenses e às suas instituições encontrar os caminhos para a paz, a liberdade e o desenvolvimento.
A defesa dos direitos humanos e as obrigações humanitárias transcendem hoje, contudo, as fronteiras de qualquer Estado.
Vários acontecimentos justificam preocupação: o assassinato de Lamine Sanhá; a situação de tensão traduzida em várias agressões e manifestações de jovens; a morte de um jovem na sequência dessas manifestações; acusações recíprocas de envolvimento no referido assassinato; a tentativa de detenção do líder do PAIGC, o partido mais votado nas últimas eleições, Carlos Gomes Júnior, que se refugiou nas instalações da ONU em Bissau.
Temos seguido com atenção e solidariedade a intervenção persistente da Liga Guineense dos Direitos Humanos (LGDH), associação membro da FIDH (Federação Internacional dos Direitos Humanos) e as declarações do seu presidente, Luís Vaz Martins, e esperamos que possam continuar a dar um contributo para a paz e a defesa dos direitos humanos. É necessário mais do que nunca manter a cabeça fria e apelar à razão.
Todos nós desejamos que a Guiné-Bissau seja um Estado soberano, uma democracia estável e bem governada, em que a paz, a liberdade e o desenvolvimento sejam realidade.
Cabe aos guineenses e às suas instituições encontrar os melhores caminhos para que assim seja, mas os países amigos e as instituições internacionais devem estar atentos e solidários. Estou certo que a diplomacia está atenta e sensível a esta situação e que, quer a CPLP, quer as Nações Unidas, não regatearão a sua colaboração para que se construa um clima de paz e liberdade sustentável, sem o qual não se alcançará o desenvolvimento que os guineense aspiram.
A Guiné-Bissau tem todas as condições para ser um país desenvolvido, dispõe de riquezas naturais, incluindo petróleo, mas tem sobretudo um povo, que na riqueza da sua diversidade cultural, é composto por cidadãos laboriosos, muitos dos quais com elevadas qualificações académicas e profissionais.
Para concluir gostaria de fazer meu, o voto de um poeta da Guiné-Bissau, Vasco Cabral, já falecido, que lutou pela liberdade para Portugal e para a Guiné-Bissau. Nos primeiros versos de um poema publicado na “Antologia Poética da Guiné-Bissau”, ed. Editorial Inquérito, 1990, intitulado “Desabafo” diz:
«Oh! Que bom seria transformar
os falcões em pombas
e fazer as pombas sorrirem primavera?
…»
Os guineenses têm uma grande presença em Portugal e puderam sentir durante a guerra civil, iniciada em 7 de Junho de 1998 e que só terminou em Maio de 1999, que não estavam sós nos momentos difíceis e que podiam contar com os portugueses. Vários milhares de cidadãos com dupla nacionalidade portuguesa e guineense, ou apenas com nacionalidade guineense puderam encontrar acolhimento em Portugal e beneficiar do estatuto de protecção temporária, que foi prorrogado para lá de todos os limites legais.
Portugal foi para eles um porto de abrigo, como tem sido para muitos governantes da Guiné-Bissau de Luís Cabral a Nino Vieira. É por isso natural que sigamos com preocupação as notícias que nos vêm de Bissau.
No clima de medo, insegurança, informações contraditórias e boatos, que circulam em Bissau, é difícil ter há distância uma informação completa sobre o que se passa. Sente-se no contacto com muita gente o receio de falar claro.
Cabe aos guineenses e às suas instituições encontrar os caminhos para a paz, a liberdade e o desenvolvimento.
A defesa dos direitos humanos e as obrigações humanitárias transcendem hoje, contudo, as fronteiras de qualquer Estado.
Vários acontecimentos justificam preocupação: o assassinato de Lamine Sanhá; a situação de tensão traduzida em várias agressões e manifestações de jovens; a morte de um jovem na sequência dessas manifestações; acusações recíprocas de envolvimento no referido assassinato; a tentativa de detenção do líder do PAIGC, o partido mais votado nas últimas eleições, Carlos Gomes Júnior, que se refugiou nas instalações da ONU em Bissau.
Temos seguido com atenção e solidariedade a intervenção persistente da Liga Guineense dos Direitos Humanos (LGDH), associação membro da FIDH (Federação Internacional dos Direitos Humanos) e as declarações do seu presidente, Luís Vaz Martins, e esperamos que possam continuar a dar um contributo para a paz e a defesa dos direitos humanos. É necessário mais do que nunca manter a cabeça fria e apelar à razão.
Todos nós desejamos que a Guiné-Bissau seja um Estado soberano, uma democracia estável e bem governada, em que a paz, a liberdade e o desenvolvimento sejam realidade.
Cabe aos guineenses e às suas instituições encontrar os melhores caminhos para que assim seja, mas os países amigos e as instituições internacionais devem estar atentos e solidários. Estou certo que a diplomacia está atenta e sensível a esta situação e que, quer a CPLP, quer as Nações Unidas, não regatearão a sua colaboração para que se construa um clima de paz e liberdade sustentável, sem o qual não se alcançará o desenvolvimento que os guineense aspiram.
A Guiné-Bissau tem todas as condições para ser um país desenvolvido, dispõe de riquezas naturais, incluindo petróleo, mas tem sobretudo um povo, que na riqueza da sua diversidade cultural, é composto por cidadãos laboriosos, muitos dos quais com elevadas qualificações académicas e profissionais.
Para concluir gostaria de fazer meu, o voto de um poeta da Guiné-Bissau, Vasco Cabral, já falecido, que lutou pela liberdade para Portugal e para a Guiné-Bissau. Nos primeiros versos de um poema publicado na “Antologia Poética da Guiné-Bissau”, ed. Editorial Inquérito, 1990, intitulado “Desabafo” diz:
«Oh! Que bom seria transformar
os falcões em pombas
e fazer as pombas sorrirem primavera?
…»
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